O cardeal e poeta José Tolentino Mendonça celebra missa durante a Flip 2026, em julho (Denis Santana/Agência Saíras/Divulgação)

Perspectiva amefricana,

A dois graus de Deus

A literatura tem uma relação particular com a teoria dos graus de separação: um livro nos aproxima de pessoas que não sabem que existimos

11ago2026 | Edição #109

Quando o finado Orkut surgiu, não bastava fazer um e-mail e solicitar acesso. Era preciso receber um convite para a rede. Na época, me lembro, circulava uma ideia de que nenhuma pessoa estaria realmente muito distante de outra. Lembro, sobretudo, que tentávamos calcular quantas pessoas seriam necessárias para chegar a alguém aparentemente inalcançável ou, como chamávamos na época, famoso.

Mas as celebridades eram apenas a prova mais divertida da hipótese, porque não se tratava propriamente de conhecer aquela pessoa, muito menos de estabelecer com ela qualquer relação verdadeira. Bastava demonstrar que o mundo, apesar de seu tamanho, podia ser atravessado por uma sequência relativamente curta de conhecidos. Eu conhecia alguém que conhecia alguém que, num dia improvável, estivera na mesma sala que a pessoa escolhida. No Orkut, onde a palavra “amigo” ainda designava ao mesmo tempo intimidade, parentesco, colega de trabalho ou alguém cuja existência havíamos acabado de descobrir, essas cadeias pareciam especialmente possíveis.

Hoje, quando as plataformas digitais administram nossas relações sem precisar nos explicar exatamente como, aquela brincadeira parece pertencer a uma internet quase artesanal. Nós mesmos fazíamos as contas, percorríamos os perfis, observávamos os amigos em comum, reconstruíamos o trajeto. A rede não era apenas o lugar em que estávamos, mas que tentávamos compreender.

Correntes

Muito antes do Orkut, a ideia de um mundo unido por poucas relações surgiu não como teoria científica, mas como literatura. Em 1929, o escritor húngaro Frigyes Karinthy publicou um conto chamado “Correntes”, no qual personagens imaginavam que qualquer pessoa poderia ser alcançada por meio de um pequeno número de conhecidos. Décadas depois, nos anos 60, o psicólogo Stanley Milgram transformou essa intuição em experimento: selecionou pessoas de diferentes regiões, que deveriam fazer uma correspondência chegar a um destinatário que não conheciam, encaminhando-a a alguém de suas próprias relações que parecesse capaz de aproximá­-la do alvo. As correntes concluídas eram surpreendentemente curtas.

O experimento se tornou “famoso” pelas cartas que chegaram, mas muitas outras não chegaram a lugar algum. Talvez tenham sido esquecidas sobre alguma mesa, consideradas pouco importantes, entregues à pessoa errada ou simplesmente abandonadas por quem não quis continuar a tarefa. Análises posteriores mostrariam que a base empírica era muito mais frágil do que a popularidade dos “graus de separação” fazia supor. Também revelariam que as redes humanas não distribuem igualmente suas possibilidades.

Algumas pessoas transitam entre grupos diferentes, acumulam contatos e podem acionar relações sociais com facilidade. Outras permanecem confinadas a circuitos estreitos, porque classe, raça, renda, território e prestígio determinam quem será recebido, apresentado e reconhecido. O mundo pode ser pequeno, mas não encolhe da mesma maneira para todos.

Talvez a teoria tenha sobrevivido menos por sua precisão do que pela história que conta sobre nós, já que gostamos de acreditar que não estamos irremediavelmente distantes uns dos outros. Diante de um planeta grande demais para a nossa imaginação, a possibilidade de alcançar qualquer pessoa por meio de uma corrente de conhecidos oferece algum consolo. O mundo deixa de ser uma vastidão indiferente e passa a se assemelhar a uma sala cheia, na qual ainda não encontramos quem procuramos, mas sabemos que alguém poderá nos apresentar.

