Música,
Oasis a meio mundo de distância
Assistir à reunião dos irmãos Gallagher na Escócia me fez reviver todas as pequenas memórias embaladas por suas canções
20nov2025Comprei meu primeiro disco do Oasis aos catorze anos. Nessa época, CDs já estavam obsoletos, mas eu tinha o hábito de comprar o álbum caso gostasse de ao menos três músicas. Foi uma colega de escola que me apresentou a banda e reparei que já a conhecia subconscientemente. A aquisição da coletânea Time flies… 1994-2009 foi, então, um pequeno gesto determinante em minha trajetória e suas faixas me acompanharam por inúmeras caminhadas nos anos seguintes.
O tempo voa mesmo. No ensaio “Sobre a transitoriedade”, Freud conta que, durante uma caminhada, as impressões que seus amigos tinham da paisagem que percorriam era pessimista, por causa de sua brevidade. As coisas morrem e por isso não têm valor. Mas, para mim, a efemeridade dá beleza. A possibilidade da perda faz apreciar aquilo que um dia pode não ser mais. Gosto da simplicidade das mudanças.
O desgosto de muitos com o Oasis são os arranjos simples, solos sem complexidade e letras triviais de suas músicas. Tudo isso faz parte de suas músicas, sem dúvida. Mas é bonita a humildade em admitir que não sabemos de coisa alguma, em estar aberto ao que a vida traz. Não ter medo das mudanças. Posso listar inúmeros versos que falam da nossa efemeridade — e fazem isso de um jeito leve, até otimista.
Os irmãos Noel e Liam Gallagher formaram a banda em oposição ao pessimismo do grunge norte-americano que reinava entre os jovens dos anos 90. O mais velho aprendeu a tocar e a compor por conta própria, um escape aos abusos de um pai violento. Com pose de moleques birrentos, só queriam viver, beber, assistir a futebol, farrear, e não se preocupavam com grandes questões. “Perguntas são as respostas de que você pode precisar”, cantam em “D’you know what I mean?”.
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Talvez por isso o rompimento dos irmãos tenha sido tão surpreendente e traumático. Sabia-se que brigavam muito, que existia ali uma guerra de egos. Numa apresentação — que alguns dizem ter marcado o fim da banda —, Liam abandona o vocal, se senta no palco e observa Noel cantar o fim de “Slide away” sozinho. O otimismo que cantavam não convencia mais. “Perdemos a fé no verão, porque não para de chover”, diz a letra de “The importance of being idle”.
Os últimos quinze anos, cheios de insultos e provocações, desgastaram toda aquela aura de dupla perfeita. E a rixa familiar ficou tão famosa que, na turnê Oasis Live 25, que chega agora ao Brasil, um ponto alto das apresentações tem sido a interação carinhosa entre os irmãos. Aguardo ansiosa para ver como estarão os ânimos neste domingo (23), no último show da temporada pela América do Sul, em São Paulo.
Ritual
Não sou uma pessoa religiosa, mas, por vezes, realizo certos rituais. O retorno dos irmãos foi exclusivo, a princípio, para os países britânicos. Por mais plausível que fosse se apresentarem depois em outros países, eu não podia dar chance ao azar, ainda mais com a frágil fraternidade entre os dois.
Acordei às três da manhã, abri uma Coca-Cola, peguei o meu Time Flies… — que ainda guardo junto a outros discos não tocados desde que meu estéreo quebrou, lá em meados de 2012 —, e me posicionei em frente às dezessete abas abertas no computador, uma para cada show anunciado até então, para garantir meu ingresso.
Encarei as horas de espera relembrando momentos em que o Oasis estava presente. “She is love” lembrava meu primeiro amor, aos quinze anos; “Let there be love”, uma época infeliz na escola. Venci os milhares de desconhecidos e fui dormir às dez da manhã sonhando com Edimburgo. Ao anunciar o retorno, a banda tinha publicado: “As armas se silenciaram. As estrelas se alinharam. A grande espera acabou. Venham ver”. E lá fui eu para a Escócia.
Foi curiosa minha primeira vez ouvindo os irmãos ao vivo. A voz de dez shots de tequila numa sexta-feira à noite de Liam, junto à voz de uma Guinness numa terça-feira de Noel, como este comparou um dia. Uma te eletriza, a outra te acalenta. A sensação de uma festa alucinante, porém reconfortante.
A setlist focou nos dois primeiros álbuns, quando os irmãos estavam no ápice. Não faltou nenhuma das grandes composições que os fizeram conhecidos mundo afora. As mais famosas — “Don’t look back in anger”, “Wonderwall” e “Champagne supernova” — formaram a sequência final, um momento que, para quem ainda não estava em êxtase, foi impossível de não se arrepiar com as milhares de vozes em uníssono.
Sucessos posteriores, como “Don’t go away” e “Stop crying your heart out”, foram preteridos pelas canções da época de glória, caso de “Half the world away” — que Noel dedicou especialmente aos fãs sul-americanos, com um “obrigado por virem até aqui” — e “The masterplan”.
Em “Cigarettes & alcohol”, Liam pediu para os fãs se virarem de costas para o palco, apoiarem os braços nos ombros dos parceiros ao lado e pularem juntos. Me agarrei ao casal de brasileiros (estamos em todos os lugares), à minha esquerda, e ao coroa escocês (que disse que a banda estava soando melhor do que nunca), à direita, e tomei um banho de pints de cerveja enquanto ria e gritava despudoradamente.
Otimismo
Rememorando a viagem, vi que o otimismo estava em toda parte. Nas ruas, nas pessoas, na massaroca de fãs apertados contra a grade, nos transeuntes vestindo camisetas e bucket hats da banda no meio de uma cidade medieval, me fazendo sentir parte de um culto, nas inglesas bem vestidas com suas Havaianas e até nos estrangeiros que desmaiaram na plateia após horas sob o “calor” escocês (uma alegria culpada, pois abriram espaço para que eu chegasse mais perto do palco). Em tempos complexos, estamos precisando dessa simplicidade do Oasis. O retorno veio a calhar.
“Sei que sou um mala, mas obrigado por continuarem conosco até hoje”, exclamou Liam ao final da apresentação. Em vez de equilibrar seu tamborim na cabeça perto do apagar das luzes, como costuma fazer, ele o vestiu como uma coroa de espinhos e abriu os braços, como um Cristo Redentor. Não tenho dúvida que foi em homenagem a esta carioca na plateia.
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