Crítica Cultural,
Em trânsito
Thallys Braga atualiza com maestria o olhar de Didier Eribon sobre os intricados caminhos da mobilidade social
10set2026 • Atualizado em: 09set2026Thallys Braga não seria o escritor que é sem Didier Eribon. É inútil, no entanto, buscar menção ao filósofo e sociólogo francês nas devastadoras páginas de Filho. Mas está lá, na capa do livro, um comentário de Édouard Louis, que por sua vez não teria se tornado quem é sem Eribon. É assim, na perspectiva da transmissão intelectual, distinta de lacração ou vassalagem, que Braga estreia com um ensaio pessoal duro e, de muitas formas, comovente.
“Foi a primeira vez em que li o relato de um gay pobre que também precisou deixar o bairro da família e se adaptar a um meio burguês”, escreve Braga, lembrando como vislumbrou em Mudar: método (trad. Marília Scalzo, Todavia, 2024) um caminho para dar expressão literária à raiva e à tristeza que se instalaram a partir da morte súbita da mãe.
No livro que, para mim, é até agora o ponto alto da obra de Louis, revelação semelhante ocorre numa conferência de Eribon. A perplexidade da identificação com o que ouve sobre Retorno a Reims (2009), narrativa autobiográfica de um homem gay e pobre que encontraria na vida intelectual o escape de variadas opressões, leva o jovem Louis a abordar o autor: “tenho que lhe dizer que me pareço com ele, tenho que lhe dizer que eu também fui embora e que também fui separado do mundo da minha infância pelo meu desejo, pelo meu segredo”.

O lançamento de Filho pouco depois da tradução brasileira deSociobiografia, longa entrevista em que Didier Eribon repassa sua trajetória com Geoffroy Huard, permite ver o alcance da transmissão. Biógrafo de Michel Foucault, intelectual público e teórico das questões de gênero, Eribon reorientaria sua obra após a morte de um pai com quem ele nem sequer se relacionava. De volta à casa da mãe, percorreu em Retorno a Reims o universo de precariedade, preconceito e pobreza que o constituía — e que, até então, deixara de lado.
Ao abrir a escrita acadêmica à primeira pessoa, Eribon adensou as conexões de experiência individual e coletiva. O resultado, a que chama “sociobiografia”, é menos um gênero com normas e procedimentos do que a construção de um ponto de vista crítico e narrativo — ele dirá “conceitual” — para tratar o material biográfico em geral e, em particular, os relatos de si, autobiográficos.
O violento epíteto ‘viado pobre de Inhoaíba’ é apropriado pelo autor como posição estratégica
“‘Eu’ e ‘mim’ devem tender a se transformar na escrita”, diz Eribon, “em pontos geométricos onde se cruzam a história, as classes sociais, a geografia urbana, o gênero, a sexualidade, o sistema educacional e a política.” Construída dessa forma, a primeira pessoa se torna um vasto campo ou, como ele quer, abrange “‘lugares’ onde estão inscritas as estruturas sociais, culturais e políticas cuja realidade e funcionamento tento trazer à luz”.
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Em Filho, que não tem qualquer pretensão acadêmica, o violento epíteto “viado pobre de Inhoaíba” é apropriado por Braga como posição estratégica e ponto de autocrítica. Declara o lugar de origem geográfica, social e simbólica, a quilômetros do clichê deprimente da “cidade maravilhosa” e dissonante da heteronormatividade que se quer bem-educada. Um lugar que só se mostra assim ao leitor — e ao próprio autor — porque Braga o nomeia a partir da rota, sempre acidentada, do “trânsfuga de classe”. “Se alguém está lendo isto, significa que me tornei escritor publicado”, declara, ao fim de uma lista de pequenas e grandes mudanças. “Nenhuma outra pessoa da minha família poderia dizer qualquer uma dessas coisas. Talvez por isso eu tenha receio de falar que mudei de classe social.”
Capital negativo
O conceito de “trânsfuga de classe”, hoje usado e abusado por quem na vida só passou da econômica à executiva, vem de Pierre Bourdieu, interlocutor e amigo de Eribon. Naquele que seria seu último livro, Esboço de autoanálise (2002), Bourdieu lança luz sobre suas origens em classes populares. A exposição desse “capital negativo”, ideia derivada de outro conceito que ele cunhou, o “capital simbólico”, arremata sua vida e obra e se torna ponto de partida para gerações seguintes e Eribon, que observa:
Todos os outros portadores de um ‘capital negativo’ no mundo social, filhos de operários, imigrantes, mulheres, negros, homossexuais, etc., também não têm outra escolha para se autoanalisar a não ser recorrer às suas próprias narrativas, às suas memórias totalmente pessoais. O que os obriga a buscar nas profundezas mais íntimas de si mesmo e de seu passado os elementos sociologicamente relevantes para compreender a si e a suas trajetórias.
