Coluna

Juliana Borges

Perspectiva amefricana

Compromisso de escrever

Djaimilia Pereira de Almeida mostra que confinamento ao tema do racismo é o fardo a se carregar pela audácia de nos afirmarmos escritoras negras

18jul2023 - 11h24 | Edição #72

Embora Djaimilia Pereira de Almeida tenha deixado registrado que falava por si mesma, desobrigando-se do peso de ter que, por sua voz, representar milhões de mulheres negras em espaços de interação com não negros, é impossível não encontrar conexão com sua narrativa como mulher negra escritora que sou. Ou como Djaimilia nos propõe: como escritora que sou. E tão somente.

O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo reúne dois ensaios e uma conversa, sendo essa última fruto da interação entre Djaimilia Pereira de Almeida e Stephanie Borges, poeta e tradutora brasileira, em evento promovido pelo Instituto Moreira Salles.

A leitura desse livro de Djaimilia foi contraditória. Eu o li em uma sentada, durante a viagem da livraria até minha casa, depois de um dia tão exaustivo que jamais imaginaria que uma autora pudesse reunir as condições para prender minha atenção e garantir minha concentração. A leitura foi como um ato violento de devoração. E, logo depois de lê-la, fui arrebatada pelo silêncio. O texto me atravessou de forma felina e ferina. Algo assim, desse modo de reverberação por horas e dias, só havia acontecido com Audre Lorde, Paulo Lins e Virginia Woolf. E com Paul Preciado.

Afinal, existe essa coisa-objeto de “escritora negra”? E, se existe, para que e para quem serve? Coisa e objeto não estão nessas linhas por acaso. Ao ler as palavras de Djaimilia sobre identidade, privilégios, autoconsciência, estabeleci diálogos e conexões com o já lido em bell hooks, Audre Lorde, Virginia Woolf, Gloria Anzaldúa, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e tantas outras autoras e autores que não darei conta de citá-los.

Somos pessoas negras que escrevem e nossos escritos carregam vivências que se interconectam

As conexões já começaram com sua afirmativa de que ter nascido em 1982 foi um acontecimento privilegiado. Bem, essa que vos escreve nasceu em 1982. Teria sido possível à minha mãe ser escritora? Teria sido possível à minha avó? A impossibilidade e demarcação do tempo, do que significa o hoje e o ontem por Djaimilia, nos alivia e nos assombra. Não foi difícil pensar em minha tia-avó, que sonhou ser atriz de teatro e teve seus sonhos despedaçados porque precisou trabalhar desde menina para ajudar nas despesas da casa e porque, no período de sua mocidade, ser atriz era considerado “coisa de puta”. Quem me apresentou a riqueza de Solano Trindade, o interesse pela leitura e pela cultura em geral foi ela. Talvez porque projetasse em mim tudo que o seu tempo a impediu de ser.

Só discordo de Djaimilia quanto ao privilégio do tempo porque acredito que, em seu próprio texto, é desenvolvida a chave de que a mulher negra escritora, objeto e coisa do nosso tempo, seja uma vantagem que herdamos em relação à luta e às aspirações de nossas ancestrais, mas também um assombramento, dado o fetichismo que nos consome pelo mercado editorial. A própria autora nos aponta que o confinamento ao tema do racismo em nossos escritos, ou ao que falamos, são esse caminho de assombração e certa maldição para se carregar pela audácia de nos afirmarmos escritoras sendo mulheres negras. Nesse sentido, ainda seguimos desprovidas de poder, o que, por sua vez, não nos garante o status de privilegiadas.

Mas o fato é que há autoconsciência e — para aludir a Patricia Hill Collins — autodefinição de que somos pessoas negras que escrevem e que produzem literatura tanto quanto brancos que escrevem e produzem suas páginas literárias. Teríamos que lançar mão, portanto, da dialética para lidar com essa situação que, se por um lado busca nos confinar, carrega o sentido de uma reafirmação pela palavra. Sim, somos pessoas negras que escrevem e nossos escritos carregam um conjunto de vivências e experiências que se interconectam de algum modo, nessa experiência de não lugar e reinvenção produzidos pela diáspora forçada.

Margens 

Esse é o caminho pelo qual Djaimilia nos conduz para seu último ensaio sobre o direito à interioridade de pessoas negras, em que se posiciona e reafirma seu compromisso como escritora que fala de “coisas de negro”, de um “lugar de negro”, com a mesma pergunta: “As vidas das margens não são do interesse central da humanidade?”. As vidas das margens importam?

O compromisso assumido no último ensaio remete a um brilhante texto de bell hooks, ainda não traduzido ao português, em que a teórica norte-americana fala de um compromisso que se assume em relação à negritude em diáspora reafirmando a coletividade relacionada à própria voz. Ou seja, o sentimento e os sentidos são reafirmações de humanidade. E não seria essa nossa principal reivindicação? Humanidade. Com isso, as humanidades e as literaturas se dimensionam para a reconstrução de nossas interioridades, de nos darmos “uma mente que sempre esteve aqui”.

O ponto, aqui, é que a escrita é uma necessidade dilacerante para Djaimilia e para mim. E o que posso fazer é reafirmar essa posição e contrariar um público ávido pela reafirmação do óbvio. Sou uma escritora negra. Sou uma pessoa negra que escreve para organizar minha raiva e para não morrer sufocada por ela.

Nota da redação: a interação mencionada no texto se refere a uma entrevista com Djaimilia Pereira de Almeida, realizada por Stephanie Borges no Festival Serrote, do Instituto Moreira Salles, em julho de 2022.

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.