Direitos Humanos,

O Brasil é um pesadelo

O chocante assassinato de Genivaldo de Jesus Santos é o resumo da normalização e da normatização da morte em nosso país

27maio2022 - 04h39 | Edição #57

Uma das razões de ser da literatura  inclusive sua função social — é a tentativa de dizer o indizível, de fazer ler o que não se pode ver, de nomear o inominável. Mas e quando o inominável vira sinônimo de intolerável e a realidade se encarrega de fazer literatura? Não se trata daquele domínio de “a vida imita a arte” etc. É quando a realidade é tão impressionante e inacreditável que até parece ficção.

Para o horror de Flaubert & cia, caçadores obcecados da “palavra justa”, a realidade seria uma espécie de Ur-Escritor, com a grã consciência fabular do destino e dos desatinos dos que nela habitam. A realidade escreve (faz literatura) ao dispor os fatos em ordem dotada de sentido (embora a abolição do sentido seja condição do absurdo), quando os elementos estão dados e articulados em diegese.

Sincronizados, a mera enunciação dos fatos já faz e já dá sentido. É um evento tipicamente benjaminiano: porque, no instante do perigo, a imagem fugaz é apreendida no limite de sua cognoscibilidade e compõe uma constelação; e também porque é a história narrada do ponto de vista dos vencidos. Ave, Walter Benjamin, salve-nos da marcha inexorável da catástrofe.

Na quarta-feira 25 de maio, Genivaldo de Jesus Santos estaria gritando “não consigo respirar”, a mesma frase de George Floyd pronunciada em 25 de maio de 2020. O vídeo que circulou na internet e registra o brutal assassinato do brasileiro (mais “um crime abominável”) não deixa ouvir exatamente suas palavras, mas mostra o desespero de suas pernas se debatendo para fora do camburão.

O episódio ocorreu ao redor de 11h10, no km 180 da BR-101, que corta Umbaúba, cidade litorânea a cem quilômetros de Aracaju, em Sergipe. Deram cabo da detenção (e execução) de Genivaldo: Adeilton dos Santos Nunes, Clenilson José dos Santos, Kleber Nascimento Freitas, Paulo Rodolpho Lima Nascimento e William de Barros Noia (aliás, quem matou Marielle?) — agentes do Comando de Operações Especiais da Polícia Rodoviária Federal de Sergipe, na operação Nordeste Seguro. Três deles trancaram Genivaldo na traseira da viatura e um deles detonou gás lacrimogêneo ali dentro. O laudo do IML concluiu que a causa da morte foi insuficiência respiratória aguda decorrente de asfixia.

Na mesma quarta-feira 25 de maio de 2022, o presidente do Brasil vetava o nome de Nise da Silveira no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. Co-incidência de outro golpe na literatura, ironia abatida: Genivaldo sofria de esquizofrenia. Mas e os policiais que o torturaram até a morte não sofreriam de outras patologias mentais, no sentido moral e alegórico do termo, mas talvez até no sentido mais próprio do diagnóstico clínico? E o país, como pronuncia sua anamnese? Por amnésia? Como poderia dizer Artaud, o Brasil é pra acabar com o juízo de Deus.

Licença para matar

Na manhã seguinte (26 de maio), Jair Messias postou congratulações às “Forças Policiais e de Segurança do Brasil (PRF, PF, polícias militares e civis)” sem mencionar Jesus Santos. Na véspera do assassinato de Genivaldo, o presidente elogiou a operação policial na favela na Vila Cruzeiro, dando “licença para matar” e chancelando a chacina, a segunda maior da história da capital carioca, e da qual participou a mesma Polícia Rodoviária Federal. O atual (des)governo não só deu vazão para o que há de mais escroto sair do esgoto e infestar a esfera coletiva, mas legalizou o abjeto e instituiu o ódio como política pública.

Como o direito, organizações do sistema de Justiça e narrativas blindam as polícias da responsabilização por seus crimes

O motivo da “abordagem” (um deslocamento impróprio de linguagem) policial foi porque Genivaldo dirigia sua moto sem capacete, acessório cujo uso é solenemente dispensado nas motociatas do presidente do país.

