Literatura,
Me chame pelo meu nome
Escritora francesa investiga a história da bisavó esquizofrênica e expõe a violência psiquiátrica contra mulheres
14set2026 • Atualizado em: 11set2026Meu nome verdadeiro é Elisabeth surge da indignação da francesa Adèle Yon, de 32 anos, que decide investigar a história de sua bisavó, chamada de Betsy, de quem a família evitou falar a não ser para dar uma informação sumária: ela era esquizofrênica. Mistura de romance, memória e ensaio, o livro foi fenômeno de vendas na França, ganhou prêmios e foi traduzido para vinte países.
Escritora, pesquisadora de cinema e chefe de cozinha, a autora, membro de uma família da classe alta parisiense, sofreu na adolescência a angústia de conviver com o mistério em torno de sua bisavó. Saberia depois que não estivera sozinha na sua inquietude: em silêncio, parentes que se juntavam para passar o verão na propriedade familiar, na Bretanha, compartilharam do temor de herdar o mal de Betsy.
A narrativa começa em 2023 com o suicídio de Jean-Louis, o quarto filho de Betsy e tio-avô de Adèle, para voltar em seguida a 2020, acompanhando uma viagem de carro que Adèle fez com os avós de Lisboa a Paris, durante o segundo período de confinamento da Covid-19 na França.
Adèle interpela a avó, dizendo-lhe apenas uma palavra: Betsy. Por trás da aparente despretensão, ela tem dois objetivos: saber por que toda a família se cala quando esse nome é mencionado e descobrir se há risco de hereditariedade da doença. À medida que ela procede à investigação — reveladora de uma comunidade familiar fechada e de sensibilidade discutível —, é levada a conhecer o estágio da psiquiatria na França logo após a Segunda Guerra, assim como a condição do doente mental, sobretudo da mulher, naquele período. É nesses dois eixos que se desenvolve o romance.
Yon optou por exibir todas as faces da pesquisa a que se dedicou por três anos, confessando dúvidas e descrenças pessoais, relacionando argumentos e demonstrando seu estado de espírito, que vai do pasmo à revolta. Desse modo, ela divide com o leitor o processo investigativo por meio de uma narrativa que não deixa de ter feição cinematográfica: as ações se sucedem de forma quase visual. A sequência é clara, engenhosa, e corresponde a um thriller de boa linhagem.
Elisabeth foi submetida a tratamentos cruéis: eletrochoque, coma insulínico e lobotomia
Nascida em 1916, Elisabeth C. mostrou os primeiros sinais de transtorno mental nas proximidades do casamento com André, em agosto de 1940; morreu em 1990, aos 73 anos, dezessete dos quais recolhida em hospital psiquiátrico. Uma entre onze irmãos, alta e bela, Betsy teve seis filhos no período de sete anos.
Mais Lidas
A prole numerosa em tão curto tempo se justifica, em parte, pela obediência do marido à orientação médica, que julgava a gravidez benéfica ao estado de saúde mental das pacientes — sim, havia tal indicação. Nessa síntese ficam excluídos o sofrimento da mãe afastada dos filhos depois do parto, a ausência do marido e os tratamentos cruéis a que foi submetida: eletrochoque, coma insulínico e lobotomia.
Conforme se acompanha a investigação, vai-se lentamente conhecendo a história de Elisabeth. Que nesse “lentamente” não se veja o mínimo traço de monotonia. Ao contrário: a cada etapa há uma revelação instigante, que leva à seguinte. Nada escapa à sensibilidade fina da pesquisadora: a localização das instituições e sua arquitetura; a precisão dos chefes de serviço ao fornecer os resultados das buscas, em geral carregadas de frustrações; a impessoalidade dos arquivos e a qualidade vaga das anotações. Tudo é penoso, e, ainda assim, Elisabeth vai ganhando identidade.
Brutalidade
Um dos achados fundamentais de Yon foi a correspondência entre Betsy e André antes do casamento. Homem que reconhecia a sua própria brutalidade e se gabava: “Tenho um bom estômago e aguento tudo”, e que divergia de Betsy em relação a quase tudo, inclusive sobre o casamento:
Você me diz que não terei nenhuma responsabilidade em relação a você. Você querendo ou não, terei uma grande responsabilidade. Pois o Senhor quis que o marido conduzisse sua mulher.
Pode-se imaginar o que terá sido a convivência com um temperamento desse tipo para a jovem esposa, amante da liberdade, que lhe faz este apelo, um mês antes de se unir a ele:
[…] sou obrigada a pedir que me considere como sou: uma pessoa que precisa de muito espaço, física e moralmente; não posso viver em ambiente fechado. Infelizmente, não sou a jovem doce e suave.
