Literatura,
Para se isolar do desastre do mundo
Geoff Dyer fala sobre autores, leitores, críticos, vidas que o inspiraram e seu novo livro, Os últimos dias de Roger Federer
17set2026Geoff Dyer é um escritor que embaralha os gêneros. Em Todo aquele jazz (trad. Donaldson M. Garschagen, Companhia das Letras, 2013) há uma investigação profunda e um pouco melancólica sobre o jazz como estilo de vida; Jeff em Veneza, morte em Varanasi (trad. José Rubens Siqueira, Intrínseca, 2010) funde, em camadas sinfônicas, a memória da leitura e as ideias do famoso Morte em Veneza, de Thomas Mann, com a criação de um duplo ficcional ironicamente distanciado de si mesmo.
Aliás, Dyer talvez seja um estilista que vê a literatura como um duplo escritural da vida. No recente Os últimos dias de Roger Federer,ele dialoga ficcionalmente em outra chave, sem deixar de lado a pulsação ensaística que lhe é peculiar. Edward Said, Roger Federer, John Coltrane e Bob Dylan, entre outros, são desmistificados de forma ao mesmo tempo lírica e jornalística. Esses personagens servem de fundo para a meditação sobre o ocaso e a finitude a partir de pessoas que assumiram a beleza estilística de uma performance como seu principal vetor existencial.
Qual é o peso do tempo na vida e na obra de um performer (como é o caso do tenista Roger Federer) ou de um artista? O livro não tenta responder a essa pergunta, mas, de maneira profundamente humana e até surpreendente, vai além. Na conversa a seguir, Dyer falou sobre Os últimos dias de Roger Federer, seus outros livros e algumas influências e referências literárias.
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Na “rua ontológica” onde você mora, D.H. Lawrence e John Berger são seus vizinhos. Qual é o significado de “escrever em um mundo em colapso”, considerando o impacto dessas duas presenças em sua trajetória?
Eles são semelhantes em muitos aspectos, e essas semelhanças tornaram-se mais evidentes para mim com o passar do tempo. Não apenas em suas obras, mas na força de suas personalidades. Para Lawrence, o colapso foi a Primeira Guerra Mundial; para Berger, houve inúmeros colapsos, um dos principais sendo o fracasso do comunismo. O que eles têm em comum é a recusa em cair no desespero. Nesse sentido, ambos foram figuras heroicas.
Não há nada de heroico na minha vida de escritor: eu simplesmente continuo fazendo isso porque… bem, nem sei por quê, mas representa uma maneira de me isolar de todos os acontecimentos desastrosos do mundo.
Quais são os possíveis significados do peso do tempo na vida de um artista?
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O que Coltrane (uma aura em Todo aquele jazz) tem em comum com Andrei Tarkovski, D.H. Lawrence, John Berger e Roger Federer? Haveria um toque de tristeza no fato de que cada um pode representar o fim de algo imensamente belo?
Não tenho certeza, exceto pelo lugar que eles ocupam na minha cabeça e no meu coração. Não acho que Berger fosse particularmente elegante como escritor, e Lawrence é, de certa forma, um escritor bastante descuidado (como Joyce disse, de maneira maldosa). Talvez haja algo em sua visão e capacidade de abrangência total. Você tem certa razão sobre a aura de Coltrane, no sentido de que ele não está lá fisicamente como outras figuras (Lester Young etc.), em parte porque eu nutria enorme reverência por ele e em parte porque seria difícil escrever sobre ele sem — como Charles Tolliver disse sobre sua obra tardia — “enveredar pelo cósmico”, o que é sempre um erro na escrita. Talvez tenha sido um erro para Coltrane também.
Quais livros moldaram o escritor que você se tornou?
Todos os escritores que conheço enfatizam a importância da leitura. Há um consenso de que a única maneira de se tornar um escritor é, antes de tudo, tornar-se um leitor. Sou um escritor extremamente original porque assimilei influências diferentes, vindas de muitos escritores. Algumas são óbvias (Barthes, Brodsky, DeLillo, Annie Dillard, Rebecca West), mas acredito ser necessário remontar às leituras da época da escola e da universidade — William Wordsworth, em particular.
Um personagem da novela O desenho no tapete, de Henry James, diz: “Há uma ideia no meu trabalho sem a qual eu não teria dado a mínima para a obra toda. […] Eu deveria deixar que outra pessoa dissesse isso; mas o fato de ninguém dizer é precisamente o assunto de que estamos tratando”. O que pensa de ideias em seus livros ainda não mencionadas por críticos?
Raramente achei as resenhas dos meus livros muito estimulantes ou informativas. Para ser sincero, minha reação ao lê-las é pensar: que bom crítico — que bom leitor dos livros dos outros — eu sou! Como muitos escritores, tenho várias queixas sobre o que disseram a respeito do meu trabalho. A principal delas é que alguns dos livros foram descritos como desestruturados. Isso é especialmente irritante porque Os últimos dias de Roger Federer, por exemplo, tem uma estrutura alcançada de forma muito cuidadosa e sutil, com seu fluxo e refluxo e a suspensão de ideias e argumentos.
Nietzsche é a figura mais importante do livro, que tenta incorporar ou ecoar a ideia do eterno retorno. No texto, sugiro que The Clock, o filme de 24 horas de Christian Marclay, é o equivalente cinematográfico mais próximo dessa ideia de Nietzsche, levando exatamente 86.400 segundos para começar a repetir o ciclo. É por isso que a edição em inglês de Federer tem exatamente 86.400 palavras: o número de segundos em um dia. Isso, combinado com o fato de que cada seção do livro é composta de sessenta partes, sugere uma relação com o ciclo do tempo, com segundos e minutos. Portanto, a estrutura é o meu forte!
‘Como muitos escritores, tenho várias queixas sobre o que disseram a respeito do meu trabalho’
Da mesma forma, apenas uma resenha captou a estrutura de Jeff em Veneza, morte em Varanasi — a maneira como existem esses ecos minúsculos (pequenos filamentos verbais quase invisíveis) conectando as duas metades, em vez da habitual corda robusta de um enredo. Deixe-me dar um exemplo. Na primeira parte, em Veneza, eles estão em uma festa num barco onde consomem muita cocaína, e a mulher por quem Jeff se apaixonou, Laura, dança sobre um belo tapete colorido. Não é um símbolo; ela está apenas dançando sobre aquele tapete.
Na segunda parte, o narrador e seus amigos vão a um concerto de música clássica indiana em Varanasi, e os músicos estão sentados sobre um tapete colorido. Ele ouve a mulher cantar e comenta: as pessoas falam em ouvido absoluto, mas a voz dela me fez pensar em um equilíbrio perfeito, em pés que se movem com leveza. Essa é uma das maneiras pelas quais Laura — que não aparece na segunda parte — acaba estando presente em Varanasi, presente mesmo em sua ausência. Isoladamente, isso não é nada; não é um símbolo, nem algo capaz de sustentar um livro inteiro. Mas, se tiver umas sessenta pequenas coisas assim, o que pareciam ser apenas detalhes irrelevantes em ambas as partes acaba se revelando algo mais significativo. Na verdade — já que estou aqui cantando meus próprios louvores, como Nietzsche em Ecce homo, no capítulo “Por que escrevo livros tão bons” —, considero-me um estilista muito singular. Isso passa despercebido porque os livros são tão fáceis de ler que o estilo é às vezes classificado como “coloquial” — o que é um absurdo. Ah, e meus livros também são repletos de ideias, já que você perguntou.
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