Cinema,
O Odisseu de que precisamos
Imperfeita como tinha de ser, A Odisseia, de Christopher Nolan, honra a tradição homérica ao recolocar vícios e virtudes no centro da epopeia
05ago2026Há limites para a ingenuidade. Para a soberba, também. A nova adaptação cinematográfica da Odisseia tem sido alvejada por críticas ferrenhas, assim como colocada no pedestal. Embora parte do debate seja produtivo e estimulante, a impressão é de que estamos acometidos por uma grave miopia estética que inviabiliza qualquer expectativa razoável sobre releituras contemporâneas de narrativas clássicas.
É evidente que A odisseia, versão do diretor Christopher Nolan, não é uma obra-prima. Tampouco as adaptações do passado — como Ulysses (1954), de Mario Camerini, eternizado pela atuação de Kirk Douglas — atingiram esse patamar. E a razão disso é simples: não se pode exigir do cinema — uma arte refém do tempo — a densidade de obras literárias cuja assimilação demanda não horas, mas meses ou anos.
Não faz sentido eleger fidelidade como critério de análise de adaptações. Quem insiste na centralidade desse princípio tanto comete uma injustiça quanto atesta a própria insensibilidade à dinâmica de transposição de linguagens. Pois como poderia um filme hollywoodiano capturar a essência dos hexâmetros heroicos?
Daí minha preferência por pensar a adaptação sob a ótica da honra. Releituras podem reverenciar a grandeza da obra-matriz — ou seja, honrá-la — de mil maneiras, inclusive por meio de distorções. O nome da rosa (1986) demonstra isso. Comparado ao romance homônimo de Umberto Eco, célebre pela riqueza histórica e filosófica, o filme de Jean-Jacques Annaud beira a caricatura, na trama e na construção simplificada dos personagens. O encontro sexual entre o noviço Adso e a camponesa, decisivo para a história e polêmico à época, difere drasticamente do episódio original. Mesmo assim, poucos contestariam que o filme honra, com notável beleza, o universo medieval do escritor italiano.
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Se o mesmo raciocínio se aplica ao caso de Nolan, a questão que interessa é esta: como uma adaptação deliberadamente distante de elementos centrais da epopeia pode honrar a tradição homérica? A resposta está no imaginário popular.
Há tempos o brilho das espadas ofusca a profundidade do universo homérico
Monstros, deuses, guerras e grandes feitos: essas são as imagens que nos ocorrem quando pensamos na Grécia Antiga. Com um pouco de esforço, lembramo-nos do teatro, das cidades-estado e de alguns nomes que moldaram a filosofia ocidental. No mais das vezes, porém, basta voltar os olhos para a cultura popular — de Xena: a princesa guerreira (1995-2001) a Percy Jackson e os olimpianos (2023, ativa) — para perceber que o nosso imaginário sobre o mundo grego é fortemente dominado pelo heroísmo, como se a cosmovisão dos antigos pudesse ser reduzida ao espetáculo da guerra.
Há tempos o brilho das espadas ofusca a profundidade do universo homérico. Aprendemos a enxergar Odisseu estritamente como herói, expressão máxima da inteligência e da coragem. Contudo, A odisseia não é uma ode ao rei de Ítaca, mas uma narrativa que questiona seus vícios e virtudes, dilemas e misérias — um filme cuja potência decorre da representação disforme da natureza humana.
Facetas
O que a crítica mais inflexível não reconhece é que o trabalho de Nolan colabora para aproximar o público da dimensão polifônica da obra de Homero. Poucos esperavam encontrar ali um Odisseu atormentado e vulnerável, dividido entre o peso do passado e a hesitação diante do futuro. Da mesma forma, muitos se chocaram ao testemunhar um herói capaz de manipular a própria tripulação para satisfazer seus caprichos. No entanto, essas são facetas cruciais do Odisseu homérico, cuja glória só é concedida após uma longa sucessão de sofrimentos e humilhações.
Esse deslocamento de foco cobra um preço: ao privilegiar o tormento e os excessos de Odisseu, o filme confere às desventuras um tom extremamente sombrio. A interpretação de Matt Damon pouco se interessa em transmitir o humor que tantas vezes caracteriza o personagem. O drama do filme é tão intenso que quase faz do protagonista um personagem introvertido, tímido. Em muitos sentidos, o Odisseu de Nolan não é o Odisseu de Homero. Porém, isso não significa que ele não seja o Odisseu de que precisamos. Afinal, é do atrito entre ambas as representações que nascem o incômodo, a dúvida e a reflexão — condições fundamentais para uma experiência mais rica da epopeia.
