Encontro de Leituras,
Quem sai aos seus se degenera
Morramos ao menos no porto é um romance corajoso, que não se rende às esquematizações e vai além do pensamento limitante de certas militâncias
26jan2026 • Atualizado em: 02fev2026 | Edição #102Às vezes é difícil para um crítico literário aceitar as implicações lógicas de um conceito sem querer pular do barco quando o pensamento ameaça entregar sua fatura. Por isso, grande parte da crítica contemporânea é feita de uma colcha de retalhos importados: um pouquinho de proteína europeia aqui (Bourdieu, Caldwell, Benjamin, Foucault, Eagleton, Baudrillard e Adorno), algum carboidrato norte-americano ali (Buck-Morss, Gates, Bloom, Culler, Jameson) e uma pitada mínima de tempero africano acolá (Soyinka, Diop, Achebe).
A crítica literária é um instrumento de risco, com duas lâminas expostas: o racismo nosso de cada dia e o viralatismo disfarçado de humildade teórica. Por isso, é sempre arriscado abordar uma obra produzida em um território onde somos notas de rodapé. Os recortes do crítico podem rapidamente se tornar meras mutilações de objetos íntegros. O risco aumenta com obras vindas de nossa antiga metrópole: se boas, confirmarão nossa melancólica inferioridade; se ruins, ratificarão a impotência de nossas aspirações decoloniais frente a séculos de tradição estética. Considerando, contudo, não haver nada correto no mundo que não seja fácil, cá estamos, com Francisco Mota Saraiva, autor do instigante Morramos ao menos no porto.
A sintaxe do autor se aproveita da forma poética, indo além das fronteiras do pensamento militante construído para fingir que a ideologia é um véu que só se fabrica em vermelho. Desestabilizando o leitor, o romance impõe um rumo e uma ética: deixa a sensação de que o autor supera rápido as esquematizações das oficinas literárias, e sugere que talvez precisemos de mais tempo, mais cera e mais algodão para nos proteger das bobagens que as sereias de mares diversos insistem em soprar em nossos ouvidos de heróis da própria trajetória de regresso a nós mesmos.
Difícil aceitar que a literatura sugere muitas saídas sem garantir o acesso a nenhuma delas
No romance, a recusa do protagonista em aceitar a morte da mulher é, na verdade, a recusa dos leitores em aceitar a morte do tecido literário, em um exercício diário que obriga a todos nós (que dependemos dos outros para a invenção de novas formas de nomear nosso mundo) um gesto de luto frente a um mundo incapaz de celebrar qualquer linguagem que não seja objetiva, fática, instrumental.
Quem apodrece não é quem cuida dos mortos, mas quem, entre mortos, não percebe mais pelo que se morre. Trata-se aqui de uma morte metafórica, oriunda do comportamento putrefato de moradores de um prédio, que, alegoricamente, são poderosas entidades arquetípicas de um Portugal onde as raízes (ainda que apodrecidas) dos habitantes mais renitentes às mudanças resultam em um macabro teatro que cancela o futuro e envenena o presente.
Este é um romance feito para um tipo específico de leitor: aquele disposto a enfrentar a si mesmo nos enganos do self. Trata-se de uma literatura sem compromisso com as grandes audiências. A corrosividade do protagonista nasce de um casamento de quase trinta anos, uma trajetória que — subtraídas a enfermidade e a viuvez — faz a união conjugal parecer um passo em falso em direção ao abismo de nós mesmos.
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Difícil entender que tipo de passo demos (os melhores de nós) para merecer o conforto vagamente consolador de escolher a quem devemos dizer adeus; mais difícil é aceitar que a literatura sugere muitas saídas sem garantir o acesso a nenhuma delas. Em Morramos ao menos no porto, o único que nos assiste morrer é o espelho. E isso — quem diria? — é bem mais que a maioria de nós merece.
Lusitano universal
Nascido em Coimbra, em 1988, o autor continua vivendo em Portugal. Mestre em direito e gestão pela Nova School of Business and Economics, venceu os prêmios Saramago e Agustina Bessa-Luís. São predicativos importantes para um público que se acostumou a considerar a biografia dos autores (e não sua obra) bons motivos para a leitura. Mas Saraiva parece cuspir no rosto daqueles que pretendem esquecer sua literatura no arquivo morto da contemporaneidade. Obras ganhadoras de prêmios literários costumam flertar com as tendências de uma atualidade em brasa. Não é o caso aqui.
Morramos ao menos no porto é reservada, cerebral e novelística. Uma história que só se completa mediante uma rede com muitos nós. Um empreendimento corajoso que não teme as derrapagens de quem acelera onde recomendariam calmaria e lentidão. Este livro se insere na safra de bons escritores portugueses, como Gonçalo Tavares, Afonso Cruz, José Luís Peixoto, embora seu texto seja de um terroir diferente.
Em tempos de identitarismo agudo disfarçado de crítica ao discurso das identidades alheias, a obra é um bom exemplar da literatura lusitana — tão portuguesa quanto os vinhos do Douro, o fado, os bons azeites ou as capas negras de Coimbra, porque foi, afinal, escrito por um português em cujos hábitos textuais se pode facilmente reconhecer Saramago, Antunes e Queiroz, mas também um pouco de Dickens, já que o mundo de quem escreve bem é imenso. E é também um ensaio universalista tão instigante quanto qualquer peça que sustente o pensamento filosófico moderno.
Beijando a lona
Em 1995, o boxeador americano Peter McNeeley enfrentou Mike Tyson. Já nos primeiros minutos da luta, McNeeley foi atingido por Tyson em sequências que o levaram ao chão duas vezes. Seu empresário jogou a toalha, gesto clássico para interromper a luta. McNeeley foi desclassificado, mas fez seu papel e saiu vivo para contar a história. Considerando a fama e a técnica de Tyson, sua função não era derrubá-lo; era apenas ficar em pé diante dele e provar, com seu corpo, que o boxeador continuava apto a boxear.
A função do crítico é parecida: sair vivo dos livros para que nossa sobrevivência precária confirme o brilho dos textos alheios. Sou mesmo o Peter McNeeley da crítica literária: jogue a toalha para mim, mas comemore a boa forma de Saraiva. É ele quem está financiando a literatura autônoma que você diz procurar gemendo. Tudo a contento, o crítico deve sumir. Quando o crítico aparece mais do que a obra, é porque ela é ruim. Fiquei invisível ao ler Saraiva. Como convém a um crítico, quando recebe de graça, pela manhã, o que costuma perder o dia para encontrar.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Quem sai aos seus se degenera”
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