Flip,
Exercício de inventar mundos é a vida em si, diz Paulliny Tort
A autora de Os imortais falou, junto com Andréa del Fuego, de obsessões, prazer da escrita e identificação com personagens detestáveis
23jul2026“mas para que serve o pássaro?/ O pássaro não serve”. Os versos da poeta Orides Fontela, homenageada da Flip 2026, deram título à mesa que reuniu duas grandes ficcionistas brasileiras: a paulistana Andréa del Fuego e a brasiliense Paulliny Tort. Escritoras que atiçam e desafiam a imaginação dos leitores, as duas foram provocadas pela mediadora, a jornalista Micheline Alves, a responder para que serve o pássaro da ficção.
Autora de Os imortais (Fósforo, 2026), romance que narra a saga de um clã de neandertais tentando sobreviver a todo tipo de intempéries, Tort defendeu que fabular deveria ser tratado como comer, dormir e outras atividades vitais. “A gente tem a imaginação como algo sem valor, que deixamos para trás na infância, mas esse exercício de inventar mundos é a vida em si.”
Del Fuego, que entre outros livros publicou o romance A pediatra (2021) e a coletânea de contos breves Nego tudo: ficções súbitas (2025), ambos pela Companhia das Letras, disse gostar de pensar na imaginação como uma faculdade mental. “A gente desloca isso dos sentidos, mas acho que imaginação é um jeito de lamber, tocar, cheirar o mundo até de uma forma mais íntima.”

As duas autoras provocaram risadas na plateia, que lotou o Auditório da Matriz, ao falarem sobre suas obsessões por determinados temas que resultaram em seus romances. Jornalista de formação, Tort contou que cursou dois anos de ciências biológicas na Universidade de Brasília e se interessava por artigos e pesquisas sobre a pré-história bem antes de conceber Os imortais. “A única coisa que pesquisei deliberadamente [para a escrita] foi sobre os cavalos do paleolítico, que são um pouco diferentes dos modernos”, disse.
“Eu adoro ler hemograma e agora estou boa em ler exames de imagens. Posso ser presa por exercício ilegal da medicina”, brincou Andréa del Fuego, ao comentar sobre A pediatra, seu romance mais conhecido. No livro, a protagonista é uma médica que não gosta de crianças. Antes de mergulhar no universo da personagem, a escritora contou que já lia papers médicos e frequentava grupos de doenças raras no Facebook por pura hipocondria.
Vilões
As escritoras também falaram sobre a identificação com personagens que se revelam detestáveis ao longo da narrativa. “Vocês conhecem alguém que seja legal o tempo inteiro?”, questionou Tort, ao comentar sobre Pequeno, personagem violento que é uma espécie de antagonista em Os imortais.
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“Não acho que ele tenha só características desagradáveis. É muito impetuoso e um contador de histórias das caçadas — um gosto muito parecido com o que tenho. Mas entendo que não se goste dele”, disse.
Del Fuego, que durante a gravidez optou por um parto humanizado — algo ironizado pela médica de A pediatra —, contou ter aprendido nas aulas de filosofia a não atenuar a complexidade dos outros.
“É uma cilada ser fiel aos seus valores escrevendo”, disse. “Que baita exercício é esse de não ser você na literatura. A dúvida, deixar o barco balançar, é o que me interessa. Ficar mareada.”
Tort fez a plateia rir ao brincar que as duas planejavam escrever um romance com os dois personagens, chamado O pequeno pediatra.
Ao responderem a uma pergunta da plateia, as autoras criticaram o uso de ferramentas de inteligência artificial na criação literária. “Acho inconcebível trocar uma experiência cerebral fulminante por um prompt”, disse Andréa del Fuego, que considera a escrita, e não só a leitura, um antídoto para lidar com a IA.
“Tenho impressão que, quando a pessoa faz um texto a partir de um prompt de IA, abre mão desse grande prazer, desse barato da escrita, que exige do corpo”, concordou Tort.
Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
