Direitos Humanos,

Os guardiões da floresta

Lançado no Dia da Amazônia, filme “O território” mostra a luta do povo Uru-Eu-Wau-Wau em defesa das suas terras

05set2022 - 07h02

“Mas o dragão continua na floresta a devorar
E quem habita essa mata, pra onde vai se mudar?
Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá
Tartaruga, pé ligeiro, corre, corre tribo dos Kamaiurá”

Esses versos da canção “Saga da Amazônia” são cantarolados ao longo do documentário O território, assim como na passagem dos créditos do filme, que ganhou pré-estreia hoje, 5 de setembro, Dia da Amazônia, no Cinesesc, em São Paulo. De autoria do artista Vital Farias (que, ironicamente, hoje se declara bolsonarista), a música traz uma denúncia do assassinato de indígenas, posseiros e grileiros, queimadas e desmatamento da Floresta Amazônica. Escrita a partir de 1979 e lançada em 1984, a narrativa da música continua, infelizmente, atual.

Os números em torno da floresta são cada vez mais desanimadores: em agosto, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) anunciou que o desmatamento da floresta neste ano foi o maior dos últimos 15 anos. Foram derrubados ao todo 10.781 quilômetros quadrados (algo como sete vezes a cidade de São Paulo) entre agosto de 2021 e julho de 2022.

As mortes em torno dos conflitos de terras também são alarmantes. Um relatório preliminar da Comissão Pastoral da Terra (Cedoc-CPT) mostrou que, até maio deste ano, dezenove pessoas foram assassinadas em conflitos no campo, sem levar em conta as terríveis mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips, cujos corpos foram encontrados no Vale do Javari. O que torna o Brasil um dos países mais perigosos tanto para ativistas ambientais quanto para aqueles que defendem os direitos humanos.

O território é um filme que entra nesse contexto, como um produto de ativistas ambientais e lideranças indígenas. Dirigido pelo norte-americano Alex Pritz e com coprodução dos Uru-Eu-Wau-Wau, o documentário destaca o papel de Bitaté, o cacique de dezenove anos do seu povo, de Ari Uru-Eu-Wau-Wau e da ativista Ivaneide Bandeira, a Neidinha, na defesa da terra indígena. Desde o monitoramento da área com uso de tecnologias de ponta como drones feitos pela própria comunidade até o fortalecimento dos grupos de vigilância para expulsar invasores durante a pandemia de Covid-19, o documentário é uma clara denúncia da política genocida aos povos indígenas do governo de Jair Bolsonaro, instaurada desde sua eleição em 2018. Inclusive, o documentário se inicia nesse ano, mostrando o dia a dia dos Uru-Eu-Wau-Wau seguido do choque e da perplexidade dos indígenas e ativistas diante do resultado das urnas.

Não que as invasões não existissem antes disso, mas os invasores agora se sentem respaldados pelo governo para deixar clara sua posição. “Antes do Bolsonaro ser eleito, eu pensava que ia ser ruim. Mas não achei que ia ficar tão ruim. Eu tenho 64 anos, vivi a ditadura, vários momentos da história do Brasil. Para mim é o pior momento em que nós vivemos, principalmente para nós que defendemos ambiente e direitos humanos”, disse Neidinha, filha de seringueiros e fundadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, em entrevista à Quatro Cinco Um, depois da exibição do filme para a imprensa na manhã desta segunda (5) no Cinesesc, em São Paulo.

‘Eu tenho 64 anos, vivi a ditadura, vários momentos da história do Brasil. Para mim é o pior momento em que nós vivemos, principalmente para nós que defendemos ambiente e direitos humanos’, disse Neidinha

Um dos momentos mais tristes de O território é o assassinato de Ari Uru-Eu-Wau-Wau, um dos guardiões da floresta que encabeçava um dos grupos de vigilância, morto aos 33 anos dentro de seu território em abril de 2020. Em julho deste ano, um suspeito pelo assassinato foi finalmente preso, após dois anos ocorrido o crime. A morte de Ari, em vez de fazer recuar os Uru-Eu-Wau-Wau, fez com que seu povo se mobilizasse ainda mais para defender seu território. “É muito difícil para nós vermos esse filme até hoje”, revelou Neidinha, sobre assistir a cenas com o professor indígena, que ela conheceu desde recém-nascido.

Outro lado

Um dos grandes diferenciais do documentário é trazer também o lado do invasor, com entrevistas com pequenos agricultores e colonos que veem parte das terras indígenas como de direito seu. São elucidativas essas conversas, uma vez que esses homens se veem como trabalhadores que estão ali para levar o progresso àquela região do Brasil, sinônimo para eles de destruição. O sonho deles é ter um pedaço próprio de terra onde possam cultivar o que quiserem e trazer suas famílias, e parar de trabalhar nas terras dos outros.


O jovem cacique Batité Uru-Eu-Wau-Wau [Reprodução]

São esses pequenos agricultores, posseiros, colonos e garimpeiros que, em geral, iniciam o processo de invasão de terras indígenas, reservas extrativistas, parques florestais e outras áreas ambientais protegidas pela lei. Por trás deles, há políticos poderosos e grandes empresários que financiam essas invasões, manipulando pessoas em situação econômica mais desfavorável. Essa situação leva a conflitos fundiários que muitas vezes acabam com mortes, em um contexto de fiscalização branda, alta impunidade e descaso dos poderes públicos. “É uma estratégia, jogam o pequeno contra o pequeno, que tem a agrobandidagem por trás”, ensina Neidinha.