O descompasso entre os dois é evidente. Em 1941, nasceu a primeira filha, que vem a ser a avó da autora. Uma depressão pós-parto seguiu-se ao nascimento da segunda, em 1942. Em vez de compreensão e respeito, vieram os “tratamentos”, enquanto Betsy continuava dando à luz, até 1948. Seu martírio institucional teve início em 23 de maio de 1950, quando, apartada dos seis filhos, o marido e o pai a internaram no hospital psiquiátrico da comuna de Fleury-les-Aubrais, hoje Estabelecimento Público de Saúde Mental Georges Daumézon.
Fichada sob o número 1244, e com o diagnóstico de esquizofrenia, ela passou a viver no desespero: fugas para casa; violência; revolta e remédios; uso da força hospitalar, com apoio da família. A lobotomia, feita no início do ano, mostrou a crueldade vã da cirurgia, e é nesse ponto que a indignação de Yon chega ao auge e ela injeta a essência do livro. Joga luz implacável sobre essa prática que, para desgraça de Betsy, teve sua “época de ouro” entre 1945 e 1955.
Nos contraditórios tempos de avanços formidáveis e ameaça de retrocessos temerários em que vivemos, Meu nome verdadeiro é Elisabeth guarda o valor de trazer à tona o massacre de que se constitui a lobotomia. Também conhecida como leucotomia ou psicocirurgia, consiste em fazer uma perfuração em cada lado do crânio do paciente para, com uma espécie de estilete, remover as fibras brancas que ligam o lobo frontal, na parte anterior do cérebro, ao tálamo, localizado no centro. De acordo com a imprensa americana da época, “a lobotomia parece demonstrar, entre outras coisas, que muitos comportamentos normais ou anormais têm, de fato, uma base tangível e física no cérebro, que pode ser operado com um bisturi tão facilmente quanto um apêndice inflamado ou amígdalas doentes”.
A ideia do médico norte-americano Walter Freeman, que no final da década de 30 deu continuidade à criação do neurologista português Egas Moniz, realizador, em 1935, da primeira lobotomia em humanos, era simplificar o método e desafogar os hospícios de uma população crescente. A lobotomia se tornou um espetáculo popular, como a guilhotina.
A ambição do procedimento não era curar a paciente de uma patologia clínica existente, mas torná-la apta a permanecer dentro de um ambiente social, familiar ou manicomial específico.
Até onde terá André desejado a tranquilidade familiar em troca da lobotomia feita em Betsy? Até que ponto a tirania do marido terá contribuído para a doença da mulher? Essa e muitas outras perguntas ressoam no romance em que a violência cirúrgica é evocada na descrição que a autora faz de seu aprendizado em corte de grandes peças de carne. Mais um vez, o efeito cinematográfico é bem-sucedido.
Caso recente
Yon estuda a relação familiar de poder e o quanto a escala desse poder é capaz de determinar a lobotomia ou outro tipo de violência. Não é sem motivo que as mulheres lobotomizadas representaram cerca de 80% na população manicomial. E, quando se pensa que internação compulsória é coisa do passado, vê-se recentemente o caso horrendo da escritora Helena Lahis, internada de forma criminosa em clínica psiquiátrica do Rio de Janeiro.
Ocorre-me fazer aqui um paralelo: em 1946, enquanto Betsy era exposta aos eletrochoques, uma brasileira, Adelina Gomes, tinha a sorte de, no mesmo ano, começar a frequentar os ateliês criados pela psiquiatra brasileira Nise da Silveira no então Hospital Pedro II, hoje Instituto Municipal Nise da Silveira. Adelina, assim como Betsy, é de 1916. Filha de lavradores, apaixonou-se por um rapaz, mas, diante da desaprovação materna, rompeu o namoro. Tornou-se sombria e, afinal, violenta: estrangulou o gato da casa, amado por todos, inclusive por ela. Foi internada no Pedro II em 1937, aos 21 anos. Diagnóstico: esquizofrenia. Em 1946, ao frequentar a Seção de Terapêutica Ocupacional do Pedro ii, passou a manifestar afeto e a produzir desenhos e pinturas magníficos, hoje disponíveis no Museu de Imagens do Inconsciente, situado no próprio instituto. Ao morrer, em 1984, deixou seu nome inscrito na psiquiatria e na arte brasileiras.
Se é aceitável aplicar o conceito de certo ou errado ao lugar e à hora em que se nasce, ousa-se concluir, não sem espanto, que Betsy, da burguesia parisiense, teve menos sorte do que Adelina, pobre de Campos dos Goytacazes (RJ), que, em vez da lobotomia, encontrou tratamento humanizado para o mal de que sofreu.
Porque você leu Literatura
Ferir e punir
Ao centrar romance em mãe que denuncia o próprio filho, Carla Madeira reflete sobre violência, trauma e punitivismo
SETEMBRO, 2026

