Quadrinhos,

Na garupa de Powerpaola

Quadrinista colombiano-equatoriana fala sobre as amigas de duas rodas que lhe fizeram companhia ao longo da vida

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

Para Powerpaola, uma bicicleta tem que ter personalidade e ser forte e resistente. A magrela também tem de ser confortável, andar em boa velocidade e possuir freios que a escutem. Ah, e precisa ser silenciosa, para quem quer que esteja sobre o selim conseguir atravessar uma floresta desapercebido. Esses critérios foram desenvolvidos ao longo de aproximados 45 anos, idade da quadrinista equatoriana-colombiana, acompanhada por bikes desde que se entende por gente.

“Nunca troquei de bicicleta por opção. Se tenho uma nova, é porque a anterior foi roubada ou desapareceu. E cada uma tem sua própria história de como veio até mim”, conta a autora à Quatro Cinco Um. Na vida de Powerpaola houve, ao todo, nove bikes, cujas trajetórias são retratadas em Todas as bicicletas que eu tive, seu gibi mais recente, lançado no Brasil com tradução de Nicolás Llano Linares.

Paola Gaviria nasceu em Quito, no Equador. Já morou também em Cali e Medellín, na Colômbia, onde se graduou em Artes Plásticas. Em 2017, passou pelo Brasil para uma residência artística na Casa do Sol, sítio em Campinas onde viveu a escritora Hilda Hilst. A autora, que escreveu no livro anterior que ainda não sabia onde gostaria de viver, hoje soma quase dez anos de Buenos Aires — mas não para sempre. “Se penso em ‘cidade’, Buenos Aires é onde me sinto mais confortável. Sonho em morar perto de um rio, uma montanha, uma cachoeira ou um lago. Espero que aconteça em algum momento”.

O intercâmbio latino da artista pode ser visto também no lançamento desta nova obra, que sai simultaneamente pelas editoras La Silueta (Colômbia), Musaraña (Argentina), El Fakir (Equador) e Sexto Piso (México e Espanha), além da brasileira Lote 42. “Queríamos sair do pequeno círculo aonde os livros chegaram. Alguns dos meus outros livros são muito difíceis de encontrar porque foram lançados por pequenas editoras, com menor distribuição. Unimos forças e fizemos isso acontecer”.

Rotas

Navegando em um barco chamado Práxis ou sendo engolida por um jacaré enquanto divaga, a própria Powerpaola surge nas páginas, narrando sua história quase como em um ensaio. “Quando você desenha e escreve, compreende os eventos que acontecem na vida. São revelações sistemáticas do seu próprio destino”.

Enquanto nos apresenta a Chinesa, a Salvadorenha, a bmx, a Aurorita e todas as outras, ela nos insere em momentos marcantes de sua vida — amores, amizades e desilusões — nos quais as bicicletas estiveram presentes, seja como protagonistas ou meras espectadoras,- como nós, leitores.

No quesito desenho, quem leu seu primeiro quadrinho lançado no Brasil, Vírus tropical (Nemo),e se surpreendeu com a arte completamente diferente do que seguiu, qp (Lote 42), também vai ficar admirado com os traços de Todas as bicicletas. Powerpaola diz que faz isso de propósito, “para mostrar que não sou consistente como produto, mas que a vida está mudando”. Segundo ela, por trabalhar sempre com a autoficção, a partir de relatos íntimos e relacionais, mudar o traço é uma forma de experimentar diferentes técnicas relacionadas a um mesmo tema.

Navegando em um barco ou sendo engolida por um jacaré, Powerpaola surge nas páginas, narrando sua história quase como em um ensaio

“Esse foi um dos livros mais difíceis que já fiz, não só porque desenhar bem uma bicicleta e me apropriar dela com o meu estilo é difícil, mas também porque escolhi um papel fajuto”, brinca. O papel de qualidade duvidosa não aderiu à tinta facilmente, fazendo com que o traço escorregasse como uma bicicleta em um asfalto coberto por piche. “O pior de tudo é que insisti, lutei em todas as páginas e, cada vez que avançava, sentia que não podia mais trocar de papel. Uma analogia com a própria vida”.

Na bicicleta, a corrente é um acessório que transmite força para o cassete, onde fica a roda, que deixa fluir a energia para o chão e possibilita o deslocamento. “As bicicletas são máquinas impulsionadas por você mesma. É você quem decide para onde quer se deslocar”, escreve Powerpaola. Ela também observa que suas histórias sempre terminam com ela indo embora, escapando, “como aquela música de Christina Rosenvinge: ‘Lo siento’”. No entanto, em Todas as bicicletas, quem vai não é ela. Aqui, ela puxa o descanso da bike em Buenos Aires e, com as mãos firmes no guidão, assiste ao outro partir.

Quem escreveu esse texto

Clara Rellstab

É jornalista, roteirista e repórter do Uol.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.