A partir do alto, as escritoras Eliana Alves Cruz, Mayra Santos-Febres, Paulina Chiziane, Toni Morrison, Octavia Butler e Carolina Maria de Jesus (Divulgação; Reprodução; Sueddeutsche Zeitung/Divulgação; Cheung Ching Ming/Divulgação; Correio da Manha/Arquivo Nacional/Reprodução)

Perspectiva amefricana,

Formas do tempo

Para muitas autoras negras e afrodiaspóricas, o passado está tomado por histórias de ruptura e violência que continuam no presente

14jul2026 | Edição #108

Não sei se essa é uma experiência coletiva, ainda que saiba que pouco do que vivemos é verdadeiramente único, mas depois dos quarenta passei a ter uma outra relação com o tempo e com a narrativa do tempo. De um lado, ando mais ranzinza sobre o que tenho chamado “desrespeito com o tempo alheio”, mas isso é algo pessoal; de outro, o tempo retorna como uma reflexão contínua sobre seus significados, principalmente literários. 

Quando li O crime do Cais do Valongo, de Eliana Alves Cruz, isso se tornou mais visível, já que a leitura não se organizava apenas como acompanhamento de uma história situada no século 19 ou como retorno a um passado brasileiro marcado pela escravidão. Havia momentos em que parecia estar em jogo como atravessamos diferentes camadas temporais de uma só vez, nos quais o que se narrava não ficava restrito ao que havia acontecido, mas se expandia para aquilo que continua se reorganizando no presente, como se certos eventos não coubessem na categoria de passado.

Em Fé disfarçada, da porto-riquenha Mayra Santos-Febres, a leitura e a relação com o tempo pareciam caminhar em outra direção, na qual, mais do que uma história marcada pela colonialidade e pelo desejo, se experimentava uma forma de existência em que o corpo não se separa facilmente das camadas históricas que o atravessam. As personagens pareciam viver dentro de um presente que já carrega outras temporalidades, e isso altera a maneira como o tempo da narrativa se organiza, porque não há um ponto de observação neutro de onde se possa separar o que pertence ao agora e o que vem de antes.

Já em Niketche, da moçambicana Paulina Chiziane, a sensação foi da persistência de estruturas sociais e afetivas que se transformam sem desaparecer, nas quais as relações entre mulheres, homens e formas de organização familiar mudam ao longo da narrativa, mas sem uma ruptura completa, como se o tempo histórico se movesse sem dissolver inteiramente suas formas anteriores.

Há formas de organização temporal que dependem das condições históricas do que se narra

O tempo também ocupa um lugar central em Amada, da norte-americana Toni Morrison, em que o passado não se deixa acomodar na condição de lembrança e retorna, infiltrando-se na vida cotidiana, alterando relações, fazendo com que a memória deixe de funcionar como registro do que foi vivido e passe a operar como uma força contínua sobre o presente, embaralhando as fronteiras entre o que aconteceu e aquilo que ainda permanece. 

Em outro registro, ainda mais deslocado em relação às expectativas de continuidade temporal, a escrita da também norte-americana Octavia Butler radicaliza a instabilidade do tempo ao imaginar situações em que o passado e o futuro deixam de funcionar como categorias separadas. Em Kindred, o deslocamento entre épocas não aparece como metáfora, mas como mecanismo narrativo que obriga a personagem a experimentar a escravidão como presença recorrente que interrompe a vida contemporânea. Quando o li, fiquei pensando em como isso se reflete na vida de pessoas negras, quando somos recorrentemente lembradas de hierarquias inventadas que precisamos romper. É exaustivo, ainda que saibamos necessário. Butler faz o tempo arrastar o corpo para dentro de outra lógica de existência, em que a sobrevivência depende de uma negociação constante entre temporalidades que não se conciliam.

