Flip, Literatura Negra,

Fértil como terra preta

Homenageada da Flip, Maria Firmina dos Reis é precursora da literatura negra feminina e a primeira romancista do Brasil

01nov2022 - 04h51 | Edição #63

A imagem de Maria Firmina dos Reis é um quebra-cabeça. Não temos notícia de que a primeira romancista brasileira tenha nos deixado retrato, desenho ou pintura de seu rosto. O esforço de escrita e publicação parece ir de encontro a um (imposto) anonimato de mulheres escritoras do século 19. Da autora maranhense temos apenas o nome, a obra e relances de sua trajetória. O suficiente para lhe render homenagens no bicentenário de seu nascimento, como o faz esta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Por volta dos 34 anos, em 1859, Maria Firmina publica seu primeiro texto pela Tipografia do Progresso — São Luís. Úrsula é estruturado em dois eixos narrativos: o trágico e impossível romance entre dois jovens brancos, Úrsula e Tancredo, e os coadjuvantes negros, Túlio e Susana. Uma estrutura comum a romances do século 19, apresentando uma antecena e um fundo de cena. No caso de Firmina, embora a intriga amorosa esteja no centro, ela não é maior que a intriga social elaborada na margem da obra. Pioneiro na autoria feminina, o livro também é o primeiro romance abertamente abolicionista do país.

Antes de O navio negreiro, de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. A autora inscreve o negro como sujeito de uma experiência histórica anterior à escravização, com vínculos afetivos, pertencimentos territoriais e ética de existência coletiva. E, principalmente, falando por si mesmo.

Atuante na imprensa maranhense, Firmina publicou em diversos jornais literários como Pacotilha, Echo da Juventude, Semanário Maranhense e O Federalista. Suas poesias estão reunidas no volume Cantos à beira-mar (1871) e também participou da antologia poética Parnaso maranhense (1861). Publicou ainda a novela indigenista Gupeva (1861-62) e, por fim, o conto “A escrava” (1887).

‘Mesquinho e humilde livro’

Úrsula foi publicado sem o nome de Firmina na capa. A identificação autoral impressa na primeira edição remetia a uma origem: “uma maranhense”. Em outros escritos, adotou as iniciais M. F. R. e só em 1861 passou a assiná-los com o nome por extenso — o uso de pseudônimos era um recurso comum às mulheres que publicavam no século 19.

Lançado em 1859, há indícios de que Úrsula já estava pronto dois anos antes. Em outubro de 1857 o jornal A Imprensa publicou uma resenha sobre o romance, delineando o projeto literário de Maria Firmina. “Essa resenha, que não foi assinada, lança duas frentes: Firmina como uma pensadora da realidade social e uma escritora engajada em dar destaque à enunciação de pessoas silenciadas na sociedade”, diz Luciana Diogo, organizadora do memorial digital sobre o universo firminiano.

“Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor”, escreve Firmina no prólogo de Úrsula. “Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados.” A pretensa postura humilde e a inexperiência no trato com a linguagem, presente em livros de autoria feminina anteriores ao século 20, eram uma estratégia pela qual as mulheres sutilmente conseguiam transpor os limites da época.

A autora inscreve o negro como sujeito de uma experiência histórica anterior à escravização

“Então por que o publicas?”, continua Firmina. O argumento inicial é o “amor materno” à escrita, a tentativa literária que carrega nos braços. A ousadia maior aparece, no entanto, ao final do texto: deseja incentivar outras mulheres a também publicar suas tentativas.

O desejo de Firmina liga-se à Flip em sua homenagem. A vigésima edição, sob curadoria coletiva de Fernanda Bastos, Milena Britto e Pedro Meira Monteiro, é marcada pela predominância feminina na programação.

“Conseguimos construir como coletivo curatorial junto com toda a equipe da Flip uma organicidade em vários pontos. O trabalho da Firmina dialoga com a produção da Saidiya Hartman, em Vidas rebeldes, belos experimentos, e da Annie Ernaux, com O acontecimento. É uma luta por direitos. Algo que aparece em várias outras autoras da programação, como na mesa da Fernanda Miranda [com Midria e Ana Flavia Magalhães Pinto sobre Maria Firmina pelo olhar da crítica literária]”, conta a curadora Fernanda Bastos.

