Ozzy Osbourne (1948-2025) durante evento do Hall da Fama nos EUA, em outubro de 2024 (Kevin Mazur/Getty Image)

Música,

O purgatório de Ozzy

O último ritual acompanha dias finais do líder do Black Sabbath, com reflexões sobre morte, arrependimentos, relação com dinheiro e drogas

18mar2026 • Atualizado em: 24mar2026 | Edição #104

“Honestamente, já perdi a conta das maneiras pelas quais envelhecer é uma merda.” Durante décadas, uma frase como essa soaria inverossímil na voz de uma estrela do rock conhecida por seus excessos. Afinal, desde os anos 1960, o folclore roqueiro considerou um desafio sobreviver à suposta “maldição dos 27 anos”, que marcou a partida precoce de tantos jovens talentos musicais: Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse. 

Acontece que, como muitos outros representantes de sua geração, Ozzy Osbourne, o autor da queixa, superou com folga a temida idade. Contra todos os prognósticos, alcançou a velhice. E é justamente a sofrida etapa final dos 76 anos de vida, encerrada em 22 de julho de 2025, devido a uma parada cardíaca, o assunto principal de sua nova autobiografia, Ozzy Osbourne: o último ritual, publicada pela Belas Letras, com tradução de Marcelo Barbão.

Osbourne acertou ao recrutar novamente, como ghost writer, o jornalista e escritor inglês Chris Ayres, colaborador em suas primeiras memórias, Eu sou Ozzy (2010). Respeitado também como correspondente de guerra, Ayres triunfa na missão de ajudar o cantor a repassar a sua trajetória de modo minimamente fidedigno e organizado. Não era exatamente simples: além do histórico de sessenta anos de abuso de múltiplas substâncias tóxicas, Ozzy lidava ainda com dislexia, TDAH (o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e, nos últimos anos, Parkinson.

Anedotas do mais célebre metaleiro são intercaladas à rememoração do seu calvário geriátrico

Estilisticamente, Ayres optou por botar no papel a fala descomplicada e crua do astro, farta em gírias, palavrões e onomatopeias, o que garante ao leitor a sensação de estar ouvindo-o numa conversa entre amigos. Entrega, enfim, o Ozzy que o fã espera ler — em forma e conteúdo, diga-se, já que várias anedotas históricas do mais célebre metaleiro, tão caras à antologia do rock, são intercaladas à rememoração do seu calvário geriátrico. 

Claro que entraram na edição as duas diferentes ocasiões do início dos anos 80 em que o músico mordeu uma pomba e um morcego. “Tenho dificuldade em acreditar que a pandemia foi realmente iniciada por alguém que comeu um morcego”, brinca. 

O humor é, aliás, um elemento importante para a narrativa. Em mais de uma passagem, Ozzy ridiculariza a mística sinistra em torno da imagem dele e dos outros três fundadores do Black Sabbath, a banda precursora do heavy metal. “As pessoas pensam que, por ser o Príncipe das Trevas, devo ouvir só música de órgão enquanto estou pendurado de cabeça para baixo no teto ou algo assim. Mas adoro todo tipo de música”, explica. “Eu voltava para casa depois de cantar sobre Satanás e bruxas, e ficava ouvindo ‘Your Song’, do Elton John, com os olhos cheios de lágrimas.”

Grito de alegria

O mérito principal do livro é dar voz ao autor até praticamente o seu último suspiro. As reflexões finais são do breve intervalo de dezessete dias que separa a derradeira e emocionante aparição ao vivo de Ozzy, no concerto em tributo a ele, Back to the Beginning, e a morte. “Era o meu último grito de alegria”, escreve ele sobre o evento, realizado em sua Birmingham natal, para 45 mil admiradores, com transmissão televisiva ao vivo e participação de dezenas de convidados ilustres. “Eu tinha chegado ao palco após seis anos traumáticos, depois de perder a capacidade de andar ou fazer qualquer coisa sozinho.”

Foi mesmo um período sombrio. Numa queda em janeiro de 2019, ele sofreu uma grave lesão no pescoço, região na qual já tinha problemas sérios, por causa de um acidente prévio. A partir de então, Ozzy enfrentaria sete cirurgias, algumas em plena pandemia, que desencadearam diversas consequências negativas. Entre elas, a dependência de novas drogas prescritas, o agravamento do Parkinson e uma sucessão de pneumonias. Voltar aos palcos virou uma questão de honra. Porém, diante da saúde cada vez mais debilitada, os adiamentos de turnê foram se encadeando rumo a um inevitável e doloroso cancelamento definitivo, decretado em 2023. “Me sentia um fardo para todos ao meu redor”, lamenta. 

Ao tratar com honestidade a própria doença e a proximidade da morte, o cantor extravasa sua complicada relação com o dinheiro, atribuída à origem humilde num bairro operário de Birmingham. “Se você é um cara da classe trabalhadora e não pode bater o ponto, sente que está fazendo seus colegas trabalharem em dobro”, afirma. “O fedor da pobreza não sai no banho.” Igualmente transparente é a abordagem de assuntos até mais espinhosos. Ele não se esquiva do deplorável episódio de 1989 em que agrediu a esposa Sharon, que o acusou de tentativa de homicídio. Da mesma forma, destila culpa pelo estapafúrdio acidente de avião e ônibus que, em 1982, vitimou duas pessoas de sua equipe, incluindo seu guitarrista e grande amigo Randy Rhoads (“se alguém merecia morrer, esse alguém era eu”). 

O caráter sincero de Ozzy se aplica, ainda, ao arrependimento pelas besteiras cometidas com ex-companheiros de Black Sabbath e na recapitulação da experiência com uma variedade de vícios ao longo da vida: da cocaína à oxicodona, passando por álcool e charutos. Mesmo a obsessão pela fama entra em pauta sob esse viés, quando relembra a abstinência de protagonismo que sentiu após o término do reality show The Osbournes (2002). Só lhe falta coragem para uma autocrítica à sua assumida adição sexual e seus efeitos na relação com Sharon, a quem dá amostras de veneração, atribuindo a ela o fato de ter vivido muito mais do que esperava.

Quem escreveu esse texto

Daniel Setti

Jornalista e músico, é autor de Do vinil ao streaming: 60 anos em 60 discos (Autêntica).

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.