Memória,
Um mestre rigoroso e divertido
Escritores e estudiosos da língua portuguesa relembram aprendizados e o bom humor do linguista Fernando Venâncio, que morreu nesta sexta (30)
30maio2025Morreu nesta sexta (30), em Portugal, o linguista, escritor e professor Fernando Venâncio, aos 80 anos. A notícia foi confirmada pela editora Guerra & Paz, responsável pela publicação de seus títulos no país, à agência de notícias portuguesa Lusa. A causa da morte não foi divulgada.
Venâncio é autor de ensaios, crônicas e ficção, além de um pesquisador apaixonado pela língua portuguesa. Em Assim nasceu uma língua, o português nascido em Mértola, em 1944, investigou com graça e conhecimento crítico as origens e mitos que cercam o idioma. O livro virou um sucesso de público e crítica em Portugal, onde recebeu o Prêmio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho em 2020. A edição brasileira chegou em 2024 pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um.
Autor do prefácio da edição brasileira, o também linguista Marcos Bagno disse que Venâncio foi, além de um amigo, “um excelente linguista, com quem aprendi muito”. “Ele considerava o português brasileiro a ‘joia da coroa’ da língua portuguesa.” Bagno também relembrou o bom humor do colega português, que transbordava na sua escrita.
“Certa vez, em Santiago de Compostela, onde participávamos de um congresso, pedi a ele que pronunciasse a frase ‘a necessidade de dedicar-se’ com a fonética portuguesa e rimos muito da dificuldade que ela representa para um falante de português europeu”, contou. “Não vou ter mais esses momentos divertidos nem ler mais seus pequenos contos deliciosos. Para mim é uma dessas perdas que pontuam nossa vida de tristezas.”
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Professor da Universidade Federal do Paraná, o linguista Carlos Alberto Faraco lamentou a perda de “um estudioso rigoroso da língua portuguesa e de sua história”, além de um “interlocutor precioso”, com quem manteve correspondência durante anos.
Faraco também lembrou a trajetória do colega português, que se exilou na Holanda, deixando para trás a ditadura salazarista e, na Universidade de Amsterdam, ensinou literatura brasileira. “Era um conhecedor refinado do português brasileiro e tinha bons motivos para defender a tese de que o português europeu e o português brasileiro estão progressivamente se afastando”, disse.
Professor da Universidade Nova de Lisboa e autor de livros sobre a língua portuguesa, o português Marco Neves ressaltou a grande paixão do amigo pelo idioma. “Não tinha qualquer medo nem hesitação em usar todos os canais (blogs, redes sociais, jornais, televisão…) para comunicar com todos sobre o que o apaixonava”, disse.
“Fernando era um grande linguista, com investigação realizada ao longo de várias décadas; era um grande professor de português (muito conhecido nos Países Baixos, em particular); era também um grande escritor — não só de ficção, como de ensaios; estudava a língua, mas também sabia usar a língua como poucos.”
Voz definitiva
Para o escritor e tradutor Caetano W. Galindo, autor de Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português (Companhia das Letras, 2023), Venâncio teve o mérito de ser “uma voz definitiva para a divulgação da pesquisa sobre a história da língua portuguesa”.
“Num mundo de desinformação, e de informação simplificada para virar narrativa simples e ganhar mais likes, uma obra como a dele se torna absurdamente relevante. Descrevendo e divulgando, com rigor e elegância, o que se sabe e o que ele mesmo descobriu a respeito da história da nossa língua, ele contribuiu imensamente para nossa cultura, em Portugal, no Brasil, e onde quer que se fale a língua portuguesa”, disse Galindo.
Outro entusiasta da língua portuguesa, o jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, autor de Viva a língua brasileira (Companhia das Letras, 2016), lamentou a morte de Venâncio apenas oito dias depois da do gramático Evanildo Bechara: “um mês triste para a língua portuguesa”. Na visão do colunista da Folha de S.Paulo, o linguista era “um estudioso que tinha visão planetária do português (fadado em sua opinião a se divorciar do brasileiro um dia) e cultivava interlocutores dos dois lados do Atlântico”, além de um “raro pesquisador sério que não fugia do corpo a corpo com o público jovem nas redes sociais, prática só interrompida poucos meses atrás, quando seus problemas de saúde se agravaram”.
“O Venâncio tinha um humor ácido e ao mesmo tempo era muito afetuoso, generoso com quem queria aprender e um rabugento impagável com os sabichões que acham que já sabem tudo. Vai fazer muita falta, mas deixa um livraço imortal: Assim nasceu uma língua.”
