(Ilustrações de X. Fang/Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

A vida interior das crianças

Premiada pelo New York Times, a taiwanesa-americana X. Fang parte de conflitos para investigar o mais íntimo da infância

19set2026 • Atualizado em: 18set2026

Para a maioria dos adultos, quebrar um objeto é um acontecimento banal. Mas, na infância, pequenos acontecimentos podem ter efeitos enormes, principalmente se tomados pela culpa e pela imaginação. É o que vive a protagonista de Pedaços (Reco-reco), da artista e ilustradora taiwanesa-americana X. Fang, após despedaçar acidentalmente a caneca favorita da avó. Premiada pelo New York Times em 2025, a obra aprofunda os feitos de Somos definitivamente humanos ao colocar uma lupa sobre os personagens e suas emoções nem sempre nomeadas — no caso deste livro, personagens de pele azul e formato difícil de descrever.

Nesta entrevista para a Quatro Cinco Um, a autora fala sobre o humor na literatura infantil e as histórias que levam os leitores para dentro da cabeça dos personagens — onde nem tudo é tão simples quanto parece.

Como foi transformar um acidente cotidiano em uma história sobre emoções?
Não acho que eventos precisem ser grandiosos para ter complexidade emocional. Penso que às vezes os acontecimentos cotidianos, como uma caneca que se quebra, têm um impacto maior em nossas emoções, justamente por fazerem parte do dia a dia — o que nos traz lembranças constantes do ocorrido.

Também acredito que as crianças são tão novas neste mundo que qualquer evento, grande ou pequeno, pode parecer avassalador. Enquanto escrevia Pedaços, precisei me lembrar de que uma criança ainda não compreende as possíveis repercussões e que esse mistério pode ser muito assustador.

Mei Mei, a protagonista de Pedaços, se esconde no armário tentando evitar o problema. O que isso revela sobre o modo como as pessoas lidam com a culpa?
Acho que para crianças, e até mesmo para alguns adultos, fingir que nada aconteceu parece mais fácil do que encarar as verdades difíceis.

‘O humor é uma ótima maneira de ampliar e abrir conversas com crianças mais novas’

Por que optou por mostrar todo o processo emocional da criança diante da culpa e do medo?
Sempre me interessei pela vida interior das crianças. Elas podem não ter palavras para expressá-la, mas sua vida interior é tão complexa e cheia de nuances quanto a de um adulto. Eu queria que os leitores entrassem na mente de Mei Mei e acompanhassem seus pensamentos, percebendo que aquela criancinha está lidando com sentimentos enormes que a estão sobrecarregando. Ela precisa de uma válvula de escape. Mostrar esse processo emocional foi como construir um crescendo, permitindo que o leitor também sentisse alívio quando a resolução finalmente chegasse.

Você criou um jogo visual e textual que acompanha a ansiedade da personagem, como a repetição de pensamentos…
Sim! Eu queria muito que o suspense em Pedaços tivesse uma qualidade cinematográfica. Por isso, pensei muito no ritmo, na virada das páginas e em como usar esses elementos para criar uma atmosfera ansiosa.

Em Somos definitivamente humanos, a escolha de personagens não humanos permite falar do preconceito de forma indireta. Como surgiu a ideia de abordá-lo a partir de “estrangeiros” tão peculiares?
Imigrei de Taiwan para os Estados Unidos quando tinha quatro anos. Lembro-me de sempre me sentir diferente das pessoas ao meu redor, mas ao mesmo tempo me sentia acolhida e aceita. Por isso, quis escrever uma história em que os “estranhos” não precisassem se explicar — em que pudessem simplesmente ser diferentes, sem que os moradores da cidade se importassem com isso, tratando-os com gentileza.

A repetição da frase “somos definitivamente humanos” cria um efeito irônico. Como o humor contribui para suavizar, ou intensificar, essa reflexão sobre o outro?
Sempre acho engraçado quando as pessoas dizem coisas que obviamente não são verdadeiras para as crianças. Elas costumam achar isso hilário porque sentem que estão dentro de uma brincadeira.

Mas o humor também abre caminho para fazer perguntas: “Por que esses estranhos sentem que precisam esconder quem realmente são?”, “O ​​que faz de um ser humano, de fato, um ser humano?”. Creio que o humor é uma ótima maneira de ampliar e abrir conversas sobre temas que, de outra forma, poderiam ser um pouco difíceis de abordar com crianças mais novas.     

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista e assistente editorial na Quatro Cinco Um.