‘Muitas das pessoas que invadem o nosso território a gente conhece, porque elas são nossas vizinhas, elas estão lá’, diz Txai Suruí

“Esse filme não tem narração, mas ele diz coisas claras para a gente. Fala de um sistema que vem comendo pessoas, indígenas, pessoas pobres, a floresta, colocando um contra o outro. Devemos questionar: quem está ganhando com a destruição da Amazônia? Não são as pessoas que estão lá”, declara Txai Suruí, filha de Neidinha, produtora executiva do filme e uma das principais lideranças indígenas jovens do mundo, que ganhou ainda mais notoriedade ao discursar, em 2021, durante a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, na Escócia.

“Muitas das pessoas que invadem o nosso território a gente conhece, porque elas são nossas vizinhas, elas estão lá. Acho que mostrar o outro lado foi muito importante porque a gente conhece essas pessoas e a realidade não é fácil. A realidade é difícil. Se fosse um problema que não fosse complexo, a gente já teria resolvido. É muito complexo porque estamos falando de pessoas. O nosso filme humaniza o outro lado também. Todo mundo sabe que os dois lados são humanos, precisamos humanizar ambas as partes e pensar: o que a gente pode fazer?”, continua Txai.

“Por exemplo, o Sergio [pequeno agricultor e um dos personagens do filme, que organizou uma associação de agricultores para obter terras próprias dentro da TI Uru-Eu-Wau-Wau], tenho certeza se a gente desse outros caminhos para ele, talvez escolhesse lutar do nosso lado. Que caminhos a gente vem dando para essas pessoas?”, arremata Txai, acrescentando que o Estado é o responsável por oferecer essas alternativas na forma de políticas públicas.

Assim, O território serve como um estudo de caso de vários dos conflitos fundiários brasileiros e acaba humanizando tanto o lado dos indígenas que têm suas terras invadidas quanto o lado dos invasores, gente trabalhadora cansada de ser explorada e que sonha com um terreno próprio. Sem cair em maniqueísmos fáceis, O território torna-se um estudo incontornável sobre a realidade não só do nosso país, mas também do mundo.

“Esse filme é mais que um filme. Começar a falar de desmatamento zero, cadeia de produção, direitos humanos, luta dos povos indígenas e mudanças climáticas”, fala Txai. “É uma forma de mostrar para o mundo e para o Brasil o que está acontecendo na Amazônia. As pessoas no Sudeste, os brasileiros em geral, não sabem o que acontece na Amazônia. O filme mostra isso.”

Atrás e na frente das câmeras

Um dos protagonistas de “O território” é o jovem Bitaté, que se tornou cacique durante as filmagens e mostra, no filme, uma firmeza admirável ao assumir essa responsabilidade com tão pouca idade, ao mesmo tempo que mantém a serenidade e força de espírito necessárias para unir seu povo para lutar não só contra os invasores, mas também contra a pandemia de Covid-19.

Ele já gostava de fotografia e manuseava os equipamentos de monitoramento antes de o cinema entrar na sua vida. “Quando vieram perguntaram: você quer ser o nosso protagonista? Perguntei como vai ser isso. ‘A gente vai filmar você, seguir você no dia a dia, tudo o que você faz’, disseram. Perguntei se eu ia ter liberdade, e responderam que a câmera ia ficar comigo o tempo todo. E era o tempo todo mesmo”, conta Bitaté, que está se preparando para cursar jornalismo (e quem sabe, depois, cinema) na universidade em Porto Velho. “Ficava com vergonha. É diferente quem estava antes atrás das câmeras depois ir para a frente. Era muito novo. Mas daí comecei a perguntar se a gente podia filmar também.”

A partir daí, outros Uru-Eu-Wau-Wau aprenderam a mexer nas câmeras, em especial Tangãe Uru-Eu-Wau-Wau, um dos responsáveis pela fotografia do documentário, que realmente cria a sensação de se estar caminhando com os grupos de monitoramento dentro da floresta, encontrando casas construídas por colonos, resquícios de queimadas e rastros de animais selvagens.


A ativista Ivaneide Bandeira, a Neidinha, em cena de “O território” [Reprodução]

Outro destaque do filme é a composição sonora feita por Katya Mihailova, que, nascida no Quirguistão, foi à Rondônia por duas semanas para captar todos os tipos de sons e ruídos da floresta para criar uma trilha que remetesse a esse lado mais “vivo”, digamos, da floresta. “Ela gravou os sons do ambiente: o ruído de uma flecha sendo lançada, a queda de uma árvore centenária usando um microfone dentro dela, registrando a madeira se rompendo. O objetivo era fazer com que o público sentisse que estava dentro da floresta. A queda de cada árvore era para ser sentida como uma morte única”, conta o diretor Alex Pritz.

Toda a produção foi feita em conjunto com os Uru-Eu-Wau-Wau e essa parceria não acaba no documentário. Com o dinheiro arrecadado pelo filme, que foi ganhador das categorias de Prêmio do Público e Prêmio Especial do Júri para Arte Documental no Festival Sundance de Cinema, em janeiro deste ano, já está sendo construído um centro multimídia dentro da terra indígena, com ilhas de edição e locais para realização de oficinas e outras atividades culturais. Um belo projeto de criação coletiva, em que os próprios indígenas passam a ter acesso aos meios de produção audiovisual o que, consequentemente, os tornam contadores das suas próprias histórias.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).