Ilustrações de Christian Robinson (Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

Modos de ser pai

Em Papai, Christian Robinson usa animais para falar de ausência, cuidado e das muitas formas que a paternidade pode assumir

07ago2026

Existem pais que carregam os filhos no colo e pais-cavalo-marinho, que os carregam na bolsa. Existem os que estão longe e, mesmo assim, continuam presentes e aqueles que erram, mas seguem tentando melhorar. Afinal, o que é um pai? Essa pergunta rege Papai, novo livro do autor e ilustrador norte-americano Christian Robinson, lançado no Brasil no final de julho pela Companhia das Letras, com tradução de Jeferson Tenório.

Em entrevista à Quatro Cinco Um, Robinson fala sobre o processo de criação e sobre por que insiste em revisitar, em seus livros, histórias atravessadas pela própria infância. 

O seu livro é sobre paternidade, mas você conta essa história por meio dos animais. Por que essa abordagem?
A história de Papai é basicamente uma tentativa de responder à pergunta: “O que é um pai?”. E, na maior parte das coisas da vida, quando estou procurando respostas, eu olho para a natureza. Observo os animais e percebo que existem muitas formas diferentes de os pais estarem presentes no mundo. Eu queria mostrar isso.

Por que foi importante incluir tantas experiências diferentes de paternidade?
Era importante para mim representar o maior número possível de tipos de pai e, principalmente, as diferentes maneiras como um pai pode estar presente na vida de alguém. Porque eu cresci sem uma figura paterna. Não queria que uma criança lesse o livro e sentisse que não era para ela ou que não se conectasse com sua história. Eu queria que fosse um livro para todo mundo, não importa se você teve um pai maravilhoso, um pai ausente ou até um pai que já não está mais neste mundo. Queria que cada leitor sentisse que sua história estava representada.

Como ter tido um pai ausente influenciou a maneira como escreveu a história? Você se emocionou durante o processo?
Eu nem imaginava que tinha esse livro dentro de mim. Cresci sem uma figura paterna e ainda não sou pai. Então, a história acabou surgindo de uma experiência muito pessoal. Resumindo, eu nunca tive um relacionamento com meu pai biológico. Em determinado momento, comecei a ter questões de saúde e pensei que, talvez, se eu entrasse em contato com ele, pudesse obter algumas respostas.

Foi então que meu parceiro resolveu procurá-lo na internet e acabou encontrando o perfil dele. Ele tinha criado uma conta no Facebook naquele mesmo ano, havia só duas publicações. Uma delas era um link para uma reportagem sobre mim com a legenda: “Você está indo muito bem, garoto”. Aquilo mexeu muito comigo. Foi estranho perceber que alguém que eu nem conhecia estava acompanhando minha vida à distância. A última frase do livro, “Papai sonha em ver você crescer”, nasceu dessa experiência.

Não é uma forma de justificar a ausência dele, mas de tentar oferecer um pouco de compreensão. Entender que, às vezes, as pessoas aparecem da maneira que conseguem. Talvez elas tenham tentado fazer o melhor que podiam. No fundo, escrever o livro foi uma forma de processar a ideia de que nossos pais também são seres humanos. 

O livro traz a ideia de que um pai pode estar presente mesmo quando não está fisicamente. O que significa esse final?
O que eu mais gosto de fazer como contador de histórias é justamente não explicar tudo. Gosto de deixar espaço para que cada leitor construa sua própria interpretação. Existe uma página que diz: “Papai está com você, mesmo quando não está”. Visualmente, ela pode sugerir que aquele pai morreu, mas também pode representar simplesmente um pai que está longe, viajando ou ausente por qualquer motivo. Quando contamos histórias para crianças, precisamos fazer isso de maneira adequada à idade delas. Os pais sabem até onde seus filhos estão preparados para compreender determinadas questões.

Tanto Papai quanto Milo imagina o mundo (trad. Nina Rizzi, Pallas, 2023)seu livro anterior, são histórias muito pessoais. Você acha que sempre acaba voltando ao tema familiar devido à sua experiência? 
Nunca tinha pensado dessa forma… Mas acho que sim. Esses livros são feitos para crianças. E a primeira ideia que uma criança forma sobre a vida vem justamente das pessoas que estão mais próximas dela. Todos sabemos que o ambiente em que crescemos nos molda, então faz sentido que eu continue voltando para essas histórias. No fim das contas, só consigo escrever a partir da minha infância. E também sei que não fui o único a viver essas experiências.

Existe algum livro que você gostaria de ter lido quando criança?
Será que é muita vaidade responder que um dos meus próprios livros? [Risos] 

Quando eu era criança, tive muita dificuldade para aprender a ler. Eu não me conectava facilmente com os livros. O que sempre me fazia voltar eram as ilustrações. Quero criar as histórias que eu gostaria de ter encontrado. Você mencionou Milo imagina o mundo. No fundo, é uma história sobre não julgar as pessoas pela primeira impressão. Ao mesmo tempo, o livro fala sobre crescer tendo um dos pais preso. 

Minha mãe passou boa parte da minha infância na prisão. E, nos Estados Unidos, infelizmente, essa é uma realidade bastante comum, já que temos uma das maiores taxas de encarceramento do mundo. Mesmo assim, quase não existem livros infantis que abordem esse tema. É isso que me move. Quero que todas as crianças consigam encontrar suas histórias nos livros.

Quem escreveu esse texto

Malu Vieira

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.