Perspectiva amefricana,
Um presente depois do futuro
Nesse tempo de colapso global, em que as distopias parecem atrasadas em relação à realidade, a literatura resiste ao narrar a intimidade, a ansiedade e o medo
22jan2026 | Edição #102Por muito tempo, a distopia me conduzia a um exercício de imaginação sobre o que poderia ser desconexo no futuro. Hoje, sinto um certo deslocamento. Não porque os livros tenham perdido força, mas porque o mundo resolveu correr mais rápido do que a ficção. A distopia parece já não apontar para o amanhã, mas descrever o agora com atraso.
A leitura de certos romances passou a provocar uma sensação estranha de reconhecimento, como num déjà vu. Em 1984, George Orwell nos apresenta um regime totalitário extremo, que soa anômalo. Não é preciso pensar muito para perceber que, hoje, boa parte das pessoas convive com vigilância permanente, coleta de dados, deturpação da linguagem, apagamento de fatos em tempo real, entre outras situações de manipulação. Essa engrenagem ganha uma camada nova com a inteligência artificial. Se antes o controle dependia de grandes aparelhos de propaganda, agora pode operar no nível microscópico dos algoritmos, distorcendo percepções e fabricando consensos invisíveis.
A sensação de distopia cotidiana se espalha pelo mundo como uma atmosfera na qual guerras se prolongam sem horizonte de fim, deslocamentos forçados são transformados em estatística, fronteiras são cada vez mais militarizadas, ao passo que discursos humanitários se repetem em tom burocrático. O que antes aparecia nos romances como cenário extremo, agora se impõe como paisagem política permanente, em um cenário no qual a exceção virou regra e o estado de emergência se tornou modo de governar.
Há algo de profundamente distópico no modo como a geopolítica contemporânea administra vidas como se fossem variáveis de ajuste, com sanções econômicas que condenam populações inteiras à escassez, políticas migratórias que transformam corpos em ameaça, alianças internacionais que se reorganizam não em nome da vida, mas da estabilidade dos mercados e da manutenção de zonas de influência. Infelizmente, estamos nos habituando a assistir a bombardeios em tempo real pela mesma tela em que pedimos comida e respondemos mensagens, fazendo da catástrofe geopolítica uma rotina e mais uma notificação.
Terror real
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Margaret Atwood sempre insistiu que O conto da aia (1985) não é uma fantasia futurista, mas uma colagem de eventos reais que já aconteceram em diferentes lugares. Não à toa, diversas manifestações feministas pelo mundo têm as aias como símbolo. Nada do que está no romance é realmente impossível, fazendo que o terror nasça justamente desse reconhecimento. Não estamos diante de monstros alienígenas, mas de estruturas políticas e religiosas que conhecemos bem.
Como produzir estranhamento num mundo que já é estranho? Como criar choque quando o leitor vive cercado de notícias que parecem roteiro de filmes apocalípticos? Me parece que uma saída tem sido abandonar a tentativa de competir com a realidade e apostar na intimidade. Se o colapso global está dado, resta narrar seus efeitos microscópicos, o medo que entra na rotina, a ansiedade que molda relações ou o esgotamento que redefine sonhos.
Dois títulos que chamam a atenção pela maneira de narrar tudo isso com delicadeza são Estação Onze (Intrínseca, 2015), de Emily St. John Mandel, e Não me abandone jamais (Companhia das Letras, 2016), de Kazuo Ishiguro. No primeiro, não é a pandemia que ocupa o centro da narrativa, mas o que sobra depois dela, com as pequenas comunidades, os afetos improvisados, a arte como tentativa de manter a humanidade respirando. No segundo, em que a premissa é brutal, mas o tom é contido, o que mais assusta é como as personagens aceitam seu destino, numa distopia que se revela menos na violência explícita do que na resignação.
Como criar choque quando o leitor vive cercado de notícias que parecem filmes apocalípticos?
A literatura latino-americana tem uma tradição longa de trabalhar com o absurdo como extensão do real. O realismo mágico nunca foi fuga, mas uma forma de dizer que nossas realidades já eram inacreditáveis demais para caber em outras formas. Hoje, uma gama de autores, sobretudo autoras, escrevem histórias que flertam com o horror sem abandonar completamente o chão. O estranho aparece na sala de estar, no quarto de criança, na rua de sempre. A distopia contemporânea não se passa em cidades futuristas com prédios gigantescos, mas em apartamentos pequenos, escritórios, timelines infinitas, construindo a sensação de ser sempre observado, avaliado, em dívida com alguma expectativa inalcançável.
A imaginação radical se torna uma necessidade política, não mais para prever o futuro, mas para inventar saídas. Se a distopia descreve o presente, a utopia precisa ser reabilitada como exercício de pensar e construir o que ainda não existe. A literatura pode não mudar o mundo sozinha, mas ajuda a expandir o campo do possível. Sem isso, ficamos presos a um eterno agora distópico que se vende como única opção.
Os romances de Octavia Butler, por exemplo, não são apenas imaginação catastrófica, mas também laboratório de novas formas de viver. Em Parábola do semeador (Morro Branco, 2018), o mundo está em ruínas e a protagonista cria uma filosofia baseada na mudança como única constante. Não se trata de salvar tudo, mas de construir comunidades capazes de atravessar o caos. A distopia se transmuta em ponto de partida. Se tudo ao redor insiste em dizer que não há alternativa, escrever passa a ser um ato de desobediência. Imaginar futuros, mesmo frágeis, mesmo imperfeitos, torna-se uma forma de resistência.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026.
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