Madonna durante o show de encerramento da 'Celebration Tour', no dia 4 de maio, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro

Música,

Madonna e o sábado passado em San Pedro

Uma ilha imaginária, retratada numa canção pop dos anos 1980, nos faz pensar em ideias de liberdade e em utopias possíveis

14maio2024 - 18h24 • 21maio2024 - 16h12
Madonna durante o show de encerramento da 'Celebration Tour', no dia 4 de maio, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (Kevin Mazur/WireImage for Live Nation)

“Tinha medo de tudo quase, cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo, do que não ficava para sempre.”
Antonio Bivar

San Pedro existe. O problema reside em saber exatamente onde. Ou mesmo do que se trata: uma cidade, uma rua, em casos mais drásticos talvez seja uma ilha… É impossível dizer com total certeza. Na canção “La Isla Bonita”, de Madonna, o seu mais famoso e detalhado guia, trata-se da ilha que o título faz questão de assegurar a existência, apoiado no adjetivo a descrever suas belezas naturais. Seria assim o paraíso perdido, que os cartões-postais tentam em vão dar conta. A narradora da letra se refere a San Pedro como à lembrança de um sonho que a arrebatou na hora de acordar e persistiu ao longo do dia. “A noite passada sonhei com San Pedro, até parece que foi ontem, não faz muito tempo”, nos avisa, deixando claro que a memória da ilha já é uma espécie de borrão, difícil de localizar. San Pedro é também pretérito imperfeito.

“Rezei para que os dias durassem, mas eles passaram tão rápido”, canta Madonna mais à frente, deixando claro, outra vez, que a precisão temporal é mesmo a sua grande inimiga.

Quem suspeita que San Pedro pudesse ter sido apenas uma conjectura noturna, talvez esqueça o sussurro em espanhol que a cantora lança nos primeiros segundos de “La Isla Bonita”: “¿Como puede ser verdad?”. É a pergunta que exige uma resposta afirmativa de quem escuta a história. A narradora não parece duvidar da memória que o sonho trouxe, e sim da nossa capacidade em acreditar nas suas palavras. Algo aconteceu, mas não sabemos bem o quê ou quando. Sim, algo aconteceu, porque mereceu a visita do sonho. A outra certeza que temos é que foi longe da segurança cotidiana de onde quem sonha mora. É para isso que serve a ideia das ilhas: para proteger a casa das nossas fantasias.

Macondo

“Voltou à ilha na sexta-feira, 16 de agosto, na barca das três da tarde”, começa o romance póstumo Em agosto nos vemos, de Gabriel García Márquez. A ilha sem nome, que podemos chamar aqui de San Pedro, pela segurança que sua localização remota carrega, é para onde viaja sozinha a protagonista da história, Ana Magdalena Bach, casada, com filhos, dona de tudo aquilo que chamamos de estável. Vai pontualmente, ano após ano, visitar o túmulo da mãe.

A cada nova visita, nota a decadência do lugar. Uma decadência não apenas de estrutura, mas de uma outra coisa, difícil de precisar. Sente que o tempo na ilha passa de uma forma diversa. Que anda para trás. Voltar para a ilha não é apenas voltar para a mãe morta; é habitar uma época que esqueceu que ainda existia. Na véspera da visita ao túmulo, decide jantar no bar do hotel e pede uma mistura com gim. Enquanto bebe, é embalada pelo som de uma orquestra e pelos olhares de um estranho. Ele se aproxima e a música parece tocar mais alto em algum lugar dentro dos futuros amantes.

No segundo gole ela sentiu que o brandy tinha se encontrado com o gim em alguma parte do seu coração e precisou se concentrar para não perder a cabeça. A música acabou às onze e a orquestra estava só esperando para que fossem embora para encerrar.

Assim descreve García Márquez o momento em que Ana Magdalena, enfim, descobre a ilha emocional que existe escondida em toda ilha. Na manhã seguinte, decide que, a cada viagem para o túmulo da mãe, irá buscar também um novo amante. Separa assim a personagem que decide viver naquela ilha da pessoa que interpreta em casa, como quem separa o insensato do sonho das obrigações da manhã seguinte.

