Perspectiva amefricana,
Quando o Estado é o terror
Ainda precisamos imaginar um país em que segurança não signifique o direito de matar, em que a democracia não precise do sangue preto para se manter de pé
04nov2025 • Atualizado em: 01dez2025 | Edição #100Nesta coluna, eu gostaria de escrever sobre o brilho das palavras, sobre o encantamento que emerge quando um autor ou autora do Sul Global mobiliza a linguagem como quem abre brechas no mundo. Meu desejo era dedicar estas linhas ao gesto criador que transforma a dor em arte, ao trabalho de quem escreve desde as margens e alcança o centro com a força de um trovão. Mas o terror estatal não deixa. E no momento em que escrevo não me importo muito com o que pesquisas tenham apontado sobre a opinião “popular” acerca de uma chacina. Políticas de segurança pública comprometidas com a vida pouco deveriam se importar com opiniões — a não ser aqueles que privilegiam escolhas eleitoreiras em vez de garantidoras de direitos.
A cada dia, a literatura que desejo comentar é interrompida pela narrativa do extermínio, do cerco, da barbárie institucionalizada. O que coloca em questão se minha insistência em escrever sobre literatura é um luxo diante da brutalidade que se repetiu nos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão. Não foi a primeira vez, mas queria que fosse a última. O que era para ser uma coluna sobre o ofício de escrever torna-se, inevitavelmente, um ato de denúncia e de resistência, porque quando o Estado decide que o sangue negro e periférico é descartável, a crítica literária também precisa se sujar de realidade para continuar sendo escrita.
O que vimos foi a política de morte em pleno exercício, meticulosamente planejada e celebrada como “operação de sucesso”. O eco de uma pedagogia da morte que se repete há séculos, apenas trocando de farda e vocabulário, atravessando corpos negros, indígenas e pobres com ferro e fogo. O pacto colonial segue em curso, inquebrantável, renovado a cada incursão policial. Pouco importa a hora, o local, se há crianças, idosos, trabalhadores. E não me importa também o debate sobre antecedentes criminais, porque, até onde consta, a pena de morte não existe no Brasil. Ao menos, não no papel. Ainda que na prática a teoria seja outra.
Sou cria do Jardim São Luís, periferia da zona sul de São Paulo, território que já compôs o que chamavam de “triângulo da morte”, local de um cemitério onde repousam, sem descanso, meninos tombados por uma guerra que o Estado insiste em travar contra negros e “quase brancos pobres como pretos”. Cresci ouvindo promessas sobre uma democracia em que todos seriam iguais perante a lei, mas essa afirmação sempre me soou deslocada, quase uma fábula contada por quem nunca precisou se esconder de uma viatura. Ainda que eu a defenda, quando homens brancos, em palanques, a convocam como símbolo, penso: quando chegará, de fato, a democracia para pretos e quase brancos pobres como pretos?
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Há uma memória que grita. De Palmares a Canudos, do Carandiru ao Alemão. Uma memória com um mesmo script da colônia aos blindados contemporâneos. Uma guerra incessante, hoje chamada de “segurança pública” e que segue sublinhada pela arquitetura do controle racial, como uma cartografia do medo desenhada sobre a carne preta e periférica.
Os jornais falam em “alvos” e “bandidos”, apagando a humanidade de homens e mulheres que nasceram condenados por viver em territórios que o Estado decide que não merecem o direito de respirar. A necropolítica nunca foi só um conceito, mas um diagnóstico do cálculo que mede a vida do morador de favela em função da conveniência política, da lógica eleitoral e da legitimação do poder armado. A cada operação, uma performance de autoridade é realizada, sacrificando corpos negros no altar da impunidade branca. Falam em fuzis, mas não perguntam como eles chegaram até ali. Há fábricas de armas nas favelas brasileiras? Pergunta retórica. Você, que me lê, sabe a resposta.
Há uma memória que grita de Palmares a Canudos, do Carandiru ao Alemão, da colônia aos blindados
E há também os corpos fardados entregues ao abate. Policiais, muitos deles periféricos, usados como linha de frente de uma guerra que não é deles, na qual morrem quando tombam e quando são esquecidos. O Estado que mata o morador da favela é o mesmo que sacrifica o policial da favela.
Há ainda uma dimensão de gênero nesse massacre: mães que enterram filhos, mulheres que transformam o luto em luta, meninas que crescem aprendendo que o choro precisa ser silencioso para não chamar atenção da violência estatal. Essa que apunhala o útero das mulheres negras como uma herança forçada, perpetuando a orfandade como destino coletivo. As políticas de extermínio não matam apenas os corpos, mas o direito de sonhar. E, ainda assim, é das favelas que brotam as mais radicais imaginações de futuro.
Sobrevivência
O Haiti é aqui. Gaza é aqui. Irmanados pelo sonho de liberdade, ainda que vivamos sob a morte como método de governo. Somos insistentes e recusamos o apagamento, não aceitamos o eufemismo do “erro operacional”. Recusamos a crença de que a polícia possa ser reformada sem que se desfaça o fundamento racial da punição. Reafirmamos que não há justiça enquanto a vida negra seguir sendo tratada como descartável. Aqui, o abolicionismo penal e a demanda pelo fim da guerra não são devaneios, mas projeto radical de sobrevivência. Ainda precisamos imaginar um país em que segurança não signifique o direito de matar, mas o dever de cuidar; em que a democracia não precise do sangue preto para se manter de pé.
Os massacres no Alemão, na Penha e no Chapadão são expressões de um Estado que precisa matar para se afirmar. Mas não se engane: de cada tiro, nascerá um tambor; de cada luto, surgirá uma marcha; a cada corpo tombado, emergirá uma voz para dizer que não haverá esquecimento. Enquanto o Brasil insiste em se olhar no espelho sem reconhecer a própria monstruosidade, olhos de mães nas favelas não se desviarão porque elas sabem que a democracia que mata seus filhos é apenas uma máscara mal costurada sobre a ditadura racial que nunca terminou. E é por isso que seguimos escrevendo, denunciando e sonhando.
Enquanto houver uma só mulher negra e periférica chorando por um filho assassinado pelo Estado, a palavra será também arma, e o verbo, insurreição.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.
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