(Denis Santana/Agência Saíras/Divulgação)

Lembrei isso durante uma conversa na última Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que teve entre os convidados o cardeal e poeta português José Tolentino Mendonça. Além de participar da programação, ele celebrou uma missa. Pronto. Estávamos a dois graus de Deus. Entre a Flip e o cardeal havia um grau, e entre o cardeal e Deus supunha-se alguma intimidade. Mesmo uma pessoa pouco familiarizada com a hierarquia católica poderia reconhecer que, dentro daquele organograma, Tolentino Mendonça ocupava uma posição mais próxima do alto escalão.

Ao alcance

Durante alguns dias, Paraty parece confirmar todas as teorias sobre a pequenez do mundo. A geografia ajuda com suas ruas estreitas, pedras traiçoeiras, pontes, casas que no restante do ano talvez tenham outra função. Pessoas que conhecemos por fotografias na orelha dos livros aparecem buscando o endereço da próxima atividade. Até os deuses andam entre nós, e é possível abraçar e tirar fotos com dois ou três imortais. Você deve concordar comigo que, nesse cenário, não é difícil sentir que todos estão ao alcance de todos.

Alguma coisa ocorre quando tantos percursos se concentram no mesmo espaço: ainda que desigualdades não sejam dissipadas, uma alteração momentânea de probabilidades
parece acontecer. Acredito que a literatura sempre teve uma relação particular com os graus de separação. Um livro nos aproxima de pessoas que não sabem que existimos e nos possibilita passar anos dentro das histórias de uma pessoa sem que jamais tenhamos ocupado o mesmo espaço físico. Muitas vezes, isso nem é possível. Mas a relação literária dispensa simetria, e um livro pode transformar profundamente alguém cujo nome o autor nem sabe.

Nesta Flip, tive essa experiência de deslocamentos e encontros que quase me tornou devota da teoria dos graus de separação. Estive em mesas, conversas, algumas que jamais pensei que um dia teria, e situações que só se tornaram possíveis porque eu estava ali. Em uma dessas ocasiões, falei sobre meu próximo livro, ainda em fase de escrita. Falar sobre ele publicamente produziu uma mudança pequena, já que, até então, sua existência se concentrava entre mim, as páginas e algumas pessoas próximas ao processo. Ao descrevê-lo diante de outras pessoas, precisei descobrir o que conseguia dizer sem encerrá-lo prematuramente numa explicação. Ao mesmo tempo, aquela conversa ampliava a realidade do livro.

Os graus de separação oferecem uma medida tranquilizadora porque transformam relações em números. Mas a vida não se organiza dessa forma, já que estar longe não impede que uma voz chegue até nós. Talvez Deus apareça nessa história não como o nome de alguém situado no fim da corrente, aguardando que um cardeal faça as apresentações, mas como uma medida do inalcançável. Para os crentes, Deus dispensa intermediários e os multiplica; para os descrentes ou duvidosos, permanece como uma das mais persistentes invenções humanas para falar daquilo que não pode ser inteiramente conhecido. Penso que a literatura trabalha numa região semelhante, embora sem prometer salvação.

A Flip estava a dois graus de Deus, mas estava também a poucos passos de pessoas que eu conhecia havia anos sem nunca ter encontrado, de reencontros inesperados e de livros que me acompanhavam antes de adquirir o rosto de quem os escreveu.

Ao voltar de Paraty, pensei novamente nas correspondências de Milgram. A história dos graus de separação foi construída a partir das cartas que chegaram, mas talvez as cartas interrompidas contenham a parte mais verdadeira do experimento. Nem toda tentativa de alcançar alguém será concluída. Ainda assim, continuamos entregando a carta à próxima pessoa.

p.s.: O título desta coluna nasceu de uma conversa com a querida Claudia Vukojicic, a quem agradeço pela frase e pela alegre descoberta de nossa proximidade circunstancial com Deus.                

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “A dois graus de Deus”

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