O ator Michael B. Jordan em cena de Pecadores (Reprodução)

Perspectiva amefricana,

Distopia retrospectiva

Em Pecadores, Ryan Coogler reencena trauma fundacional dos EUA em liturgia profana que entrelaça música, corpo e violência

26fev2026 • Atualizado em: 14mar2026 | Edição #103

Pecadores mexeu comigo como acredito que com muitas pessoas negras. Há filmes que operam menos como narrativas fechadas e mais como dispositivos simbólicos que produzem alegorias, imagens contaminadas por camadas históricas, raciais, míticas. À primeira vista, o longa se apresenta como um híbrido entre horror, drama histórico e fábula moral. À medida que avança, revela-se um ensaio visual sobre culpa, desejo, comunidade e violência estrutural. O diretor Ryan Coogler não me pareceu interessado só em contar uma história, mas em reencenar um trauma fundacional e em perguntar quem paga o preço do “pecado original” nos Estados Unidos.

O sul dos EUA é um território marcado pelo legado da escravidão, da segregação e da exploração econômica, assim como várias experiências que percorrem as Américas, e o filme mobiliza o imaginário do gótico sulista para desmontá-lo por dentro. A trama vampiresca e sanguinária não é decorativa. O vampiro deixa de ser uma criatura sobrenatural para se tornar uma figura política, que se alimenta da vida alheia para perpetuar sua existência. A metáfora é clara, mas nunca feita de forma simplória, e ainda assim ambígua — o que confere densidade literária à narrativa.

O ator Miles Caton em cena de Pecadores (Reprodução)

Desde Fruitvale Station: a última parada (2013), passando por Creed: nascido para lutar (2015) e Pantera Negra (2018), Coogler construiu uma filmografia perpassada pelo questionamento sobre como produzir histórias da experiência negra sem reduzi-la à dor, ainda que esta não seja apagada. Se Pantera Negra projeta uma utopia afrofuturista, em Pecadores estamos diante de uma distopia retrospectiva, na qual o passado se torna um lugar assombrado e que insiste em retornar, num diálogo menos com o épico e mais com a tragédia.

A noção de pecado é múltipla: há o religioso, herdado de uma moral cristã que historicamente serviu para justificar a escravidão e a disciplina dos corpos negros. Há, também, o pecado social, ligado à transgressão das normas impostas pela supremacia branca, e há, sobretudo, o pecado estrutural, que não nasce de uma escolha individual, mas de uma condição histórica. O longa dialoga com o pensamento de James Baldwin, especialmente com sua recusa em aceitar a culpa como um fardo moral individualizado e com a reflexão de que a verdadeira culpa pertence a uma sociedade que constrói sua prosperidade sobre a desumanização de outros. A história parece ecoar essa tese ao deslocar a pergunta do “quem pecou?” para “quem se beneficia do pecado?”.

Blues

A estética de Pecadores lembra tanto o expressionismo quanto o realismo mágico com suas cenas noturnas saturadas, quase sufocantes, nas quais o sangue não é só choque, é linguagem. Me lembrou Amantes eternos, de Jim Jarmusch, na maneira como associa o vampirismo à melancolia histórica. Mas, enquanto Jarmusch aposta em um niilismo elegante, Coogler ancora sua narrativa em uma violência concreta e racializada, com um arquétipo vampiresco que não é um dândi europeu entediado, e sim uma alegoria do capital, da plantation e da continuidade da exploração.

A atriz Wunmi Mosaku em cena de Pecadores (Reprodução)

Os antagonistas vampiros são irlandeses não por escolha deslocada. Antes de serem incorporados à categoria de “branco”, os irlandeses ocuparam, no imaginário racial norte-americano do século 19, uma posição ambígua, frequentemente descritos como uma sub-raça, comparados a negros e indígenas, segundo teorias raciais da época. A passagem da marginalidade à branquitude não se deu por simples integração cultural, mas por um pacto tácito com a ordem racial, no alinhamento ao policiamento, ao trabalho sujo da repressão e à competição violenta contra trabalhadores negros. 

Pelo suborno racial, a comunidade irlandesa trocou a experiência comum da exclusão por um lugar na hierarquia da dominação. O vampiro irlandês de Pecadores encarna a figura histórica do ex-subalterno que garante a própria sobrevivência sugando a vida de quem permanece abaixo. O filme transforma esse processo de “tornar-se branco” em imagem literal de corpos que se alimentam do sangue alheio, negro e indígena, preferencialmente, e sugere que a branquitude, longe de ser identidade estável, é uma tecnologia predatória de ascensão social. Se o vampiro tradicional é o aristocrata decadente, o de Coogler é o imigrante que aprende rápido as regras do jogo.

O longa dialoga com James Baldwin, especialmente com sua recusa em aceitar a culpa como um fardo moral

Há no filme também ecos de Corra!, de Jordan Peele, sobretudo na forma como o horror é usado como ferramenta crítica e não como escapismo. Assim como Peele, Coogler entende que o gênero permite dizer o indizível, tornando visível aquilo que o realismo tradicional costuma silenciar. No entanto, Pecadores é menos satírico e mais ritualístico, e se organiza como uma liturgia profana, em que música, corpo e violência se entrelaçam. O blues está presente, com sua história como expressão de dor, desejo e sobrevivência, um contraponto ao vampirismo que suga, enquanto a música transforma a dor em linguagem e em memória compartilhada.

O interesse quase lascivo dos vampiros pelo blues desloca o horror para o plano sociocultural ao representar que não basta sobreviver do corpo negro, é preciso também capturar sua imaginação. Assim, o filme encena uma história conhecida, de uma indústria que perseguiu, segregou e encarcerou pessoas negras enquanto convertia sua criação estética em mercadoria branca. Do blues ao rock, do jazz e house ao pop, é similar a trajetória de apropriação, higienização e lucro. Os vampiros de Pecadores não querem só ouvir música, mas possuí-la. 

Cena de Pecadores (Reprodução)

Outro ponto suscitado pelo longa é o contraste entre a solidão dos vampiros — em geral retratados sozinhos ou em clãs menores — e a ideia de comunidade negra como espaço de proteção e também de conflito. Não há idealização, mas o desvelamento de fissuras, dilemas éticos e contradições internas. 

Eu sintetizaria o filme com a palavra “ambivalência”. Para Coogler, não há narrativas redentoras, respostas claras nem final confortável. Ele trabalha de forma brilhante a complexidade material e simbólica da condição negra no mundo, e isso exige finais complexos, em aberto e a serem construídos. Pecadores reverbera uma sensação incômoda que a intelectualidade negra reflete há décadas, pela pergunta e pela inquietação: quem são os verdadeiros monstros? É possível sobrevivermos sem nos tornarmos o que nos oprime? 

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Distopia retrospectiva”

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