Literatura,

A confissão do carrasco

Novo romance de ganhadora do Prêmio Oceanos revela a brutalidade e a delicadeza de um ex-capitão de navio negreiro

01maio2021 - 01h31 | Edição #45

“Mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora.” Os versos de “Fado tropical”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, poderiam servir de epígrafe de A visão das plantas, da luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida. Ganhador do segundo lugar do Prêmio Oceanos em 2020 (a autora já havia vencido o primeiro lugar em 2019, com Luanda, Paraíso, Lisboa), ele narra a história de Celestino, um homem misterioso marcado por um passado brutal. Ao longo da narrativa somos apresentados a uma personagem aterradora, que foi capaz das piores atrocidades, mas que na velhice se tornou um zeloso jardineiro às voltas com suas plantas. 

O romance inicia com o regresso de Celestino a Portugal, à casa vazia, após anos de vida no mar, o que desperta curiosidade e medo na vizinhança, pois paira sobre ele uma desconfiança de que era um pirata — a saber, pirata, aqui, é eufemismo para capitão de navio negreiro em viagens entre o continente africano e o Brasil — e de que havia cometido atrocidades contra negros escravizados. É refugiando-se no jardim, no espaço natural, que Celestino regressa à vida: “A rega e o zelo geraram uma infinidade de seres que descobria nos dedos ao mexer na terra: minhocas, besouros verdes, bichos-de-conta. A vida regressava”. Assim, enquanto a vizinhança o espreita com olhares curiosos, preenchendo o imaginário da pequena cidade, Celestino passa os dias cuidando das plantas com tal devoção e afeto que seu passado e suas mãos descansavam na delicadeza de sardinheiras e gerânios. 

No entanto, ao contrário da letra de Chico Buarque e Ruy Guerra, que revela a ambivalência do sentimento em relação à brutalidade da colonização e a denúncia de um remorso latente, em A visão das plantas não há culpa, mas uma indiferença mordaz. Com seu regresso à terra natal, a tortura deixou de fazer parte dos planos de Celestino, que se dedica à sua obra: o jardim, seu lugar de proteção, onde não há espaço para julgamentos. Sem pranto, sem remorsos e sem culpa. Como se, ao entregar-se à terra, pudesse esquecer o que se passou no mar. Não é mais o Império português que cresce e desabrocha, mas o império de plantas e flores, talvez o único espaço possível para acolher Celestino e seus crimes. É no silêncio das plantas que ele se prepara para morrer, cultivando a terra como se cultivasse o próprio tempo antes do fim. Mesmo que a memória da violência colonial o persiga, não como um trauma — que torna essas lembranças mais assombrosas —, mas uma espécie de prazer, uma saudade sádica das atrocidades cometidas: “O sangue, da lascívia e da volúpia, a morte, em todas as suas declinações lúgubres, tudo tinha no quintal o seu duplo, na forma de cada planta, que, com mãos delicadas de mulher, tratava como pessoas”.

Somos nós que o julgamos, já que as plantas não fazem perguntas, existindo em silêncio, perfeitas na sua função de florir

As viagens negreiras para o Brasil tiveram seu auge entre os anos 1750 e 1850 — só nesse período, 7 mil navios aportaram no Brasil trazendo escravizados do continente africano. É nesse contexto que se insere o capitão Celestino. No entanto, a tese do romance parte de um livro chamado Os pescadores (1923), do português Raul Brandão, que apresenta personagens anônimos da classe trabalhadora em Portugal, mas que se revelam interessantes enquanto experiência humana. Em uma das passagens, Brandão faz menção ao capitão Celestino, que, apesar da fama como pirata, acabou quase como um santo. Sem julgamento e sem plateia. Foi justamente a partir desse personagem que Djaimilia elaborou seu protagonista, que ganhou uma aura profunda. Repelindo qualquer tentativa de leitura maniqueísta, o romance vai revelando de maneira filosófica as contradições humanas. Djaimilia adentra na complexidade de Celestino com maestria e domínio linguístico, apresentando uma narrativa seca e dura, ao mesmo tempo lírica, resultado de frases curtas e precisas. 

A narrativa das mãos 

As mãos de Celestino nos conduzem ao universo da possibilidade das injustiças. As mesmas mãos sujas de sangue, as mesmas unhas atrozes, que revolveram entranhas e decapitaram corpos negros, agora reviram a terra, entre minhocas, adubo, roseiras e besouros. Talvez seja este o grande assombro suscitado pelo romance: o que as mãos são capazes de fazer e ainda assim continuar impunes? Em uma das cenas mais aterradoras, Celestino relata que, para conter uma revolta em alto-mar, tranca a porta do porão logo após ter jogado cal sobre os cativos, levando-os à morte por sufocamento. É nas suas mãos que as marcas violentas do Império português no processo de colonização se materializam. E, ao cuidar do jardim, num ato de amor à natureza, Celestino se redime para as plantas, porque sabe que elas não o julgarão. A delicadeza das pétalas na ponta dos dedos do capitão contrasta com sua brutalidade. Em que lugar há de se enterrar o coração de um carrasco? Em A visão das plantas, o jazigo pode ser uma roseira, uma personalidade híbrida, que revela a contradição entre a violência e o amor. 

“As plantas viam o jardineiro como as plantas veem. Não se sentiam agradecidas.” Djaimilia tenta captar o segredo de uma vida cuja trajetória criminosa não será confessada. Embora o padre da cidade aconselhe Celestino a se confessar, ele se mantém em silêncio. A confissão só se dará para o leitor. Somos nós que o julgamos, já que as plantas não fazem perguntas, existindo em silêncio, perfeitas na sua função de florir. “Não eram as plantas, que não fazem perguntas, muito mais proveitosas do que o aborrecido padre, com os seus olhos culposos?” É na relação com as plantas que Celestino experimenta a sensação de indiferença que ele mesmo nutria ao praticar atrocidades. Há, pois, a consciência de que a natureza ignorava sua existência. Para as plantas, não interessam as mãos de quem cuida delas. Não interessa se pertencem a uma senhora católica ou a um homem que cortou gargantas e vendeu olhos de cativos. O que elas veem é um velho e seu jardim. Nada mais.

Em um acesso de descontrole, entre o delírio e realidade, Celestino passa a cavar um buraco em seu quintal: “Cavou pela sua vida, sem pensar em nada, sem sentir o corpo”. Cavava uma cova que não é para si, mas para enterrar seu coração mergulhado em memórias criminosas, como se naquele acesso, naquele delírio, pudesse apagar aquilo que os vizinhos e a história já haviam apagado, mas que ele, o pirata, o carrasco, o assassino, não esquecera.

Quem escreveu esse texto

Jeferson Tenório

É autor de O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020).

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.