Literatura brasileira,

Azaração em prosa e verso

Quarenta anos da Cantadas Literárias, a coleção que fez a cabeça dos jovens leitores na década de 1980

18mar2022 - 16h39 | Edição #56

São Paulo, 1981. Depois de estrear com o romance Tanto faz, o escritor Reinaldo Moraes aguardava ansioso pela primeira crítica. A editora Brasiliense apostava alto, no embalo do sucesso de Porcos com asas, o número 1 da coleção Cantadas Literárias: o lançamento foi marcado num fliperama da rua Augusta, inaugurado naquela noite. No mesmo evento, foi lançada uma linha de sorvetes da Kibon e uma calça da Zoomp. Uma noite aparentemente insana, mas típica da década que começava num país que se abria à liberdade e enterrava a censura.

Quando saiu a crítica no Caderno B do Jornal do Brasil, um amigo avisou por telefone e ele saiu correndo em busca de alguma banca no centro de São Paulo que vendesse o jornal carioca. A alegria durou pouco. Tanto faz ganhou resenha detalhada que o classificava de “picaretagem estética”. “Eu fiquei gelado. No final, o cara mandava me prender”, relata Reinaldo.
 

      

Tanto faz traz um personagem hedonista, que vai morar em Paris como bolsista, mas vira um bon vivant — um resumo bastante fiel da temporada que o autor passou na capital francesa, para escrever uma tese de economia que jamais foi entregue. A crítica dava o tom do incômodo causado pela coleção criada por Caio Graco Prado e Luiz Schwarcz, que trazia novas vozes e linguagens num conceito gráfico pop e dialogava com um novo interlocutor A dupla acabou formando uma geração de escritores e leitores. Em livros de formato estreito e inusual, os autores lançados na coleção — quase todos estreantes em edição comercial — deram voz a uma geração marcada pela urgência da linguagem e por personagens que falavam de liberdade com liberdade estética, espírito crítico e bom humor. Para usar um dos slogans da coleção: uma literatura “sem frescuras”, que ainda hoje deixa vestígios na ficção nacional.

Sexo e política

O clima de abertura política e cultural favorecia a chegada de um público novo no mercado cultural. “É verdade que se lê pouco no Brasil?”, perguntava a contracapa de Porcos com asas: diário sexo-político de dois adolescentes, o primeiro livro da coleção, dos italianos Marco Radice e Lidia Ravera. A noveleta, que já nas primeiras páginas descreve uma cena de masturbação adolescente, continua a chocar os caretas: está entre os 5 mil títulos que foram banidos por Sérgio Camargo da biblioteca da Fundação Palmares.

Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, o terceiro livro da coleção, foi um de seus maiores sucessos. Escrito a convite do amigo Caio Graco, em 1982, sob o impacto do acidente que deixara Paiva paraplégico, aquele era um novo tipo de narrativa no país. O evento de lançamento estava abarrotado — e sem livros à venda, por causa de uma confusão na logística da editora. O romance seria adaptado para o cinema por Roberto Gervitz, com Marcos Breda e Malu Mader, e até hoje está entre os best-sellers do escritor.

Marcelo Rubens Paiva diz que no Brasil ‘o escritor que vende passa a não ser mais considerado bom’

“Acho que o único objetivo ali [na Cantadas Literárias] não era encontrar um padrão estético, mas encontrar novos talentos literários, que estavam sufocados e silenciados pela ditadura. Agora tinha um canal, que era essa coleção”, aponta Paiva. Mas, assim como aconteceu com Reinaldo, nem sempre a crítica se deixava seduzir pelas Cantadas de Marcelo: “A Folha fez uma vez um artigo chamando de ‘subliteratura’, como se a literatura existisse e a não literatura também. E não: literatura é tudo, de Paulo Coelho a Joyce. Sempre no Brasil há um preconceito muito grande com a cultura pop. O escritor que vende passa a não ser mais considerado um bom escritor pelo mercado. Você tem que ser underground pra ser aceito”. Talvez parte do segredo da coleção tenha sido fazer da contracultura uma espécie de marketing.

Ítalo Moriconi, organizador da correspondência de outro autor lançado pela coleção, Caio Fernando Abreu (Cartas, 2002, Aeroplano), fala com entusiasmo da produção literária da época, especialmente a da Cantadas, destacando o lançamento de novas vozes em alta velocidade e o caráter político daqueles escritores.