O romance de Maria Firmina é uma forma uterina, capaz de conceber novos mundos

Para Bastos, o prólogo de Firmina se assemelha à célebre frase da antropóloga Lélia Gonzalez (1935-94) ao escrever que as mulheres negras não admitiriam mais ser faladas pela boca e pela escrita dos outros: “o lixo vai falar, e numa boa”. “É a primeira autora negra a ser homenageada na Flip. Numa edição com duas curadoras negras, homenagear Maria Firmina é fazer jus à contribuição da população negra e das mulheres negras na produção literária brasileira”, diz.

Projeto educacional

Maria Firmina foi uma das primeiras intelectuais negras brasileiras. Trabalhou com a escrita, o ensino, a construção de pensamento crítico. Em 1847, foi aprovada em primeiro lugar no concurso público estadual para mestra régia, tornando-se a primeira professora efetiva a integrar oficialmente os quadros do magistério maranhense. Como o concurso estabelecia a idade mínima de 25 anos para assumir o cargo, a escritora abriu um processo para correção de sua data de nascimento, procedimento comum na época. O nascimento de Maria Firmina é, então, antecipado para o dia 11 de março de 1822.

Esse processo se tornou uma fonte documental da maior importância para os pesquisadores da obra da escritora. A partir dele, Agenor Gomes consegue traçar a árvore genealógica mais completa — até então — de Maria Firmina, presente na biografia publicada neste ano pela editora da Academia Maranhense de Letras, Maria Firmina dos Reis e o cotidiano da escravidão no Brasil.

A avó se chamava Engrácia Romana dos Reis, que foi escravizada por um grande proprietário de terras e vendida a Baltazar José dos Reis. Todos os filhos de Engrácia com Baltazar foram alfabetizados, incluindo Leonor Felippa, mãe de Firmina. “Isso desvela a história íntima de uma família negra brasileira. São poucas as histórias em que sabemos os arranjos para uma mulher negra conseguir se alfabetizar naquela época. Leonor alfabetizou Firmina e era a responsável pelo cultivo intelectual dela. Toda a família tinha um apreço pela educação”, comenta Luciana Diogo.

Em 1880, um ano antes de se aposentar, Maria Firmina funda em Maçaricó, distrito de Guimarães (ma), uma escola mista. Foi uma das primeiras instituições de ensino no Brasil a aceitar meninos e meninas na mesma escola. A ousadia do fato é clara, tanto assim que, dois anos e meio depois, foi obrigada a suspender as atividades escolares.

Cânone fraturado

Para Fernanda Miranda — cuja tese de doutorado põe em diálogo oito romancistas negras, entre as quais Marilene Felinto, Conceição Evaristo e Ruth Guimarães —, Maria Firmina é a precursora da autoria feminina negra no romance. Noção associada não apenas à cor de sua pele, mas ao posicionamento político presente em sua obra. Parafraseando a pesquisadora, qual terra preta, o romance de Maria Firmina é uma forma uterina, capaz de conceber novos mundos.

Há uma notável diferença discursiva entre Úrsula e obras da época que tinham a escravidão como tema ou pano de fundo. Em As vítimas-algozes (1869), de Joaquim Manuel de Macedo, e A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães, por exemplo, a abolição não era defendida pela injustiça e crueldade para com o negro, e sim porque a escravidão representaria a corrupção da família branca brasileira. Pontos de vista que representam os interesses econômicos e políticos de uma elite que desejava ver o Brasil no rol das nações modernas. “Esses autores ‘abolicionistas’ falavam por essa elite, contra a escravidão e contra o escravo”, escreve Luciana Diogo em sua dissertação de mestrado sobre Firmina.

“No meu trabalho, tentei pensar a Maria Firmina não de uma forma isolada, como uma mente genial que de repente ascendeu com uma obra inovadora”, conta Luciana. A pesquisadora pôs a escritora em diálogo com autores da época, como Gonçalves Dias (1823-64) e Harriet Beecher Stowe (1811-96), do best-seller A cabana do Pai Tomás. Ao lado desses escritos, Maria Firmina provoca um rompimento ao superar elementos que conformavam as personagens negras a um tipo social, sem narrativas complexas. “Maria Firmina é uma autora canônica não por se enquadrar no cânone, mas por romper com as estruturas consolidadas”, afirma Luciana.

