Paulo Werneck, Ana Lima Cecilio e Paulo Roberto Pires (Estúdio Soapbox)

Repertório 451 MHz,

Encontro Marcado: censura, romances de formação e lançamentos 

Na estreia da mesa-redonda do 451 MHz, Ana Lima Cecilio e Paulo Roberto Pires conversam sobre as tentativas de proibir livros de Geovani Martins, a relação afetiva com a leitura e novidades literárias

25set2026

Está no ar o 214º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição especial, o programa estreia um novo formato: a mesa-redonda literária Encontro Marcado, gravada em vídeo direto da redação da Quatro Cinco Um, em São Paulo. Os primeiros convidados são a editora Ana Lima Cecilio e o jornalista Paulo Roberto Pires, colunista da revista dos livros.

Na conversa, eles debatem com o apresentador Paulo Werneck os recentes relatos do escritor carioca Geovani Martins sobre casos de censura ao seu livro O sol na cabeça (Companhia das Letras, 2018) em escolas e bibliotecas. Cecilio e Pires também falam sobre as novidades literárias que estão em suas mesas de cabeceira e indicam romances de formação que os marcaram. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.

Editora executiva de literatura brasileira na Record, Ana Lima Cecilio é formada em filosofia e atua há mais de vinte anos no mercado editorial. Foi curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2024 e 2025. Também é conhecida pela newsletter literária A Lábia, em que escreve sobre livros e o hábito da leitura.

Já Paulo Roberto Pires é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e editor da revista de ensaios Serrote, publicada pelo Instituto Moreira Salles. Na Quatro Cinco Um, escreve a coluna Crítica Cultural. É autor dos romances Do amor ausente (Rocco, 2000) e Se um de nós dois morrer (Alfaguara, 2011) e da coletânea Diante do fascismo: crônicas de um país à beira do abismo (Tinta-da-China Brasil, 2022).

Estreia do Encontro Marcado no 451 MHz (Estúdio Soapbox)

Dividido em quatro blocos, o Encontro Marcado tem como proposta discutir temas atuais do debate literário, além dos últimos lançamentos. A inspiração vem do La Grande Librairie, programa da televisão francesa criado e apresentado até 2022 pelo jornalista François Busnel, que posteriormente deu lugar a Augustin Trapenard. A atração reúne semanalmente convidados para conversar sobre literatura e já recebeu autores como Annie Ernaux e Édouard Louis.

Censura

O primeiro Encontro Marcado parte de um assunto que mistura literatura, política e as guerras culturais: os casos de banimento de livros do escritor Geovani Martins em escolas e bibliotecas da rede Sesi de ensino no Rio de Janeiro, que ele compartilhou no Instagram. Segundo Martins, relatos de professores indicam uma “censura silenciosa” motivada pela pressão de pais de alunos. 

O principal alvo é a coletânea de contos O sol na cabeça, que, usando gírias e expressões coloquiais, aborda o cotidiano de jovens em periferias a partir de experiências de violência policial, tráfico de drogas e racismo. A Quatro Cinco Um publicou uma matéria sobre o caso. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), responsável pelas escolas da rede Sesi, nega a retirada das obras.

Geovani Martins (Divulgação)

No podcast, os convidados situam o caso como parte da onda de censura a obras literárias que se intensificou no Brasil e no mundo com o crescimento da extrema direita. Pires classifica o episódio como “grave, ainda que não surpreendente”. Para ele, o que incomoda determinados setores nos livros é a capacidade de Martins para retratar personagens da periferia sem idealização nem caricatura. Pires associa a censura a “um ambiente de fundamentalismo religioso”. 

Já Cecilio compara o caso ao ocorrido em 2024 com o O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020), de Jeferson Tenório. A tentativa de censura ao romance em uma escola gaúcha foi tema do episódio “Em defesa do livro”, do 451 MHz, que também abordou o romance Outono de carne estranha (Record, 2023), de Airton Souza, igualmente vítima de tentativa de proibição.

Para a editora — que destaca o romance Via Ápia (Companhia das Letras, 2022), também de Martins —, a escrita do carioca confere “vida pensante, literária, poética e afetiva para as pessoas que normalmente estavam ocupando as margens da história da literatura”, e isso desagrada setores conservadores. 

Romances de formação

O programa também traz a lembrança do aniversário de dois romances de formação clássicos: os 75 anos de O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger, e os setenta anos de O encontro marcado, de Fernando Sabino.

Werneck recorda sua descoberta do livro de Salinger na biblioteca escolar, enquanto Cecilio conta que chegou à obra aos doze anos, após ler os livros da Coleção Vaga-Lume, criada pelo editor Jiro Takahashi, que também criou a série Para Gostar de Ler.

Para ela, o que torna O apanhador no campo de centeio atemporal é a sua recusa de suavizar a experiência adolescente, exibindo para o leitor a realidade. Cecilio lembra que o protagonista, Holden Caulfield, “tenta dormir com uma prostituta, usa drogas, bebe. Ele é um irresponsável; está bastante longe de ser um modelo de virtude ou de agradar os pais que vão escolher aquele livro para um adolescente ler”.