“Ali foi um momento de transição muito importante, de transição geral”, analisa Moriconi. “A coleção se insere num movimento de reconstrução nacional, de redemocratização. Do garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, do enfrentamento da ditadura, do cotidiano, daquela monotonia dos militares mandando em tudo. Essa geração relatava-se a si própria. O que ela escrevia era o romance dela própria. A sensibilidade da Brasiliense, do Luiz Schwarcz, no caso, foi ver que aquilo era o movimento literário do momento.”

Eram textos ácidos, que falavam de sexo e drogas com naturalidade e tinham um apelo jovem: “A ideia surgiu como literatura para jovens, mas foi muito bem-sucedida porque não foi só isso. Cada livro era uma realidade em si, mas vamos dizer que, no pacote, havia um pouco dessa ideia de algo existencialmente jovem”, diz Schwarcz. “A coleção aglutinou pessoas que tinham esse novo estilo narrativo, que vai acabar marcando os anos 80 com essa linguagem.” O tom não era de uma aula ou palestra, mas de uma cantada. Estamos falando de Paulo Leminski, Caio Fernando Abreu, Ana Cristina Cesar, Ledusha, Martha Medeiros, Reinaldo Moraes, Marcelo Rubens Paiva, Cacaso.

Espírito do tempo

“Realmente, é uma coisa de espírito do tempo. Estávamos irritados com a ditadura, mas também cansados um pouco da retórica da esquerda, e essa coleção chuta isso e faz escanteio”, reflete Reinaldo Moraes. Para ele, a coleção deixou de apresentar a literatura engajada para ousar na linguagem, o que era recebido por muitos como “textos sem pé nem cabeça”. Reinaldo aponta Feliz ano velho como um exemplo que trazia engajamento político, mas de outra forma. “Se você for listar as virtudes do livro do Marcelo, elas estão muito mais na linguagem. É justamente colocar em cena um personagem que é um cara que fuma maconha, trepa com as namoradas e não parece movido por uma ideologia muito determinada. É claro que ele quer descobrir quem matou o pai dele. Ele quer. Mas o personagem é o moleque daquela geração, né?”

O burburinho gerado por essa cena literária era amplificado nos eventos, nos lançamentos e na agitada noite de São Paulo, com esticadas em bares, cantinas e apartamentos. Reinaldo entrou pelas mãos da editora Maria Emilia Bender, que trabalhava na Brasiliense à época e dividia casa com ele. Reinaldo pediu e ela levou o texto a Schwarcz, que decidiu publicá-lo “E ela era muito amiga do Caio Fernando Abreu, que trabalhava lá também. Eles chegavam da editora lá em casa, às vezes seis, seis e meia, e a gente ficava ouvindo música, tomando umas. Às vezes saía para um bar… Um convívio de amizade mesmo, mas não necessariamente de uma turma”, conta. “O Pirandello era o lugar, o point dessa… esquerda mais boêmia. Era um lugar de encontros hedonistas, era divertido.”

Hoje vizinho de Reinaldo, Marcelo afirma que “as amizades da época surgiram não necessariamente por causa da coleção, mas graças ao momento que a gente vivia. O Caio Fernando frequentava muito as rodas que eu frequentava, do rock’n’ roll de São Paulo. O Reinaldão também, amigo das minhas irmãs. Tinha o Alfredo Sirkis, que também frequentava o mesmo ambiente, até por causa de feiras literárias revividas com o fim da ditadura. Um sempre ia ao lançamento do outro, éramos publicados pelas poucas mesmas editoras”.

O escritório da Brasiliense era um agito difícil de imaginar quando se pensa numa editora de livros. A casa também publicava o Leia Livros, jornal de resenhas onde todo mundo colaborava, da turma da Cantadas ao mais respeitado poeta do país, Carlos Drummond de Andrade. Maria Emilia era responsável pela divulgação e Caio dava expediente no editorial.