A ilha, que abriga tantas possibilidades de fantasias, nos lembra a Macondo de García Márquez

A ilha sem nome, que abriga tantas fantasias, de Em agosto nos vemos, nos lembra a Macondo de García Márquez, que explodiu no romance Cem anos de solidão, mas que atravessou todo a obra do autor colombiano, sempre que ele precisava dar abrigo ao fantástico ou à visita de algum forasteiro. Não é simples encontrar lugar para um estranho. A Macondo, como aldeia que virou marca e clichê da literatura latino-americana, aparece pela primeira vez no romance de estreia do escritor, La Hojarasca. A trama é sucinta: um velho coronel, sua filha Isabel e um neto de onze anos formam três vozes narrativas que se intercalam durante o velório de um forasteiro que, numa madrugada distante (mais uma vez o tempo se desenrola impreciso), nega ajuda a um filho legítimo de Macondo.

A primeira vez que o nome Macondo surge numa obra de García Márquez é no conto “Um dia depois de sábado”, de 1953. Não era aldeia nem cidade, mas um hotel. Talvez a descrição mais Macondo que García Márquez fez sem o uso da palavra Macondo esteja no conto “Morte constante para além do amor”, usada para descrever o povoado que abrigou a relação infame do senador Onésimo Sánchez com a jovem Laura Farina. Aqui ele se chama Rosa del Virrey:

Uma povoaçãozinha ilusória, que de noite era um abrigo furtivo para os navios de longo curso dos contrabandistas e, em contrapartida, ao sol parecia a curva mais inútil do deserto, frente a um mar árido e sem rumo, e tão afastado de tudo que ninguém suspeitaria que ali vivesse alguém capaz de mudar o destino de ninguém.

Fortaleza

De ilha de localização perdida para um prédio prestes a ser demolido. Encontramos outra San Pedro no número 293 da praia de Iracema, em Fortaleza. É o edifício S. Pedro, antigo hotel de luxo da capital cearense e, nos anos recentes, uma ocupação. Mas que na cabeça da escritora Socorro Acioli é, sempre foi, o Ed. San Pedro, por conta de sua obsessão pela música da Madonna. “Somente eu chamo de Ed. San Pedro aqui em Fortaleza, pela doidice de ‘La isla bonita’ na minha cabeça”, me adianta Acioli por mensagem de WhatsApp. É no edifício transformado pela memória da canção que a escritora cearense localiza seu próximo romance, que tem como protagonista um jovem cubano que junta dinheiro para comprar uma mãe. Sim, uma mãe. “No edifício San Pedro do meu livro mora uma comunidade que vive um projeto utópico de recriar um mundo onde todos os deslocados se sentem em casa”, continuou.

(Leio a mensagem de Acioli e lembro que também tive uma San Pedro, que perdi de comprovar sua existência. Em fevereiro de 2016 estava em Havana e dei de cara com a placa “Calle San Pedro”. Só recordo que era próxima ao mar. Estava sem telefone na hora e não tive a chance de fazer a brincadeira de turista: uma foto minha com a placa San Pedro ao fundo e a legenda de “Enfim, em ‘La Isla Bonita’. Para que mesmo andar com celular em Havana? Assim, o registro não existe, mas ficou a lembrança. É melhor assim.)

Copacabana

A praia de Copacabana é um dos endereços mais famosos da cultura pop. Ainda que não necessariamente esteja localizada no Rio de Janeiro. No sucesso da disco music Copacabana, de Barry Manilow, o nome da boate quente de Havana, onde trabalha a showgirl Lola. No filme A malvada, Bette Davis lança um veneno para descrever uma aspirante a atriz, interpretada por Marilyn Monroe: “Ela estudou na escola Copacabana de Interpretação”. Na canção Rio, do Duran Duran, o nome da praia não aparece. Sabemos apenas que uma garota chamada Rio dança na areia da praia livremente. Não precisamos conjecturar muito para saber em qual praia. Esqueça as imagens recentes de passeatas fascistas. No universo pop, Copacabana é um lugar de liberdade, onde tudo é possível. É o imaginário congelado do que implica ser latino, para o bem e para o mal. Seja no Rio, em Buenos Aires ou em Havana. Copacabana é sempre meio Macondo. É sempre meio San Pedro. E, às vezes, torna-se até uma ilha. Até uma cidade invisível.