Atena
Uma das escolhas mais criticadas é a representação de Atena, vivida por Zendaya. Em vez de auxiliar Odisseu, a deusa surge repetidamente para confrontá-lo, reprovando silenciosamente suas atitudes. Para parte da crítica, Nolan teria reduzido a divindade a um recurso sentimentalista, produzindo uma leitura anacrônica: o desapontamento contínuo de Atena projetaria sobre a obra milenar nada além de preocupações éticas contemporâneas, como as ligadas ao feminismo, alheias ao universo da época.
Mais uma vez, a crítica não é de todo infundada. Como deusa da sabedoria e da estratégia, Atena favorece Odisseu porque reconhece nele as qualidades que mais estima: a astúcia, o pragmatismo e a capacidade de dissimular. A afinidade entre os dois é explícita. No 13o canto da epopeia, por exemplo, ao iniciar-se a reconquista de Ítaca, a deusa demonstra satisfação ao perceber que, mesmo após anos de errância, o herói permanece fiel à prudência, ocultando sua identidade ao reencontrá-la. Ou seja: a arte do disfarce e da mentira é mais elogiada do que reprovada por ela.
Em todo caso, resta a dúvida: a acusação dirigida a Nolan seria dirigida com igual rigor a outra obra milenar da tradição grega? Ou a autoridade do autor bastaria para converter em liberdade poética o que hoje se chama anacronismo? Refiro-me à peça As troianas, de Eurípides.
Concebida no século 5 a.C., a peça desnuda a crueldade da ainda hoje celebrada conquista de Troia. Enquanto a Ilíada se detém nos últimos dias da guerra, encerrando a narrativa às vésperas da destruição da cidade, Eurípides atravessa esse limiar e faz do massacre o objeto da tragédia. Astíanax, filho de Heitor e Andrômaca, é condenado à morte ainda menino por decisão de Odisseu e dos chefes gregos, temerosos de que um dia pudesse restaurar Troia. As mulheres troianas são repartidas entre os vencedores como espólio de guerra. Hécuba, rainha de uma cidade outrora soberana, é rebaixada à condição de escrava de Odisseu. E Cassandra, filha de Hécuba e sacerdotisa de Atena, é violentada por Ájax no próprio templo da deusa, aos pés da estátua sagrada.
A reação de Atena é de uma gravidade quase insuportável. Diante da impiedade dos vencedores, a deusa procura Poseidon, seu antigo adversário, e o persuade a castigar os gregos em sua viagem de retorno de Troia. A protetora de Odisseu torna-se, assim, a primeira divindade a exigir a ruína daqueles cuja glória ajudou a construir.
Odisseu oscila entre crueldade e lealdade; é o herói de uma guerra absurda
Deveria Eurípides ser acusado de corromper o universo grego? Os acontecimentos de As troianas não encontram lugar na obra de Homero, mas isso não significa que a peça deixa de manter uma profunda e necessária relação dialógica com os mitos que a precedem. Eurípides concebe sua tragédia, afinal, em um contexto marcado pela violência imperial ateniense. Durante a Guerra do Peloponeso, Atenas sitiou Melos e massacrou sua população após a ilha não se submeter ao seu domínio. Assim, Eurípides surge como herdeiro da tradição grega não por preservá-la intacta, mas por interrogá-la com lucidez e originalidade, trazendo à tona facetas escamoteadas pela narrativa heroica.
Sem forçar o paralelismo, algo semelhante acontece no filme A odisseia. Com todos os seus defeitos, o filme recupera algo essencial da tradição homérica: a representação de uma humanidade em permanente tensão consigo mesma. Odisseu oscila entre a arrogância e a resiliência, a crueldade e a lealdade, esbarrando continuamente nos extremos do vício e encontrando, apenas de maneira ocasional e provisória, o equilíbrio das virtudes.
É preciso compreender Odisseu como o herói de uma guerra absurda e, ao mesmo tempo, como um pai que responde pelos próprios atos. O pêndulo das virtudes atravessa toda existência humana. E talvez a beleza da busca pela eudaimonia — o bem-viver, no termo dos gregos antigos — resida justamente na aceitação da errância como destino e na descoberta, quase sempre tardia, de que nenhuma vida digna escapa ao erro e às suas consequências.
Um dos momentos mais bonitos do filme ocorre quando Odisseu enfrenta sozinho os pretendentes. Seu filho Telêmaco, ao ver o pai caído, cercado por dezenas de homens, avança para ajudá-lo, mas, do chão, Odisseu grita: “Não!”. É o clamor de um pai que protege o filho, sem dúvida. Mas também a sabedoria de um homem falho que compreende, enfim, que existem fardos que não podem ser compartilhados.
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