Mulher e criança nativas mexicanas com intervenções gráficas de Gabriela Heberle (DeGolyer Library/Southern Methodist University/Divulgação)

Perspectiva amefricana,

Permanências coloniais

Balún Canán mostra o choque entre um país que tenta promover reformas sociais e uma elite que aprende a preservar privilégios

01jul2026 | Edição #107

Quando Lázaro Cárdenas assumiu a presidência do México, em 1934, o país ainda tentava transformar em realidade as promessas da Revolução Mexicana, como a reforma agrária, a reorganização das relações de trabalho, o fortalecimento da educação pública, a incorporação política de camponeses e a reparação a povos indígenas. Cárdenas reorganizou o partido governista, ampliando a presença popular, incentivando organizações campesinas e sindicais e impulsionando uma política de educação rural que buscava integrar setores marginalizados ao projeto de Estado. 

Mas a história latino-americana raramente se move de maneira linear e vemos muitas vezes leis mudarem antes das estruturas sociais, decretos chegarem antes da redistribuição efetiva de poder. Em muitas regiões do México, sobretudo nas áreas rurais, a modernização institucional convivia com relações coloniais, sustentadas por latifúndio, racismo, patriarcado e violência cotidiana. É nesse ponto de tensão que a literatura de Rosario Castellanos encontra sua força. 

Publicado originalmente em 1957, Balún Canán acompanha os conflitos provocados pelas reformas sociais em uma estrutura agrária profundamente hierarquizada. O romance apresenta o choque entre um país que tenta reorganizar suas instituições e uma elite rural que aprende rapidamente a retardar, distorcer ou esvaziar essas mudanças para preservar privilégios. 

Castellanos percebe que a colonização tenta controlar a linguagem e definir quais vozes serão reconhecidas

Nascida em 1925, Rosario Castellanos viveu até 1974. Conheceu de perto a realidade que retrata em voz infantil e tom crítico. Apesar da dimensão autobiográfica evidente, a trama não funciona como simples reconstrução memorialística e a experiência é reelaborada como observação crítica a respeito de um país marcado por permanências coloniais. A trajetória de Castellanos atravessou muitos campos: foi romancista, poeta, ensaísta, dramaturga, jornalista, professora universitária, promotora cultural e diplomata. Sua obra esteve ligada às discussões sobre mulheres, desigualdade social e relações étnico–raciais no México. 

Comitán, em Chiapas, região próxima da Guatemala, aparece no romance por seu nome maia, Balún Canán. A presença indígena se manifesta não apenas como tema social, mas como dimensão histórica e simbólica do território. A relação com a Guatemala surge em detalhes da vida cotidiana, nos produtos considerados mais refinados, nas trocas culturais e nas referências de prestígio cultivadas pelas elites locais. Ao redor, existe uma sociedade organizada pela concentração de terra e pela desigualdade racial. 

Em duas das três partes nas quais o romance é dividido, a narração é da menina, membro da família proprietária de terras, de quem não se sabe ao certo o nome. É uma escolha que produz efeito curioso ao longo da leitura porque, em alguns momentos, a voz narrativa parece sofisticada demais para uma criança. Certas observações ganham uma elaboração quase ensaística, o que causa estranhamento. Ainda assim, existem passagens em que a percepção infantil emerge de maneira poderosa, sobretudo na forma como a narradora observa as hierarquias ao seu redor sem compreendê-las inteiramente.

Intervenções gráficas de Gabriela Heberle (DeGolyer Library/Southern Methodist University/Divulgação)

A relação da menina com a babá indígena talvez seja um dos aspectos mais fortes do livro. A menina aprende com ela a ouvir o território, os silêncios e os fantasmas da fazenda, mas é perceptível que existe também uma consciência precoce da distância social que as separa. Ela sabe que ama aquela mulher e, ao mesmo tempo, que não deseja ocupar o lugar dela no mundo. Castellanos compreende que o racismo não se organiza apenas como discurso explícito de ódio; também se estrutura na naturalização cotidiana da hierarquia.

A tensão linguística é interessante na construção do romance. Ao passo que o espanhol aparece como língua de distinção, hierarquia e poder, as línguas indígenas ocupam o lugar da memória coletiva, intimidade e resistência. Castellanos percebe que a colonização não se sustenta só pelo controle da terra ou pela força armada, mas também pela tentativa de controlar a linguagem e definir que vozes serão reconhecidas como legítimas.

Resistência

Balún Canán demonstra enorme sensibilidade para compreender que a resistência indígena não acontece apenas por meio da insurreição aberta. O romance acompanha também formas menos visíveis de sobrevivência e organização coletiva. Há silêncios estratégicos, circulação de narrativas próprias, preservação da língua e crescente conscientização política. Esse processo dialoga com o contexto histórico do cardenismo, especialmente com os incentivos à organização campesina e indígena por parte do governo federal.

A narrativa mostra como as elites agrárias reagiam às transformações sociais tentando preservar intacta a estrutura de mando. A escola rural talvez seja o melhor exemplo disso. A legislação determinava a expansão do ensino público e popular. Na fazenda da família, porém, o patriarca decide nomear um sobrinho bastardo da família, sem qualquer preparo pedagógico ou compromisso com o ensino das crianças indígenas, como professor da escola local. A escola existe formalmente, mas precarizada e submetida aos interesses dos proprietários. Castellanos parece sugerir que parte das elites latino-americanas aprendeu a sobreviver às reformas administrando sua aplicação parcial. 

As mulheres da elite aparecem submetidas a uma lógica patriarcal rígida. A mãe da narradora vive preocupada com reconhecimento social e manutenção das aparências, sob uma moralidade branca que transforma a própria vida em exercício constante de vigilância. A despeito de ocupar uma posição social que lhe garante privilégios em relação às mulheres indígenas e mestiças, isso não elimina sua submissão à autoridade masculina. 

A menina sabe que ama a babá e, ao mesmo tempo, que não deseja ocupar o lugar dela no mundo

Já a prima do patriarca evidencia o envelhecimento feminino como fracasso social. O valor das mulheres é medido pela capacidade de casamento, reprodução e adequação às expectativas sociais da elite. Enquanto isso, indígenas e mestiças ocupam o nível mais baixo dessa hierarquia colonial, alvo constante de exploração e violência sexual pelos homens da fazenda. 

Castellanos não tenta apagar as contradições da intelectualidade branca e mestiça progressista latino–americana e talvez isso seja um dos pontos de tensão mais interessantes. O romance reconhece a dificuldade de romper com estruturas coloniais que moldam linguagem, afetos e modos de percepção do mundo. 

Durante uma viagem ao México para participar de um evento em 2019, uma das coisas que mais me chamou atenção foi a dificuldade de inserir o debate racial em determinados espaços públicos e acadêmicos. Algumas organizações e participantes compreendiam a centralidade do racismo na formação mexicana e reivindicavam esse debate com enorme lucidez. Mas ainda existia certo desconforto diante da ideia de raça como problema estrutural do país, como se a violência racial pertencesse sempre a outro lugar. Balún Canán desmontou essa fantasia muito antes das disputas contemporâneas sobre identidade e raça. 

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Permanências coloniais”

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