Cadão Volpato, Ana Kiffer e Ana Cristina Braga Martes (Nilton Fukuda)

Repertório 451 MHz,

Escrever a ditadura

Ana Kiffer, Ana Cristina Braga Martes e Cadão Volpato, autores de livros que retratam o regime militar no Brasil, falam sobre escrever o que foi silenciado

21nov2025 • Atualizado em: 31mar2026

Está no ar o 173º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. O programa recebe Ana Kiffer, Ana Cristina Braga Martes e Cadão Volpato, autores de livros que retratam, cada um a seu modo, a experiência da ditadura militar no Brasil — período histórico marcado por silêncios e censura. Os escritores falam sobre abordar o que foi sufocado, seja em âmbito público — na política e nas universidades — ou privado — nas famílias e nas relações.

Nesta conversa com o jornalista Eugênio Bucci, que aconteceu em 19 de junho, durante A Feira do Livro 2025, os escritores comentam a brutalidade daqueles anos, como o impacto sobre as mulheres e a tensão nas famílias, bem como a subversão criativa das normas por parte do movimento estudantil. Devido aos 40 anos da redemocratização, comemorados neste ano, a reflexão se estende à missão da cultura na resistência às ameaças de retrocesso. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

No encontro, Eugênio Bucci observa que No muro da nossa casa (Bazar do Tempo, 2024), de Ana Kiffer, Sobre o que não falamos (Editora 34, 2023), de Ana Cristina Braga Martes, e Abaixo a vida dura (Faria e Silva, 2024), de Cadão Volpato, se referem a esta questão: “a impossibilidade de dizer e uma espécie de luta para reconquistar a língua, a palavra, o enunciado”.

Professora de Literatura na PUC-Rio, Ana Kiffer afirma que essa ambiguidade se faz sentir na narrativa do livro: “Essa língua, que por um lado nos tortura, ao mesmo tempo é com ela que a gente pode se emancipar”. Em No muro da nossa casa, a trama parte de um episódio vivido pela família da autora. Seu pai, um deputado no segundo mandato, é cassado e está desaparecido. Em uma manhã, sua mãe, grávida da autora e com dois filhos pequenos, se depara com o muro de sua casa pichado em letras vermelhas: “Aqui mora um bandido comunista”.

O evento permaneceu encoberto na família por muito tempo, como outras faces de uma experiência de prisão, tortura e medo. No livro, Kiffer constrói um diálogo entre mãe e filha acerca da busca dolorosa pelos fatos e contra o silêncio, que, em suas palavras, é uma personagem da história. “Entendi por muito tempo que minha vida era proibida. Depois, que a palavra podia matar. E que era melhor deixá-la viver morta em mim, como me ensinava o seu silêncio”, diz um trecho lido pela autora. 

A atmosfera do tempo

Os segredos também são o fio condutor de Sobre o que não falamos. O romance de Ana Cristina Braga Martes tem como protagonista uma pré-adolescente que não conhece os pais. Criada pelos avós, ela vive, durante os anos da ditadura, numa vila de trabalhadores e pequenos comerciantes de uma cidade pequena. “Querendo entender a sua vida, onde estavam os seus pais, ela vai atrás da história deles e descobre a história da vila e a história que, na verdade, era a história do Brasil”, sintetiza a escritora e socióloga. 

A injustiça, a herança da ditadura, a violência contra mulheres e as desigualdades de raça e gênero constitutem o cenário retratado por Braga Martes. Uma das descobertas da jovem é a da identidade racial. “Tratar desse tema no livro foi um jeito que eu arrumei de deixar vir à tona essa disputa pelas denominações que a gente tem com relação às questões raciais. Toda essa questão da miscigenação é muito bem documentada na história do Brasil, mas eu queria falar de como uma menina que sempre se viu como branca reage à notícia de que ela tinha um pai negro”, disse a autora.

Ana Kiffer, Ana Cristina Braga Martes, Cadão Volpato e Eugênio Bucci na mesa “Sobre o que não falamos” n’A Feira do Livro 2025 (Nilton Fukuda)

Um dos desafios ao escrever sobre a ditadura foi, na visão de Braga Martes, criar a atmosfera da época: “O clima, a tensão, não só pela descrição de um cenário que se monta objetivamente, mas de um cenário que traz um monte de sentimentos e de simbologias”. Essa atmosfera também está em Abaixo a vida dura, que reconstrói o ambiente do movimento estudantil na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) nos anos 70. Volpato parte de sua experiência como militante da Liberdade e Luta (Libelu), organização de oposição ao regime militar, para traçar um retrato ficcional dos colegas e de episódios marcantes da resistência universitária.

