Perspectiva amefricana,
Memória em disputa
Relato de Maria Werneck sobre prisão feminina durante o Estado Novo não permite que a experiência se reduza ao que dela se conseguiu escrever
27abr2026 | Edição #105Em 2007, quando eu compunha a gestão do Diretório Central Livre dos Estudantes Alexandre Vannuchi Leme, da USP, houve uma ocupação da reitoria. O que se iniciou a partir de uma plenária sobre melhores condições para alunos e trabalhadores da universidade se transformou em uma grande mobilização. Os meses de permanência no prédio foram marcados por cortes de água e por uma série de medidas que produziam desgaste contínuo.
Após a desocupação, outro tipo de operação foi acionado pela reitoria, mais difuso e, ao mesmo tempo, preciso. Nesse momento, fui convocada para uma oitiva que eu chamaria, no mínimo, de desconfortável. Fui confrontada com nomes e fotografias, sob uma economia de gestos e palavras que organizavam a situação com clareza suficiente para que nenhuma explicação adicional fosse necessária. Minhas respostas foram todas negativas, analisei o que e quando dizer e tenho até hoje a cópia do meu depoimento, que fiz questão de carregar.
A leitura da reedição de Sala 4, de Maria Werneck, faz dessa minha lembrança, que eu considerava um marco de tensão em minha vida, algo um tanto juvenil diante das memórias narradas por ela com outras dezenas de mulheres que ousaram ter ideias durante o Estado Novo. Dizer que fui interrogada passou a soar excessivo, já que não houve elevação de tom nem ameaça explícita, ainda que tenha permanecido a sensação de compressão, como se o espaço ao redor se estreitasse.
O livro de Werneck, advogada e uma das líderes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, se constrói a partir de uma escrita que recusa o excesso e a dramatização, tendo na contenção um método. A violência se torna perceptível como estrutura, exigindo uma leitura atenta a deslocamentos quase imperceptíveis, a gestos que, fora daquele contexto, poderiam parecer irrelevantes.
As cenas, por vezes, se acumulam, não estão cronologicamente organizadas, com tempos de espera que compõem um tecido narrativo do tempo político. A prisão não é retratada apenas como restrição de movimentos, mas em sua brutal faceta de violência, de reorganização da linguagem, estabelecendo novos modos para o que precisa ser dito ou silenciado. Nesse sentido, a memória não se apresenta como fluxo contínuo, mas como uma composição histórico-política que faz recriar o cenário, ainda que limitado.
Invenção
A leitura me transportou e trouxe deslocamentos todo o tempo, já que, no mesmo período, localizei documentos sobre o processo respondido por meu bisavô e meu tio-avô, presos na ditadura militar. Trata-se de um outro regime, mas que participa da mesma economia de invenção de verdade, na qual narrativas burocráticas tentam produzir estabilidade, com nomes, datas e acusações articulados de modo a compor uma versão que se apresenta como definitiva.
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A justaposição dessas leituras não produziu síntese, mas fez emergir uma tensão entre formas de inscrição que, de um lado, reúnem um relato vívido que reconhece seus próprios limites; de outro, um arquivo que se pretende completo, ainda que isso dependa, justamente, da exclusão de tudo aquilo que escapa à sua lógica e a determinados interesses.
A quem interessar possa, em breve voltarei a falar desses arquivos por aqui. Não se pode deixar passar a inscrição de dois trabalhadores da construção civil que foram denunciados por “provocação de guerra subversiva”, convertida, mais tarde, para “integrantes de agrupamento paramilitar”.
O episódio da entrega de Olga Prestes à Alemanha nazista mostra o alcance das articulações repressivas
O fato é que as leituras se entrecruzam entre formas, testemunhos que sempre trazem a inquietação de nunca compreendê-los integralmente. Há uma zona de fricção em que diferentes versões coexistem, se tensionam, sem que uma possa eliminar completamente a outra.
Em Sala 4, há um ponto de vista situado, centralizado em trabalhadoras intelectuais, artistas e mulheres letradas. As personagens operárias, que Werneck pontua, algumas negras, introduzem variações importantes na composição do relato, mas ainda mantendo o eixo da enunciação ancorado em uma experiência específica de classe. De modo algum isso reduz a potência do livro, posto que a memória que se constrói ali carrega as marcas de quem a produz, e essas marcas se manifestam tanto naquilo que é dito quanto naquilo que permanece nas bordas.
Outro ponto de destaque é o convívio de Werneck com figuras como Olga Prestes, Nise da Silveira e Elise Ewert, narrado não como um inventário de nomes, mas apresentando o cotidiano compartilhado, no qual a notoriedade política não suspende as condições materiais da prisão. A forma como a autora narra o episódio de entrega e deportação de Prestes e Ewert para a morte na Alemanha nazista mostra o alcance das articulações repressivas e a disposição do Estado em eliminar não só corpos, mas também vínculos.
A importância do relato também está no fato de partir de quem viveu o que está sendo narrado, em um testemunho que se afirma como uma forma de disputa pelo registro histórico. Sala 4 não se apresenta como um livro que encerra uma experiência, mas como um texto que mantém abertas as próprias questões. A leitura não conduz a uma síntese confortável e talvez seja nesse movimento que continue operando, como insistência em não permitir que a experiência seja reduzida àquilo que dela se conseguiu escrever.
Maria Werneck, como boa e incansável militante, ainda nos conclama a seguir bravas com a certeza de que “ninguém impedirá a chuva”. Que assim seja.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Memória em disputa”
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