J.D. Salinger e Fernando Sabino (Divulgação)

Sobre O encontro marcado, Pires conta ter lido o livro tardiamente, já adulto, ao fazer a pesquisa para o perfil biográfico Hélio Pellegrino: a paixão indignada (Relume Dumará, 1998). Ele destaca o ritmo da prosa de Sabino e afirma que não considera o livro um romance de formação no sentido estrito. “É um romance de formação para a minha idade, não necessariamente um livro para jovens.” 

Mesa de cabeceira

Os convidados ainda compartilharam no episódio novas leituras. Pires apresenta Filho (Companhia das Letras, 2026), de Thallys Braga, sobre o qual escreveu em sua coluna na Quatro Cinco Um. “É um livro calculado, um livro muito bem pensado”, diz.

Na obra, Braga revisita a infância pobre no subúrbio carioca e sua trajetória de ascensão social pelos estudos, em meio à homofobia e a relação complexa com a mãe. Segundo Pires, o autor evita o ressentimento e assume uma raiva consciente. “Ele não está voltando para os outros a responsabilidade; está dirigindo uma raiva que tem”, resume.

Cecilio destaca Menina, da francesa Camille Laurens, publicado pela Paris de Histórias, em tradução de Laura Campos. Ela descreve a obra como um romance de formação feminina duro, em que a narradora enfrenta a decepção do pai, que não teve um filho homem, e, na vida adulta, sofre com o abuso e o machismo estrutural. “Ela tem uma prosa impressionante; não prescinde de literatura narrando um livro que é tão cru e tão importante.”

Livros e afins

O Encontro Marcado também traz o bloco Listão Ao Vivo, em que os participantes destacam os últimos lançamentos que chamaram sua atenção. Confira as indicações a seguir, junto com todos os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz:

Esse cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida (Todavia, 2022)
O sol na cabeça, de Geovani Martins (Companhia das Letras, 2018)
Via Ápia, de Geovani Martins (Companhia das Letras, 2022)
O avesso da pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras, 2020)
Uma fera no paraíso, de Cécile Coulon (trad. Flávia Lago, Cosac, 2026)
Um diário em aberto: Palestina, de Lena Bergstein (Cosac, 2026)
Certo azul, de Fernando Contreras Castro (trad. Leonardo Pinto Silva, Zain, 2025)
A lenda de uma casa senhorial, de Selma Lagerlöf (trad. Leonardo Pinto Silva, Zain, 2026)
A morte em Veneza, de Thomas Mann (trad. Julia Bussius, Zain, 2026)
A senhora Pylinska e o segredo de Chopin, de Éric-Emmanuel Schmitt (trad. Mariana Delfini, Zain, 2025)
Florestas de lã e aço, de Natsu Miyashita (trad. Eunice Suenaga, Zain, 2023)
O tesoureiro: o esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias, de Xico Sá (Todavia, 2026)
Diante do fascismo: crônicas de um país à beira do abismo, de Paulo Roberto Pires (Tinta-da-China Brasil, 2022)
Líbano: uma biografia, de Safaa Dib (Tinta-da-China Brasil, 2026)
Medeia me cantou um corrido, de Dahlia de la Cerda (trad. Marina Waquil, DBA, 2026)
Inventário de amores vencidos, de Adriana Armony (Record, 2026)
Pagu no metrô, de Adriana Armony (Nós, 2022)
Meu nome verdadeiro é Elisabeth, de Adèle Yon (trad. Julia da Rosa Simões, Todavia, 2026)
A pedra que sangra, de Ibrahim Al-Koni (trad. Beatriz Negreiros Gemignani, Tabla, 2026)
Linhas tortas: um perfil de Mariana Callejas, de Juan Cristóbal Peña (trad. Bruno Cobalchini Mattos, Manjuba, 2026)
A melhor época da nossa vida, de Antonio Scurati (trad. Federico Carotti, Manjuba, 2024)
O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger (trad. Caetano W. Galindo, Todavia, 2019)
O encontro marcado, de Fernando Sabino (Record, 2023)
Filho, de Thallys Braga (Companhia das Letras, 2026)
Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos (Record, 2020)
Menina, de Camille Laurens (trad. Laura Campos, Paris de Histórias, 2026)

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.

Apresentação: Paulo Werneck
Convidados: Ana Lima Cecilio e Paulo Roberto Pires
Coordenação: Beatriz Muylaert
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Roteiro: Beatriz Souza e Beatriz Muylaert
Pesquisa e reportagem: Gabriela Caputo e Mariana Moreira
Imagem: Estúdio Soapbox
Edição e mixagem: Mariana Franco
Arte: Isadora Bertholdo
Cenografia: Giovanna Farah e Yolanda Frutuoso
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]