“A USP estava forrada de dedos duros de tudo quanto é espécie. Era muito sombrio e era muito asfixiante”, descreve o autor. Com violência, assembleias eram proibidas e manifestações, sufocadas. À repressão os estudantes respondiam com estratégias ousadas: “A gente se espalhou pela cidade em passeatas-relâmpago, que explodiam em determinados cantos com quarenta, cinquenta pessoas. Quando a tropa de choque vinha reprimir, já tinha se dispersado. Aí estourava outra logo ali. Tinha uma certa picardia”, explica.  

Resistência na atualidade

A história que deu origem ao livro de Kiffer chegou ao seu conhecimento em 2018, quando episódios similares, de inscrições em muros, se repetiam e eram notícia em todo o país. “Eu acho que o Brasil carrega inúmeras brutalidades que ainda não foram elaboradas”, diz a escritora, coautora, junto a Gabriel Giorgi, de Ódios políticos e política do ódio (2019). 

Para Braga Martes, os escritores têm a missão de dizer aquilo que não se fala. Ela estende a reflexão ao que considera formas atualizadas de censura, como o “cancelamento” em redes sociais: “A gente tinha essa bandeira [da liberdade de expressão] muito alta, a gente levantava, erguia. Como é que a gente pode deixar agora na mão de pessoas que não têm nenhum compromisso com essa bandeira?”, questiona.

Cadão Volpato observa que a cultura tem papel crucial na luta pela democracia: “Não é só uma obrigação. A única coisa que a gente pode fazer, na verdade, é fazer livro, fazer coisa incisiva. Porque esses caras não aguentam. Eles mal sabem ler. O que eles querem é destruição”, disse.

Livros do episódio

Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:

  • O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro (Global, 2015)
  • Mestiço é que é bom, de Darcy Ribeiro (Revan, 1997)
  • No Urubuquaquá, no Pinhém, de João Guimarães Rosa (Nova Fronteira, 2017) 
  • Aula, de Roland Barthes (Cultrix, 2017)
  • Ódios políticos e política do ódio, de Ana Kiffer e Gabriel Giorgi (Bazar do Tempo, 2019)
  • É isto um homem?, de Primo Levi (Rocco, 2013)

Mais na Quatro Cinco Um

Os três livros discutidos neste episódio foram tema de textos na Quatro Cinco Um. No muro da nossa casa, de Ana Kiffer, teve um trecho publicado no site da revista dos livros. “O que nunca ouvi nem vi me assombra. O que você nunca me disse também. Escrever se tornou o ar que respiro pela falta de palavras, escrever é respirar”. Leia na íntegra.

Sobre o que não falamos, de Ana Cristina Braga Martes, e Abaixo a vida dura, de Cadão Volpato, foram resenhados por Eugênio Bucci. O romance da escritora e socióloga é, para o jornalista, “um acontecimento literário”. “Com um pano de fundo político difícil, doloroso, nada cede ao panfletário”, escreveu. Leia na íntegra.

Na resenha de Abaixo a vida dura, publicada na Edição 84, Bucci escreve: “Agora romancista, o velho cartazista do movimento estudantil desenha seus tipos como gatos azuis e de outras cores. Delicadeza sem exagero”. Leia na íntegra.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz ainda uma dica literária da socióloga Mariana Amaral, pesquisadora do Laut (Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo) e coautora de A lei da bala, do boi e da Bíblia (Tinta-da-China Brasil, 2024).

Ela indica O segredo da força sobre-humana, HQ de Alison Bechdel, publicado em 2023 pela editora Todavia com tradução de Carol Bensimon.

Na graphic novel, a autora de Fun home (2018) e O essencial de poderosas sapatas (2021) narra sua história de fascínio pelos exercícios físicos ao longo de diversas fases da vida, inclusive com as limitações que chegaram aos sessenta anos.

“Além de ser muito encorajador para a gente sair de casa, se mexer, fazer coisas, pensar sobre o corpo, foi uma super-referência para mim sobre como envelhecer enquanto uma mulher lésbica”, conta Mariana.

Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]

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