Uma disputa que permanece atual. Em 2012, a pesquisadora Regina Dalcastagnè publicou um estudo quantitativo sobre a produção romanesca nas grandes editoras do país, constatando que o perfil do autor brasileiro era masculino, branco, com diploma superior, heterossexual e urbano (principalmente do eixo Rio-São Paulo). O mesmo perfil caracteriza narradores e personagens. O mapeamento de Delcastagnè mostra que a representação de pessoas negras no romance brasileiro se restringia a irrisórios 7,9% dos personagens totais analisados e somava apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores.

Pioneirismo e anonimato

O tratamento inovador dado ao tema da escravidão, aliado a uma autoria feminina e à distância geográfica da capital, fez com que Maria Firmina dos Reis fosse envolvida em uma “espessa cortina de silêncio” por mais de um século, como escreve o crítico Eduardo de Assis Duarte. Sua vida e obra foram praticamente ignoradas pela historiografia literária brasileira, com rara exceção de Sacramento Blake (1827-1903).

Apesar de Firmina ser uma mulher atuante na imprensa maranhense, o romance Úrsula, sua principal obra, deixou de circular. O livro foi resgatado só em 1962, em um sebo no Rio de Janeiro, por Horácio de Almeida. O historiador doou o exemplar raro da primeira edição do romance ao estado do Maranhão e produziu um fac-símile do texto. Treze anos depois, em 1975, foi publicada a segunda edição fac-similar junto com a biografia escrita por Nascimento Morais Filho.

É em Maria Firmina: fragmentos de uma vida que podemos vislumbrar o rosto da autora. Por meio de depoimentos de quem a conheceu, Morais Filho monta um retrato falado da escritora: por volta dos 85 anos, Firmina tinha “o rosto arredondado, cabelo crespo, grisalho, fino, curto, amarrado na altura da nuca; olhos castanho-escuros; nariz curto e grosso; lábios finos; mãos e pés pequenos, meã (cerca de 1,58m, pouco mais, pouco menos), morena”.

Em 1988, quando da publicação da terceira edição de Úrsula e ano do centenário da abolição, foram publicados alguns prefácios, posfácios e artigos mais analíticos sobre a produção da escritora. Mas foi só a partir dos anos 2000, após a retomada de Firmina por Zahidé Muzart e, notadamente, a partir de 2004, ano da quarta edição do romance, que vimos se iniciarem as pesquisas acadê-
micas sobre a sua produção literária.

Para o público de forma geral, a hipótese de Luciana Diogo é que o interesse foi reacendido a partir de 2017, quando do centenário da morte de Firmina. À época, o Estadão publicou uma matéria sobre a efeméride. “Duas coisas parecem ter influenciado esse interesse: o fato de ela ser divulgada como a primeira romancista brasileira, o que chama a atenção, e o contexto de saturação do mercado editorial, com o público tendo interesse por outras vozes”, diz.

A medida do interesse também está nos números. Úrsula passou da sexta edição, em 2017, para um total de dezoito edições em dezembro de 2018, ou seja, em pouco mais de um ano houve doze publicações do romance. Também há um esforço para que sua obra possa ser discutida pela crítica contemporânea, como o ensaio A mente ninguém pode escravizar: Maria Firmina dos Reis pela crítica contemporânea, organizado por Anna Faedrich e Rafael Balseiro Zin e recém-lançado pela editora Alameda.

Maria Firmina dos Reis morreu em 11 de novembro de 1917, na cidade de Guimarães, onde morou praticamente a vida inteira. Nunca se casou nem teve filhos biológicos, mas adotou onze. Como conta, cresceu em “uma casa de mulheres”. E, arrisco dizer, é também por elas que escreve.

Quem escreveu esse texto

Yasmin Santos

Jornalista. Foi editora-assistente do Nexo Jornal e repórter da revista Piauí.

Matéria publicada na edição impressa #63 em outubro de 2022.