A cena do crime contra Genivaldo tornaria fácil evocar procedimentos nazistas de oitenta anos atrás, com a devida cautela da separação hermenêutica. Mas a polícia de Sergipe inovou, ao criar a câmara de gás móvel. É a tal da portabilidade. Em 1971, a tortura e o assassinato de Stuart Angel seguiram um protocolo que remete ao caso da BR-101.

O caso Genivaldo seria um prato (per)feito para a análise de Michel Foucault e seu poderoso arsenal crítico sobre a institucionalização da violência ligada aos mecanismos de vigilância, Estado e imagem.

Um sinal de aviltamento da literatura está na linguagem. O boletim de ocorrência descreve uma narrativa discrepante do real registrado no vídeo. Na cloaca de clichês (“chegando a entrar em vias de fato”; “tornou-se necessária sua contenção”), o documento assevera, contundência estapafúrdia de estupidez: “Diante dos delitos de desobediência e resistência, após ter sido empregado legitimamente o uso diferenciado da força, tem-se por ocorrida uma fatalidade, desvinculada da ação policial legítima”.

No (a)cúmulo surreal, o B.O. cita ainda o “uso das tecnologias de menor potencial ofensivo”. A figura de linguagem dita “eufemismo” é desfigurada, acinte de desfaçatez e escárnio. A ocorrência registrada pelo celular é eloquente e contradiz o documento policial; é a imagem do horror. Algum autor já disse que se escreve para colmatar a vergonha de ser humano.

A morte ao vivo é chocante em si. Como a normalização e a normatização da morte. Enquanto gravava, o cinegrafista manifestava distanciamento nada brechtiano (“vão matar o cara”). No ano de seu centenário, Pasolini comentaria a crueldade cínica da polícia que mata em conluio com a cruel compactuação do povo que observa.

O assassinato de George Floyd em Minneapolis incendiou os Estados Unidos. O B.O. de Sergipe menciona “reiterada desobediência” e “resistência do indivíduo”. Por que o Brasil não se mobiliza pelo que houve em Umbaúba? O protesto da população da cidade no dia 26, com assalto a um caminhão de pneus, parece incipiente.

Tá oquei, nossa “independência” foi no grito, nosso “descobrimento” foi o começo do abafamento do extermínio de povos originários e da escravização de africanos vindouros. Tá oquei, o cidadão de bem, da pátria armada, com o beneplácito de decretos, naturaliza a violência. A anestesia seria por causa da reiteração da violência banalizada? Afinal, indígenas brasileiros são assassinados diariamente no país por causa do garimpo e dos latifundiários conflitos. Em uma de suas últimas postagens em rede social, o escritor Sérgio Sant’Anna, morto em maio de 2020, dizia que o Brasil é um pesadelo.

Mas o Brasil não está só: palestinos são assassinados diariamente pela polícia (e pela política) da ocupação israelense — Shireen Abu Akleh, Walid Al Sharif, Ghaith Yamein: Rest in power (RIP, subvertendo o Rest in peace). Se foi possível escrever poesia após Auschwitz, o que ainda é possível escrever diante de tanta barbárie?

A literatura é uma arte do testemunho, reveladora da dignidade da dor humana e da indignação contra a institucionalização e instrumentalização da dor. Diante da falésia que é a alma mundana, a arte constata a falência do corpo social. O caso Genivaldo é mais uma prova de que a realidade é a fabricação do inimaginável, do inominável, do intolerável. Demonstração contumaz não só do fracasso do escritor — cujo ofício é a (re)criação de realidades — e do leitor, mas também da necrose de uma nação. Ah, Genilvado era preto.

Quem escreveu esse texto

Carlos Adriano

Doutor em cinema pela USP, escreveu Peter Kubelka: a essência do cinema (2002) e dirigiu o filme A voz e o vazio: a vez de Vassourinha (1998).

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.