Nessa perspectiva, a exploração da intimidade deixa de ser mera exposição para se tornar um escrutínio que requer atenção aos detalhes e coragem para destrinchá-los. Não faltam uma e outra a Filho, que, a partir do título, afirma a impossibilidade de separar o autorretrato e o perfil de uma mãe extremada que “sabia demonstrar a raiva tão bem quanto o amor”. Massacrada por dívidas, obesidade, cardiopatia e desamor, Luciana sucumbiu aos 41 anos. Mais do que uma tragédia pessoal, sua morte é coletiva. Mais do que substância do luto, a dor é instigação da raiva e da escrita: “minha mãe morreu de pobreza”.
Filha do homem que “por trinta anos” cuidou de um almoxarifado da Varig, Luciana e seus irmãos foram criados numa casa de três quartos em Inhoaíba, bairro entre “as mais baixas posições do Índice de Desenvolvimento Humano do Rio”. O conforto relativo era suficiente para que a família se dissociasse do entorno — “Nunca nos vimos como pessoas pobres. Pertencíamos a alguma outra categoria sem nome” —, até que a degradação do país a solapasse. Professora incidental, bordadeira e, finalmente, trabalhadora doméstica, Luciana conjugou de diversas formas a precariedade.
O trabalho do pai na aviação permitiu que fizesse viagens pontuais ao exterior, o que só realçaria, por contraste, a estreiteza dos horizontes de Inhoaíba. O filho único, de uma gravidez inesperada, definiria a vida de Luciana. Mãe ostensiva na tentativa de compensar o pai errático, distribuiu os afetos do jeito que conseguia. O filho lhe daria um dissabor desmedido — a homossexualidade — e, ao entrar para a universidade, o orgulho máximo. Quando narrado em Filho, o amor materno se desenha no arco da homofobia à admiração, rejeição e ternura emboladas para sempre. Ao sonhar com a mãe viva, batendo à sua porta, o despertar mistura saudade e desespero: “não sabia como poderia encaixá-la na vida que construí depois da sua morte”.
O trânsito de classe não é o percurso exemplar de uma vitória social, uma improvável “história de superação”. Antes, instaura um perpétuo deslocamento: estranho à pobreza em que nasceu, jamais integrado à classe média alta em que vive, sem ceder à idealização populista do subúrbio ou aderir à boa consciência dos bem-nascidos.
Aquele que atravessa as divisões sociais toma consciência de que o lugar de onde se vem é menos um ponto fundador, fixado no passado, do que um processo paradoxal e contínuo de rejeição e incorporação crítica de valores. Eribon lembra que, ao se distanciar de seu meio e entrar no que chama de “cultura erudita” — “estudar e trabalhar para ter condições de ir embora, viver longe dali”, diz Braga —, o trânsfuga consegue “reencontrar, olhando-o de forma mais compreensiva, o mundo que ele deixou e renegou”.
O preço da chegada à “cultura erudita” é a eterna inadequação. Se é impossível e indesejável voltar a Inhoaíba, tampouco se pode viver em paz no outro extremo da cidade. Na festa de um homem “gay de esquerda”, não parece trivial ao narrador que uma das três empregadas da casa limpe a bebida derramada no chão:
Ali está minha mãe, vestida inconfundivelmente com sua blusa branca e a bermuda jeans. O corpo dela não é nada mais que um símbolo da riqueza dos anfitriões, como os camarões servidos nessa sala que se estende por quatro ambientes.
Nunca mais filho, para sempre filho.
Ao contar, numa mesa de jornalistas, que iria escrever um livro sobre sua vida, ouve de um colega, “respeitado pelos seus comentários progressistas na televisão”: “Você não tem cara de pobre”. A referência implícita ao fato de Braga ser branco e, a seguir, uma observação explícita sobre vitimismo atualizavam, no ambiente de chegada, preconceitos raciais e morais do lugar de partida. Afinal, o nascimento da criança branca, filha de um homem negro, fora recebido com “alívio” pelos avós maternos e desconfiança entre os paternos: seria o menino sua legítima descendência?
Filho não é um acerto de contas, mas a tomada de consciência, pela narrativa, de que a dívida é impagável. “Agora não sinto vergonha da pobreza, mas ódio, e muito rancor dessas pessoas”, escreve Thallys Braga.
Queria que elas soubessem que são detestáveis. Que olhamos para elas e as desprezamos, e não dizemos nada porque as perdas são muito grandes quando decidimos enfrentá-las. Eu sou simpático, sorrio, mas te olho e penso que minha mãe morreu por causa de alguém como você.
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