A escritora brasiliense Paulliny Tort (Renato Parada/Divulgação)

Literatura brasileira,

Nós antes de nossos antepassados

Com a história de um clã de neandertais em migração, Paulliny Tort imagina uma origem mítica dos seres humanos

13mar2026 | Edição #104

Uma das coisas mais maravilhosas da literatura de ficção — para muitos, a maior das maravilhas — é o fato de nos permitir habitar o espaço dos outros. O espaço inclui o chão onde eles pisam, claro, mas também suas ideias e emoções, seus corpos e sentimentos, seus movimentos e ações. 

Essa potência não vem sem embaraços: há algumas décadas, o debate a respeito de quem pode dar voz a quem perturbou a impressão bicentenária de que a imaginação literária era terreno de liberdade quase total — para aqueles a que se reservava o poder de exercê-la. É tão redundante quanto necessário repetir que há um ganho óbvio — ético e estético — em ter narrativas escritas por quem até outro dia não tinha acesso pleno ao campo literário: a ficção se desdobra e se enriquece em tema e em forma. 

O ganho, porém, chega com um custo: a reivindicação, por alguns agentes, de que habitar o espaço do outro é bom, sim, mas só no lado da leitura. Já na parte da escrita criativa, deve–se respeitar, dizem eles, o que se chama, um pouco genericamente, de lugar de fala. Tornou-se um faux pas — ou pelo menos uma escolha terrivelmente arriscada — um homem branco falar, por exemplo, desde o corpo de uma mulher indígena.

O impulso de experimentar o lugar do outro, porém, não abandona os escritores mais interessantes, ou seja, os mais interessados. Recentemente, têm ganhado espaço as consciências não humanas, em exercícios de imaginação radicais que produziram alguns dos romances contemporâneos mais fascinantes. Um exemplo no Brasil é Krakatoa, de Veronica Stigger.

Não estou aproveitando o espaço da resenha de Os imortais, segundo romance de Paulliny Tort — autora dos contos de Erva brava (Fósforo, 2021) —, para advogar a favor do direito, ou melhor, da necessidade de romancistas escreverem na voz de e sobre quem bem entenderem (desde que de forma honesta e atenta). É a própria Tort, em seu livro, que faz esse libelo — e do melhor jeito, em um romance absolutamente esquisito e deslumbrante.

O objetivo foi escrever uma epopeia, nos transpor aos embates originais da nossa história

Falei do “outro” no âmbito do gênero e da raça; depois pulei para o “outro” no âmbito da espécie ou até do reino. Tort encontrou um espaço de criação mais ambíguo e, talvez, mais difícil e ambicioso. Os imortais são nossos antepassados; porém, não os africanos, europeus, ameríndios. Sua imaginação vai bem mais longe e se instala no breve encontro entre os últimos neandertais e os primeiros sapiens.

Os desafios são imensos. Primeiro: como construir um romance sem falas articuladas? A colombiana María Ospina Pizano enfrentou algo afim em seu belo Só um pouco aqui, no qual tenta conceber ideias e emoções de animais em migração — e seu narrador admite as incertezas e a impossibilidade de efetivamente saber o que se passa sob penas e pelos.

Tort se impôs uma tarefa mais complicada. Em Os imortais, a brasiliense recusou o recurso a um narrador que confessa suas dúvidas e ignorâncias. O objetivo foi escrever uma epopeia, nos transpor para os embates originais da nossa história, com foco em uma possível história dos primeiros humanos, e não em nossa distância em relação a eles.

Método mítico

Tort deixa evidente o propósito épico ao esfarelar parte do início da Eneida, no original latino, nos títulos dos capítulos do romance. Virgílio imaginou um mundo a fim de narrar a fundação de Roma; Tort se coloca na mesma linhagem, mais leal à força mítica do que a fatos cientificamente comprováveis, e concebe com liberdade criativa as aventuras de nossos parentes distantes. Para tal, recorre a um narrador que descreve o que falam e pensam e, por vezes, usa sons e onomatopeias em discurso direto, mas sem aspas ou travessões. No início do livro, o método parece entediante, mas de repente se torna uma forma encantatória de narrar, com altos (muitos) e baixos (poucos).

Os imortais conta a história de um clã de neandertais em migração, fugindo das mudanças climáticas que complicam a obtenção de comida. Eles imaginam um campo cheio de cavalos a ser abatidos; nós imaginamos junto. Há um par de guias materiais, o Homem e a Mulher; dois anciãos que cuidam da orientação “espiritual”; um antagonista agressivo, o “pequeno”. Há rituais, tabus, hábitos, medos, ansiedades — e armas, feitas com pedra lascada.

Tort não se furta a fantasiar, num gesto de puro gozo literário, embora claramente tenha feito pesquisa sobre o período em questão. O que há de mais belo no romance, porém, é o movimento em direção aos nossos ancestrais. Há anacronismos: muitos personagens pensam de forma semelhante a nós. Um crítico positivista talvez se melindre com essa imprecisão, chamando-a erro ou logro. Prefiro celebrar a força da ficção, essa invenção humana que permite ver o que ficou perdido, o irrecuperável.

Se não pela ficção, como acompanharíamos a história de uma bebê sapiens que cresceu entre os neandertais achando-se parecida demais e diferente demais? A “garota”, como a conhecemos, é a principal protagonista de Os imortais, destacando-se um pouco mais que os outros dois personagens que enxergamos de perto, o Homem e a Mulher. São essas pessoas, também diferentes demais e parecidos demais com a gente, que nos transportam para aquelas terras hostis, que nos colocam na boca uma sopa de vermes e de gordura de pequenos roedores, que se apavoram como nós diante da fúria da natureza. São eles que se esforçam para nos mostrar uma humanidade — no melhor sentido: a comoção diante da beleza, o medo da morte, a amizade, o desejo — que é pura potência, uma espécie de aposta generosa em uma origem promissora. 

Há arcos menos críveis do ponto de vista paleoantropológico. O destino do Homem, em especial, é deliberadamente extraordinário. Talvez fosse melhor dizer inverossímil, mas, na evolução humana, o que não parece absurdo? O importante é que a jornada funciona na narrativa. 

Quando o romance se arrisca em uma aposta que vai contra as evidências e nos coloca diante da violência mais devastadora, estamos vendidos demais e apenas perguntamos, como Virgílio, ecoado por Tort: cabe tão feroz rancor no peito dos deuses eternos? E respondemos, hesitantes: cabe, mas nossa espécie ainda é imortal. E, enquanto estamos aqui, imaginamos.

Quem escreveu esse texto

Ligia Gonçalves Diniz

É crítica literária e autora de O homem não existe: masculinidade, desejo e ficção (Zahar).

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.

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