O clipe de “La Isla Bonita” foi gravado em 1987, em Los Angeles, e traz imagens de praias, uma Madonna vestida de dançarina de flamenco e um subúrbio (sempre o subúrbio) a carregar todos os estereótipos de uma América Latina como o tal paraíso perdido. O clipe é hipnótico na sua ingenuidade de beleza e, às vezes, e justamente por isso, até parece um desenho dos Simpsons ao reduzir tudo ao caricato. É também o clipe mais visto da cantora no YouTube.

Enquanto escrevo (uma semana depois do show em Copacabana), “La Isla Bonita” é o maior hit da cantora no Brasil, no Spotify. Há algo que nos atrai para essa canção e que engolimos sem medo dos seus clichês. Talvez seja o “bonita” do título, que acreditamos como algo de uma beleza só nossa. Seja lá o que for, foi sempre mais nossa do que dela. Mais nossa do que deles. É que, às vezes, é preciso amar uma coisa sem ironia. “La Isla Bonita” talvez tenha sido o momento do show da Madonna no Rio, naquele sábado de maio, que mais ouvi a plateia cantando junto. Foi algo como o refrão de uma música pop como o hino nacional, já que o nosso hino foi recentemente confiscado pelo fascismo. Ao menos naquela noite, a canção era o hino do Brasil.

Há algo que nos atrai para essa canção e que engolimos sem medo dos seus clichês

Houve uma sequência no show da Madonna, durante a música “Live To Tell”, em que ela mostrou imagens de personalidades que morreram vitimadas pelo hiv, sobretudo nas décadas de 80 e 90. No dia seguinte, vários usuários da plataforma X (antigo Twitter) postaram que a apresentação os ajudou a revelar o diagnóstico de hiv positivo. Reproduzo aqui dois posts que viralizaram (no entanto, prefiro guardar o anonimato dos usuários. O que importa não é quem revelou, mas a força da revelação):

@xxxx faz um ano que eu recebi o diagnóstico positivo pra HIV e ir pro Rio foi a melhor decisão da minha vida. ver milhões de pessoas emocionadas enquanto Madonna performava live to tell me fez acreditar mais uma vez que viver pode ser realmente incrível

@xxxx1 Depois do show da Madonna, eu quero dizer algo: eu sou HIV positivo indetectavel!

Há coisas que só acontecem mesmo depois de uma noite em San Pedro. Há coragens que aparecem só depois da experiência de algo como um circo. A vertigem diante do voo do trapezista.

Na versão do show de Copacabana, Madonna cantou “La Isla Bonita” pela metade. Decepou a parte da letra que fala de um encontro amoroso heteronormativo: “Sem preocupação alguma no mundo, estamos onde uma garota ama um garoto e um garoto ama uma garota”. Lembro de ter escutado alguém falar, enquanto Madonna cantava, algo como “Meu sonho é que as gays nunca fossem embora do Rio”. A sensação de conforto, ainda que temporária, da comunidade como rede de proteção.

Numa entrevista para a Rolling Stone, em 2009, Madonna disse que nunca esteve em San Pedro e que não tem a menor ideia de onde o nome da ilha surgiu. Que “La Isla Bonita” é sua homenagem à “beleza e aos mistérios do povo latino” e que talvez tenha visto o nome San Pedro em algum lugar, só não sabe mais onde. Sim, San Pedro foi sonho. Mas aconteceu.

Quem escreveu esse texto

Schneider Carpeggiani

É editor, jornalista, doutor em teoria literária e curador.