Literatura infantojuvenil,
O mundo em dois olhares
Sofia Mariutti e Sofia Rousseaux fazem da diferença de perspectivas uma celebração do nascimento do ‘eu’
28ago2026 • Atualizado em: 26ago2026 | Edição #109O relógio marca seis da manhã e o tamanduazinho já está de pé. Ele quer brincar. Mamãe está cansada, claro, não só porque ainda é cedo, mas porque cuidar de um filhote animado dá trabalho. De olhos pouco abertos e cheia de sono, mamãe reluta, mas o pequeno e seu carrinho têm uma missão: começar o dia e descobrir o mundo junto dela. “O que é cedo pra você é tarde pra mim”, explica o tamanduazinho nas primeiras páginas do recém-lançado De um jeito pra você, de outro pra mim (Baião), de Sofia Mariutti e Sofia Rousseaux.
A obra ilustrada, voltada tanto aos leitores iniciantes quanto à leitura compartilhada, tem como destinatários as crianças e seus cuidadores, a partir dos quais elas expandem sua compreensão do universo. A repetição presente no conto mostra como, mesmo dentro de casa, cada pessoa pode vivenciar as coisas de uma forma — e que a nossa forma pode ser bem diferente daquela das pessoas que amamos.
Na história, o tamanduá criança apresenta sua percepção do mundo em comparação à da sua mãe: curto e comprido, perto e longe, baixo e alto, fácil e difícil. Nos antônimos escolhidos por Mariutti, o dia a dia dos dois se desenrola. Nas primorosas ilustrações de Rousseaux, vívidas e bem-humoradas nos detalhes, a rotina ganha cor. A farinha no mercado é da marca Tanajura; nas prateleiras são expostas caixinhas de cupim. O bolo que a dupla prepara é sabor formigueiro.

Ao mesmo tempo que desvela o vínculo entre mãe e filho, e a absoluta dependência do pequeno para que a rotina aconteça, o livro oferece um acesso íntimo ao instante preciso em que o filho se desvincula.
Na janela de tempo abordada por De um jeito pra você, de outro pra mim, a personagem entende que, dali em diante, ela não apenas está no mundo, como no começo de sua vida, mas também ocupa este mundo a partir da consciência de si e de seu lugar único. “O que é pequeno pra você é o mundo todo pra mim”, evolui o tamanduazinho em seu discurso de individuação.
Estofo psicanalítico
Os tamanduás da obra não têm signos típicos de gênero, podendo assumir a identidade que mais fizer sentido para quem lê. Seja por experiência pessoal, seja por viver em um país onde, segundo as pesquisas, mulheres dedicam duas vezes mais tempo que homens aos cuidados domésticos e de pessoas e onde mais de 11 milhões de mulheres criam os filhos sozinhas, foi instintivo pressupor que se trata de uma mãe.

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Sob essa ótica, De um jeito pra você, de outro pra mim ganha estofo psicanalítico. De acordo com o pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott (1896-1971), estudioso do desenvolvimento infantil, nos três primeiros meses de vida é estabelecida uma fusão emocional entre mãe e bebê. Em dado momento, a criança começa a elaborar a ideia do “não eu”.
Nas prateleiras são expostas caixinhas de cupim. O bolo que a dupla prepara é sabor formigueiro
Esse processo de autoafirmação da individualidade também foi estudado pela psiquiatra e psicanalista americana Margaret Mahler (1897-1985), que diferenciou o nascimento biológico e o psicológico, este ocorrendo ao longo dos primeiros três anos de vida. Se bem-sucedido — é fundamental que a mãe esteja presente e disponível emocionalmente —, resulta na conquista da separação da mãe e da individuação do filho.
“De um jeito pra você, de outro pra mim. Eu sou tudo pra você, você é tudo pra mim”, diz o tamanduazinho ao final de sua jornada, aninhado nos braços da figura protetora. Juntos, os dois leem um livro ilustrado chamado A viagem da orca, em uma metalinguagem que remete à coletânea de poemas A orca no avião, publicada por Mariutti em 2017 pela editora Patuá — um detalhe gracioso, que faz lembrar a trajetória exitosa da poeta e editora, também autora dos infantojuvenis Vamos desenhar palavras escritas? (ils. Yara Kono, Companhia das Letrinhas, 2023) e Tem um gato no frontispício (ils. Vitor Rocha, Baião, 2024).
Nota do editor
Sofia Mariutti é editora da Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um.
Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “O mundo em dois olhares”
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