Legados

Essa dificuldade de separar com nitidez passado e presente aparece também em reflexões produzidas fora do campo ficcional. As norte-americanas Saidiya Hartman e Christina Sharpe, ao pensarem os legados da escravidão transatlântica, chamam atenção para o fato de que determinados processos históricos não desaparecem quando deixam de existir juridicamente, porque continuam organizando instituições e distribuindo vulnerabilidades. Talvez por isso tantas obras negras e afrodiaspóricas apresentem temporalidades que parecem escapar à linearidade. Não se trata só de uma escolha formal: a separação entre antes e agora nem sempre corresponde à experiência concreta dos sujeitos. 

A releitura também se impõe diante da obra de Carolina Maria de Jesus. Quando se abre Quarto de despejo pela primeira vez, é difícil escapar ao impacto produzido pela narrativa da fome que acaba ocupando certa centralidade na leitura. Mas, anos depois, outras questões começam a emergir com maior nitidez, como a Carolina observadora da cidade, cronista das desigualdades brasileiras. O tempo não altera o livro, mas aquilo que somos capazes de reconhecer nele, revelando dimensões que permaneciam ocultas porque ainda não havíamos aprendido a vê-las. 

Essas histórias evidenciam, cada uma à sua maneira, que a experiência do tempo não é uniforme. Há modos de organização temporal que dependem das condições históricas do que se narra e da maneira como se lê. Em muitas escritas negras e afrodiaspóricas, o tempo aparece como algo que não se reduz a uma sequência estável, porque está tomado por histórias de ruptura, violência e permanência que continuam no presente. Isso não significa que compartilhem uma mesma ideia de tempo ou que possam ser reunidas sob um princípio comum. O que se compartilha, se algo se compartilha, é a experiência de lidar com formas de temporalidade que não se deixam organizar facilmente em linha reta — e que exigem uma disposição diferente daquela que se orienta pela busca de conclusão.

À medida que envelheço, entendo as razões pelas quais sigo retornando a determinados livros

Ler essas obras implica aceitar que a compreensão não se dá pela redução do múltiplo ao uno, mas pela permanência em um campo em que diferentes tempos coexistem sem se resolver completamente. A leitura, nesse caso, não conduz a uma síntese, mas a uma forma de atenção que precisa aprender a conviver com aquilo que não se estabiliza. Talvez seja por isso que certas leituras continuam voltando ao longo da vida. Não porque não foram compreendidas da primeira vez, mas porque cada retorno reorganiza tanto o livro quanto o leitor, e essa reorganização não acontece de maneira previsível, com o tempo se movendo entre uma leitura e outra. O tempo do texto. O tempo da vida. É nesse movimento que a literatura encontra sua forma mais persistente de existência.

Durante a escrita deste texto, retornei ao francês Paul Ricoeur e à sua reflexão sobre as relações entre tempo e narrativa. Em sua obra, a narrativa aparece como uma das formas pelas quais os seres humanos atribuem inteligibilidade à experiência temporal, articulando acontecimentos dispersos em uma configuração capaz de produzir sentido. O que me chama atenção em muitas das escritas negras mencionadas aqui é que elas parecem operar justamente na fronteira dessa possibilidade. Em vez de organizar o tempo em uma sequência estável, fazem aparecer aquilo que resiste à organização.

Muitas obras continuam produzindo efeitos depois de concluída a leitura, porque colocam em questão a maneira como aprendemos a imaginar a relação entre passado, presente e futuro. Com isso, desafiam uma compreensão do tempo fundada na ideia de superação, segundo a qual os acontecimentos permanecem atrás de nós e seguem seu curso em direção ao desaparecimento. Essas narrativas nos dão outra percepção, mais próxima da permanência e da coexistência de temporalidades que insistem em ocupar o mesmo espaço histórico.

À medida que envelheço, tenho a impressão de que esta é uma das razões pelas quais sigo retornando a determinados livros: porque continuam modificando perguntas mais do que oferecendo respostas e me guiando na experimentação do tempo. Nas escritas negras que me acompanharam nos últimos anos, encontro a possibilidade de ampliação da nossa capacidade de perceber aquilo que continua vivo e inacabado na história e em nós mesmos.

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Formas do tempo”

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