A certo ponto, ele deixou a editora para poder escrever mais. “Fiquei muito próxima do Caio Fernando, muito”, conta ela. “Na verdade eu me apaixonei por ele, mas isso não era muito difícil: todo mundo que conhecia o Caio se apaixonava por ele. Na saída do trabalho, a gente quase sempre saía junto e tomava alguma coisa, ou então marcava de encontrar mais tarde no Pirandello, que era um restaurante, um bar que bombava e a gente frequentava muitíssimo naquela época. E, quando eu digo que frequentava muito significa umas quatro, cinco vezes por semana”.

Liberação comportamental

“Foi o que alimentou essa literatura. Era nos lugares da noite, de movimento estudantil, de leitura de poemas, onde se juntava esse pessoal. A Cantadas é uma maturação”, diz Ítalo Moriconi: “É amarração de impulso, é revolucionário. É uma geração de liberação comportamental. O sonho do Caio e de vários outros seria que a pansexualidade fosse o ideal”.
 

      

Se hoje os autores da Cantadas estão consagrados e instalados em grandes editoras, com coleções de obra completa e o escambau, uma espiada na repercussão da época mostra que o ambiente na crítica não era exatamente favorável. “Havia muita má vontade com o que estavam publicando”, retoma Moriconi. “É uma questão de comunicabilidade. Essa busca será, com frequência, questionada por uma leitura mais acadêmica, mais sofisticada, erudita. A comunicabilidade desejada e praticada por esses autores vive estruturalmente e tematicamente um conflito. Morangos mofados, do Caio Fernando, não é um livro principalmente sobre a contracultura, como ele entrou para a história. É um livro sobre incomunicabilidade. A gente continua vivendo um conflito entre comunicabilidade e incomunicabilidade. Certas linguagens resistem à comunicabilidade pelos seus temas, que são desafiadores.”

Foi dessa comunicabilidade que uma publicitária gaúcha de vinte e poucos anos descobriu que “fazia poesia”. Leitora fascinada da coleção, Martha Medeiros se viu pela primeira vez representada nas páginas de Chacal, Ledusha, Alice Ruiz, Leminski e Ana Cristina Cesar. Aquilo que ela escrevia de forma íntima poderia ser considerado poesia — e foi a poesia a principal e quase única porta de entrada de mulheres na coleção. Em 1985, Striptease revelou Martha para os leitores.

‘Morangos mofados’, do Caio Fernando Abreu, não é sobre contracultura, mas sobre incomunicabilidade

“Fiquei muito emocionada quando vi o meu nome estampado na capa de um livro, um livro com coisas que eu julgava tão minhas, tão privadas, tão íntimas e de repente alcançar um público que eu nem imaginava. Eu acho que foi isso que Cantadas Literárias fez pra muita gente: ela nos ofereceu uma turma literária”, relembra Martha. Na época ela enviou seus poemas pelos Correios e iniciou correspondência com Caio Graco, que decidiu publicá-la: “Até então, o livro pra mim era uma coisa muito sacralizada. Então vem a Cantadas Literárias e dessacraliza. E, ao dessacralizar, torna o livro mais popular, mais acessível”.

Curioso é que até a Martha cronista, que já bateu a marca de 1 milhão de livros vendidos, tem ligação com a coleção — ou melhor, com Caio. Mesmo indo para outra casa editorial, a l&pm, a autora seguiu se correspondendo com Caio Graco, que um dia lhe pediu textos em prosa. Martha pensou que ele estava educadamente dando um adeus a sua poesia. “Ele disse: ‘Eu estou muito atraído pelo teu texto de prosa através das cartas que a gente tem trocado, queria ver mais desse texto também’. Eu pensei que ele não estava mais a fim dos poemas. O Caio visionário, já prevendo, talvez, a futura cronista que acabei me tornando. Ele ficou ligado nisso”, conta. “Tenho muita saudade daquela Martha que eu fui, que ficou tão encantada com a possibilidade de ter uma literatura que dialogava muito intimamente com aquela menina que eu ainda era.”

Em entrevista para a Folha de S.Paulo, em 2011, o poeta Carlito Azevedo aponta a Cantadas como um marco da poesia marginal: “Não é de espantar que, quando a coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense, surpreendeu o mercado no início dos anos 80 reunindo em volumes caprichados boa parte da produção mimeografada e independente da década anterior, muita gente boa, como o [colunista da Folha] Fernando de Barros e Silva, classificasse a estratégia de Caio Graco e Luiz Schwarcz como investimento ‘em temas do cotidiano e textos fáceis para arrebanhar um público sem cultura e carente de referências literárias’. Foi um momento raro em que essa ‘gente sem cultura e carente de referências’ sujou muito livrinho de poesia, graças a Deus”.

