O escritor húngaro László Krasznahorkai (Franco Origlia/Getty Images)

Literatura,

Um Nobel consistente

Prêmio para o húngaro László Krasznahorkai reflete comprometimento do escritor com seu universo narrativo peculiar

10out2025 • Atualizado em: 01jan2026 | Edição #101

Apesar da surpresa de muitos, um Nobel de Literatura não surge da noite para o dia. O húngaro László Krasznahorkai, o mais recente laureado, vinha sendo cotado há anos para receber a honraria. Esse reconhecimento reflete o comprometimento do autor com a construção do seu universo narrativo singular — e peculiar. 

Suas criações podem ser refratadas em uma série de elementos complementares: um estilo denso, feito de longas frases; um ambiente frequentemente opressivo, com personagens cínicos, invejosos e vingativos; a referência constante aos estados patológicos do corpo e da mente; a permanente sensação de que suas histórias são, de forma latente, alegorias políticas, sutis reflexões sobre a tensão entre autoritarismo e liberdade.

Nascido em 1954 na cidade de Gyula — leste da Hungria, na fronteira com a Romênia —, Krasznahorkai estudou latim, direito e literatura, realizando uma tese sobre Sándor Márai. No percurso, trabalhou no mercado editorial em Budapeste e publicou, em 1985, seu primeiro romance, Sátántangó, acolhido com entusiasmo imediato por críticos e leitores — recepção significativa também do ponto de vista político, sintomática de um descontentamento difundido na população. 

Desde a primeira obra, Krasznahorkai instaura seu cenário típico: uma cidade depauperada do interior da Hungria; um grupo de personagens excêntricos, envolvidos em esquemas pouco lógicos, eivados de superstição e malícia. O segundo romance do autor, Az ellenállás melankóliája (A melancolia da resistência, 1989, inédito no Brasil), retoma esse ambiente, mas com um aprofundamento temático digno de nota: uma trupe circense chega a uma cidade do interior oferecendo apenas uma atração: uma baleia embalsamada, tida como a maior do mundo, exposta dentro de um vagão.

A primeira fase de Krasznahorkai é evidentemente marcada pela presença da Hungria no bloco soviético, que inicia a transição democrática em 1989 — o fim da ocupação soviética acontece em 1991, com a retirada das tropas da URSS do território húngaro. A baleia do romance pode ser lida como uma alegoria desse poder externo já moribundo; já o caráter confuso e atabalhoado dos personagens, como uma alegoria geral da condição da Hungria, nação historicamente limítrofe e geograficamente cindida pelo curso do rio Danúbio.

Nesse sentido, Krasznahorkai faz parte de uma linhagem de artistas que lidam, por um lado, com a herança do esfacelamento do Império Austro-Húngaro — presente em obras como as de Joseph Roth e Franz Kafka — e, por outro, com a disseminação das tensões inerentes a esse processo no Leste Europeu (tema forte de outros laureados do Nobel, como Svetlana Aleksiévitch, Herta Müller e Joseph Brodsky). 

Rompimento

Essa cristalização inicial de temas e procedimentos é logo rompida por Krasznahorkai a partir de uma série de viagens pela Ásia, em um movimento de distanciamento de um mundo que, de resto, já estava em vias de dissolução. A partir dos anos 90, ele começa a viajar pelo Oriente em busca de inspiração, novos ares e novas visões de mundo. Começa pela Mongólia e pela China, reunindo relatos e experiências que serão fundamentais para uma transformação em sua obra. 

Nessa época, ele inaugura um segundo eixo de atuação. Os relatos Az urgai fogoly (O prisioneiro de Urga, 1992) e Rombolás és bánat az Ég alatt (Destruição e tristeza sob o céu, 2004), ambos inéditos em português, não se coadunam, de imediato, com a faceta mais conhecida do trabalho de Krasznahorkai, precisamente aquela exaltada pelo comitê do Nobel em seu anúncio, o “terror apocalíptico” com que o húngaro “reafirma o poder da arte”. 

No último romance mencionado acima, por exemplo, Krasznahorkai apresenta um narrador que funciona como um alter ego, László Stein, envolvido em uma investigação que é tanto ficcional quanto ensaístico-jornalística. Sua narrativa é uma viagem pela China em busca daquilo que permanece “autêntico” e também daquilo que já não existe mais. 

Essa deriva na trajetória de Krasznahorkai — que atesta sua curiosidade como artista e sua resolução de não permanecer ancorado no modus operandi que lhe deu fama e, por fim, o Nobel de Literatura — segue ativa. 

Nos anos 2000, ele publicou obras como Északról hegy, Délről tó, Nyugatról utak, Keletről folyó (Montanha do norte, lago do sul, estradas do oeste, rio do leste, 2003) e Seiobo járt odalent (Seiobo estava lá embaixo, 2008) — Seiobo é uma deusa da tradição japonesa. Na última, uma acessível narrativa episódica sobre artistas fictícios e históricos de diferentes épocas e lugares, Krasznahorkai promove uma articulação dinâmica de referenciais orientais e ocidentais, resgatando pinturas do italiano Filippino Lippi que têm como tema uma rainha persa, um templo budista em fase de restauro, documentos da época de ouro islâmica encontrados na Espanha, uma viagem à Acrópole de Atenas, entre outros elementos.

Vem aí

Os livros de Krasznahorkai previstos para o mercado editorial brasileiro — O retorno do Barão Wenckheim, de 2016, e Herscht 07769, de 2021, ambos anunciados pela Companhia das Letras — reiteram a vertente mais conhecida de sua produção. Por consequência, são ótimos exemplos da vastidão de seu universo peculiar, bem como da força de sua imaginação e sua capacidade de trabalho. 

Sobre O retorno do Barão Wenckheim, que deve sair no início de 2026, Krasznahorkai declarou, em entrevista para a revista literária The Paris Review, que se trata de uma espécie de encerramento de um longo livro: ou seja, como se todos seus romances até esse fossem desdobramentos contingentes de uma mesma história. Com isso voltamos à consistência artística de Krasznahorkai, substrato decisivo para sua consolidação como escritor e que, embora não explique todas as premiações do Nobel de Literatura, certamente ajuda a explicar, e apreciar, a sua.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026.

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