Repertório 451 MHz,

Poesia conjugal

Fernanda Bastos e Luiz Mauricio Azevedo falam na coluna Bruna Beber Entrevista sobre seus novos livros e como é a vida de dois poetas casados

27mar2026 • Atualizado em: 06jul2026

Está no ar o 189º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a coluna Bruna Beber Entrevista recebe a dupla de poetas Fernanda Bastos e Luiz Mauricio Azevedo, o Luma. Os dois, que são casados, conversam sobre como é dividir a mesma casa com outro poeta e o que a vida conjugal traz para a escrita um do outro — e para as muitas frentes literárias em que atuam, como crítica, curadoria e edição de livros.

Os convidados também falam sobre suas novas coletâneas de poesia. Azevedo está lançando a plaquete Vagoneta pelo Círculo de Poemas, clube de leitura e assinaturas da editora Fósforo. Já Bastos publicou Camomila, capim e outros cacos, no fim de 2025, pela editora Figura de Linguagem, fundada pelo casal. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet e da Companhia das Letras.

Uma das curadoras da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nas edições de 2022 e 2023, a porto-alegrense Fernanda Bastos é também jornalista, tradutora, pesquisadora e fundadora, com Luiz Mauricio Azevedo, da editora Figura de Linguagem. Antes de Camomila, capim e outros cacos, publicou as coletâneas de poemas Dessa cor (2018) e Eu vou piorar (2019), ambas pela Figura de Linguagem, e Selfie-purpurina (2022), pela Peirópolis.

A escritora, jornalista e tradutora Fernanda Bastos (Gustavo Schossler/Acervo pessoal)

Nascido em Cascavel, no Paraná, Azevedo é ainda crítico literário, pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp) e autor de ficção. Na poesia, estreou com Os mortos, reeditado em 2022 pela Figura de Linguagem, e lançou também a novela distópica Pequeno espólio do mal (2018), pela mesma editora, a coletânea Estética e raça: ensaios sobre literatura negra (Sulina, 2021) e o livro de contos Baldeação (Editora de Cultura, 2023), entre outros. 

O escritor, crítico literário e pesquisador Luiz Mauricio Azevedo (Acervo pessoal)

Na conversa, eles contam como a poesia entrou em suas vidas. Fernanda Bastos diz que começou a escrever poemas na adolescência, por influência de uma professora de literatura, mas demorou a publicá-los por considerar que seu único trabalho era o de jornalista. “Eu sempre achava que não ia dar para ser poeta, que [isso] não era uma profissão.”

Perto de completar trinta anos, quando finalmente lançou a coletânea Dessa cor, ela começou a se reconectar de forma mais profunda com “essa Fernanda da adolescência, que ia para a poesia para descobrir novos mundos, aí descobriu as poetas”. Bastos diz que uma das autoras que mais a influenciou foi a russa Anna Akhmátova (1889-1966), pseudônimo de Anna Andreevna Gorenko. Ela ficou conhecida principalmente pelo poema “Réquiem”, sobre o terror stalinista.

A poeta russa Anna Akhmátova, em 1947 (Vasily Fedoseev/TASS/Reprodução)

Já Luiz Mauricio Azevedo revela que, durante uma viagem à praia aos quinze anos, viu um jovem recitar um poema “muito heavy metal” numa pequena feira literária. O autor daqueles versos, logo descobriu, era o poeta português Fernando Pessoa — homenageado em novembro de 2025, nos noventa anos de sua morte, com um episódio especial narrativo do 451 MHz que investiga a sua vida e o seu legado.

O poeta português Fernando Pessoa (Reprodução)

“Eu fiquei louco pelo Fernando Pessoa”, lembra Azevedo, que comentou a descoberta com a tia que o acompanhava na viagem. Ela incentivou o sobrinho a conhecer mais a obra do poeta português e os dois compraram todos os livros de Pessoa que encontraram na feira. 

Poesia a dois

Sobre a influência da vida conjugal na produção literária, o casal de poetas diz que acabou criando uma dinâmica especial por dividir a mesma casa, compartilhada também com o filho Francisco. Fernanda Bastos afirma que a convivência do casal, nos momentos bons ou ruins, ajuda na criação de poemas — que os dois acabam sempre compartilhando entre si, em busca da opinião um do outro.

Ela lembra, por exemplo, que quando mostrou pela primeira vez ao marido os poemas que entraram em Dessa cor, Azevedo comentou: “tem uma coisa aqui muito flagrante, são poemas sobre o corpo das mulheres e sobre a identidade do que é ser uma mulher negra no mundo”. Ele brincou que só faltava um poema sobre a cor dela. “Eu disse: eu faço. E aí fiz o ‘Dessa cor’”, conta Bastos sobre o poema que deu título ao livro.

Já Luiz Mauricio Azevedo admite que tudo o que escreve fica melhor depois de passar pelo crivo da mulher, que costuma abrir para ele novas possibilidades criativas por chamar atenção para um ou outro ponto dos textos a serem mais explorados. Luma faz uma declaração de amor nada convencional para Fernanda. 

“Eu não conseguiria sem ela, acho que rola isso. Não consigo pensar uma relação amorosa sem esse nível de mistura, de mistureba, uma miscelânea entre as fraldas do Francisco com a análise sociológica da Peppa Pig. É uma coisa muito louca.”

Mais na Quatro Cinco Um

Colaboradora da revista dos livros, Fernanda Bastos escreveu em novembro de 2025 sobre Apolinária (Todavia), romance de estreia de Bianca Santana. “Felizmente para os leitores, a escritora tem se despido da vaidade para relatar nos textos a busca pela própria identidade”, diz. “Na nova incursão, agora pelo romance, ela mantém o diálogo com a escrita da própria vida, sem se perder em discussões improdutivas sobre as barreiras do real e do ficcional.” Leia a resenha na íntegra.

No mesmo ano, Bastos também resenhou A contagem dos sonhos (Companhia das Letras), retorno da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie ao romance depois de um hiato de uma década. “Desde sua estreia a autora reitera, livro após livro, o diálogo com os problemas políticos do mundo contemporâneo”, escreve Bastos. Leia o texto completo.

Luiz Mauricio Azevedo também já esteve nas páginas da Quatro Cinco Um. Em janeiro deste ano, ele resenhou Morramos ao menos no porto, do escritor português Francisco Mota Saraiva. 

“Este é um romance feito para um tipo específico de leitor: aquele disposto a enfrentar a si mesmo nos enganos do self. Trata-se de uma literatura sem compromisso com as grandes audiências”, escreveu. “A corrosividade do protagonista nasce de um casamento de quase trinta anos, uma trajetória que — subtraídas a enfermidade e a viuvez — faz a união conjugal parecer um passo em falso em direção ao abismo de nós mesmos.” Leia na íntegra.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio ainda traz uma dica do escritor gaúcho José Falero, autor do livro de contos Vila Sapo e do romance Vera, ambos publicados pela Todavia. Ele esteve no 179º episódio do 451 MHz, que foi ao ar em janeiro, e aprofundou o debate sobre o que é literatura, que recentemente movimentou a cena literária brasileira. Aqui, Falero recomenda a coletânea de contos Sobre o fundo azul da infância, de Tônio Caetano, publicado em 2024 pela Editora de Cultura.

“É um livro muito bacana, muito sensível, que narra as memórias de um menino na periferia de Porto Alegre dos anos 90, a descoberta da sexualidade, enfim, é um livro incrível, realmente muito sensível e que eu recomendo demais”, diz.

Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]