Repertório 451 MHz,

Direto do Xingu

Yamaluí Kuikuro Mehinaku fala sobre o livro que escreveu para contar a história de seu avô Nahũ, figura fundamental na história do parque indígena

19set2025

Está no ar o 164º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o escritor e pesquisador Yamaluí Kuikuro Mehinaku conversa com a escritora Rita Carelli sobre Dono das palavras: a história do meu avô (Todavia, 2024), obra bilíngue — em português e em kuikuro — em que narra a trajetória de Nahũ Kuikuro, avô do autor e líder fundamental para a criação do Parque Indígena do Xingu.

O encontro foi gravado durante A Feira do Livro 2025, em junho, e traz reflexões de Yamaluí sobre memória, direito aos territórios indígenas e a importância de os próprios povos originários contarem suas histórias. “Eu esperei muito o branco contar a história dele [Nahũ], só que ninguém contou”, diz o autor. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Nascido e criado no Xingu, onde vive até hoje, Yamaluí aprimorou seu domínio do português colaborando com pesquisas linguísticas e antropológicas. Nahũ, seu avô, que morreu aos 104 anos em 2024, teve papel de destaque na criação do Parque Indígena do Xingu em 1961. 

“Meu avô cresceu com o povo da etnia bakairi”, conta no episódio, lembrando que a região onde Nahũ vivia, no Alto Xingu, foi onde se deram os primeiros contatos do seu povo com indigenistas brancos, como os irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas. “Foi lá que ele começou a aprender português. Quando os Villas-Bôas chegaram, na década de 1940, ele já tinha aprendido a falar português.”

Invisibilidade

O escritor diz que a ideia de escrever a biografia surgiu depois de uma frustração: viu o avô retratado de forma quase invisível no filme Xingu (2011), de Cao Hamburger: “Vi ele aparecer só no finalzinho, por vinte segundos. Saí do filme triste. As pessoas que lutaram com meu avô não foram homenageadas”, critica.

A empreitada biográfica, entretanto, não foi simples. “Tive muita dificuldade financeira. Nessa época eu era beneficiário do Bolsa Família, ganhava 150 reais por mês. Para chegar até a aldeia bakairi custava seiscentos reais. Juntei o dinheiro e fui fazer pesquisa”, lembra. Foi então que ouviu relatos de anciãos e outros familiares do avô, que ajudaram a compor um panorama mais amplo da vida de Nahũ.

Novas gerações

Na conversa, Yamaluí diz que vê no livro um chamado para as novas gerações indígenas e para a sociedade brasileira como um todo. “Estou tentando mostrar para os mais novos que precisam valorizar o nosso território, porque eles [seus ancestrais indígenas] lutaram por nós e agora nós temos que manter”, afirma o autor. 

“O índio precisa que os brancos ouçam a nossa história, respeitem o nosso território, nossos rios. O mato está acabando, o rio está secando. O branco precisa aprender com a gente,” diz.

O escritor e pesquisador Yamaluí Kuikuro Mehinaku e a escritora Rita Carelli (A Feira do Livro/Nilton Fukuda)

Segundo ele, escrever sobre Nahũ foi também uma forma de ter de novo seu avô presente. “A gente morava numa casa todos juntos, minha rede ficava em cima da dele e todo dia ele me contava histórias”, lembra. 

“Aprendi muito com ele, o conhecimento que ele tinha, ele passou tudo para mim. E agora, com esse livro, meu avô voltou”, afirma. “Isso aqui não é papel para mim, esse aqui é meu avô”, diz sobre a biografia. 

Livros do episódio

Veja abaixo os livros e outras referências que aparecem nesta edição do 451 MHz:

  • Dono das palavras: a história do meu avô, de Yamaluí Kuikuro Mehinaku (Todavia, 2024)

  • Memórias do cacique, de Raoni Mẽtyktire (Companhia das Letras, 2025)

  • Xingu (2011), longa-metragem de Cao Hamburger

  • Sukande Kasáká / Terra doente (2025), curta-metragem de Kamikia Khisêtjê e Fred Rahal

Mais na Quatro Cinco Um

Dono das palavras: a história do meu avô foi resenhado pelo antropólogo Antonio Guerreiro na edição #97 da Quatro Cinco Um. “O livro oferece uma perspectiva indígena única sobre esses encontros [entre indígenas e não indígenas] e as dinâmicas de poder e negociação em torno deles — e, o que é fundamental, recoloca a política tradicional xinguana no centro da narrativa histórica”, aponta Guerreiro. Leia na íntegra aqui.

O texto faz parte do especial “Vozes da floresta”, que traz ainda uma resenha da biografia de cacique Raoni, por Aparecida Vilaça; um texto sobre as relações entre humanos e animais no povo wari’, por Ana Cristina Braga Martes; além de um ensaio sobre o livro póstumo do jornallista Dom Phillips, por Otavio Haddad Cury.

O melhor da literatura LGBTQIA+

Este episódio do 451 MHZ traz ainda uma dica literária da escritora Cidinha da Silva. Ela lançou recentemente o livro Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior (Rosa dos Tempos), em que reúne 81 lições de vida e formação política que aprendeu com a filósofa Sueli Carneiro ao longo de quase quatro décadas de convivência.

No programa, Cidinha da Silva indica Água de maré, da Tatiana Nascimento, publicado em 2025 pela editora Pallas. “É um texto muito bonito, muito instigante, que tira a gente do chão, não deixa a gente confortável na leitura”, recomenda.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Para falar com a equipe: [email protected]