Toda essa literatura mantinha o espírito jovem, conceito que podia ser um tanto elástico. “O arco de escritores que participaram ou foram fazendo a coleção foi se ampliando mais em torno do prazer da leitura e da juventude, sendo juventude, nesse caso, um conceito mais amplo. Entendo que aquilo surgiu naquele momento, que era o momento certo, que foi bom porque inclusive rompeu as intenções de ser uma coleção de literatura jovem”, diz Schwarcz. “Nós não inventamos essas vozes narrativas. Elas que se inventaram. Esses escritores estavam aí. Nós tivemos a capacidade de entender o quanto elas ressonariam ou ressoariam.”

Luiz Schwarcz diz não ver espaço hoje para uma coleção capaz de lançar ‘nova literatura’

O espírito pop também estava no design. Maria Emilia — cujos lábios deram o molde para as bitocas estampadas com batom na capa de Beijo na boca, de Cacaso — lembra da escolha da capa do livro de Ana Cristina Cesar. “A teus pés foi lançado na Cantadas com capa do Waltercio Caldas. Ela fez questão do Waltercio. Aliás, ficou ótima, mais conceitual, diferente das demais, figurativas, de um pop figurativo, outra pegada.”

Mas o que separa, nessas quatro décadas, os leitores, editores e escritores da Cantadas Literárias dos que temos agora? Para ficar no plano estritamente editorial, há uma outra realidade, com novas formas de divulgação e distribuição, além da presença de mais editoras e canais de difusão de literatura do que havia antes.

“Hoje há as editoras independentes e autores que usam as redes sociais para ser seu veículo de distribuição de livros. O tripé editora-distribuição-livraria foi um pouco desmontado graças às redes sociais e ao e-book. Outra facilidade para autores que escrevem até em newsletters, inclusive pagos. Você paga para ler. Eu não, eu sou muito tradicional. Renovo contrato. Eu tenho coluna em jornal. Quer coisa mais antiga?”, comenta Marcelo Rubens Paiva, que faz coro a Reinaldo Moraes: ambos concordam que cursos e oficinas de literatura funcionam como celeiros de novas vozes.

“A oficina literária funciona como uma espécie de pré-edição do texto. Então tem toda uma geração de escritores egressos dessas oficinas e que encontram pequenas editoras, ou grandes. Naquela época não tinha isso, não lembro de nenhum curso. Elas dão uma qualificada nessa nova frota. De alguma forma, cria-se uma consciência crítica”, afirma Reinaldo.

Escaninho

Schwarcz diz não ver espaço hoje para que se repita o fenômeno de uma coleção capaz de lançar “nova literatura”: “Naquele momento era uma coisa de uma editora que tinha descoberto uma faixa de mercado. Um contexto é fazer uma coleção numa editora que lançava uma coleção atrás da outra, que estava se colocando como a editora porta-voz, que dialogava com os jovens. Outra coisa é você procurar hoje e colocar uma série de ‘nova literatura brasileira’. Eu acho que vai virar um escaninho”.

Como se sabe, Schwarcz saiu da Brasiliense, em 1986, para fundar a Companhia das Letras, que apostou num design mais sóbrio, em leitores mais amadurecidos e autores mais sofisticados e profissionalizados que o pessoal da Cantadas. Caio Graco seguiu tocando a Brasiliense até morrer num acidente de moto em 1992.

Quanto ao clima cultural e literário, Moriconi avalia que hoje vivemos o inverso do que aquela geração vivia nos anos 80: se antes os anseios eram de liberdade e rebeldia, hoje se pratica a resistência. “Hoje a gente tem também o dado revolucionário, mas você tem o revolucionário muito mais disperso. Uma força que está expressando, na verdade, resistência.” A Brasiliense, distante da casa que fez a cabeça de gerações, planeja relançar a Cantadas Literárias neste ano, mas não adianta nomes.

Quem escreveu esse texto

Guto Alves

Jornalista e produtor cultural.

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.