Dom Phillips entrevista moradores da aldeia de Tiracambu (MA), em 2015 (Bonnie Jo Mount/The Washington Post/Getty Images)

Amazônia, Meio ambiente,

Viagem ao fim da floresta

Livro póstumo de Dom Phillips entrelaça a busca por respostas para preservar a Amazônia e o panorama assustador da sua destruição

15jul2025 • Atualizado em: 19ago2025 | Edição #97

Dom Phillips tinha se lançado a uma empreitada de vulto. Conseguiu uma bolsa da Fundação Alicia Patterson, organização norte-americana de apoio ao jornalismo independente, e começou a escrever um livro para aproximar a Amazônia dos não amazônidas. Com linguagem direta, na interseção de jornalismo investigativo, ensaio e relato de viagem, ele queria decifrar os desafios da maior floresta tropical do mundo e ajudar a salvá-la da destruição.

O indigenista Bruno Pereira fazia um trabalho inovador de monitoramento de pesca ilegal e invasões de territórios indígenas, junto à União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, a Univaja. Dom estava com ele na manhã de 5 de junho de 2022 porque a história de Bruno teria lugar no livro, que àquela altura tinha o título provisório de Como salvar a Amazônia: perguntem a quem sabe. Bruno era um dos que sabiam.

Bruno Pereira durante expedição no Vale do Javari (Gary Calton)

Em Como salvar a Amazônia: uma busca mortal por respostas, uma fotografia na página 186 mostra duas cruzes fincadas na margem do rio Itaquaí, onde Dom e Bruno foram assassinados. A imagem no meio do livro marca um antes e um depois. Antes dela estão os quatro capítulos que Dom completou. Depois dela, os seis capítulos escritos por seus amigos jornalistas, que se mobilizaram para completar o livro e não deixar que sua voz fosse silenciada. O prefácio, escrito pelo grupo, avisa ao leitor que as páginas seguintes estão “manchadas de sangue”.

Dom procurava pessoas que estavam encontrando soluções, mas percebia a ameaça à espreita

Na primeira metade, a presença de Dom como narrador lembra a todo o tempo o porquê de sua ausência. Na segunda, o objetivo dos escritores foi seguir os planos de Dom da maneira mais fiel possível, decifrando as anotações que deixou para cada tema e estabelecendo um diálogo com ele, o que inclui sua vontade de escutar os indígenas — em alguns casos, os jornalistas viajaram para encontrar personagens que tinham sido entrevistados por Dom antes de sua morte. Como salvar a Amazônia é, assim, um livro partido ao meio.

Espelho da floresta

Italo Calvino criou o personagem de um visconde partido ao meio depois de ser atingido por um raio. Duas metades passam a vagar por aí, uma boa e uma má. A alegoria do escritor italiano parece espelhar a dualidade da floresta em que Dom e Bruno foram assassinados. “Amazônia, sua linda”, último post de Dom em uma rede social, contrasta com a anotação do jornalista de que “a Amazônia hoje é tão perigosa quanto na época de Chico Mendes”. Dom procura pessoas que estão encontrando soluções, mas percebe a ameaça à espreita — como quando esteve sob fogo cruzado em Manaus ou quando visitou o santuário de Dorothy Stang, em Anapu, no Pará, e viu uma cruz com nomes de dezenove pessoas mortas em conflitos de terra desde 2015. Ele sabia dos riscos que corria como jornalista e seguia procurando respostas. Ou, pelo menos, as perguntas certas.

Dom não era um idealista. Seu ideal, se existia, era fazer bom jornalismo. Para escutar todos os lados tinha que estar na linha de frente, onde os conflitos acontecem. A constatação óbvia, que permeia a pesquisa do jornalista, é que num território em que o Estado falta “não é preciso procurar muito para encontrar pessoas infringindo a lei”. Pichações com iniciais de facções criminosas podem ser vistas em muitas cidades amazônicas.

Dom Phillips entrevista a líder macuxi Mariana Tobias na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em 2018 (Nicoló Lanfranchi/Divulgação)

Conheci Dom quando ele era um jornalista que escrevia sobre a cultura da música eletrônica. Era o editor-chefe da Mixmag, icônica revista inglesa que influenciou uma legião de leitores nos anos 90. Ele veio de Londres cobrir a cena da noite paulistana e foi rapidamente fazendo amigos. Fomos juntos em sua primeira viagem à Amazônia, em 2004, ainda como turista. Três anos mais tarde, decidiu morar em São Paulo. Em 2012, já fluente em português, mudou para o Rio, onde conheceu Alessandra, que viria a ser sua esposa, e passou a cobrir pautas na Amazônia para jornais estrangeiros. Em 2018, conheceu Bruno Pereira em uma viagem pela Terra Indígena Vale do Javari, que fez para o jornal inglês The Guardian. “Onde eu enxergava lama e árvores […], para eles essa floresta era tanto fonte de alimento e de sustento como objeto de respeito e reverência.”

O impacto dessa experiência, que definiu como “profunda”, junto com sua previsão das consequências que o bolsonarismo teria sobre a Amazônia, foram as sementes para o livro, cujo prefácio diz:

Esperamos que o que se perde na clareza de uma única voz seja compensado pela diversidade de perspectivas e estilos. Os escritores podem ter opiniões diferentes mas estão empenhados em que o trabalho de Dom seja concluído e sobreviva muito tempo depois da sua morte.

Cruzes no local onde Dom e Bruno Pereira foram mortos no Vale do Javari (AM) (Alvaro Canovas/Paris Match/Getty Images)

Eliane Brum, Tom Phillips, Stuart Grudgings, Andrew Fishman, Jon Lee Anderson e Jonathan Watts completaram o livro. Jornalistas que cobrem meio ambiente para publicações como The New Yorker, The Guardian, The Intercept e Sumaúma. Um posfácio é assinado pelo líder indígena Beto Marubo e a antropóloga Helena Palmquist.

Livro-resposta

Além de pesquisar no Amazonas, Roraima, Pará, Maranhão e Acre, Dom foi à Costa Rica ver trabalhos bem-sucedidos na geração de renda em troca de preservação da biodiversidade. Os exemplos são muitos e diversos, compondo uma obra polifônica de referência para que o Brasil possa superar os bordões equivocados da ditadura sobre a Amazônia — que haveria muita terra para pouca gente, que a floresta seria um inferno verde a ser domesticado. Slogans que ainda nos assombram, especialmente depois de terem sido retomados por Bolsonaro. O livro é também uma resposta à violência de Estado que nomeou um ministro do Meio Ambiente que nunca tinha pisado na Amazônia. Foram os discursos de impunidade que vitimaram Bruno e Dom.

O leitor chega ao final com a sensação de que empreendeu uma grande viagem, olhando por uma janela que apresenta uma imagem, novamente, partida. Por um lado, há um repertório de soluções, muitas delas criativas, coletadas por Dom em suas andanças e entrevistas, como pecuaristas preservando a floresta porque entendem que isso faz sentido em termos econômicos, ou exemplos de agrofloresta, bioeconomia, reflorestamento e cooperativismo. Por outro, um panorama assustador dos ciclos de destruição que operam diariamente na floresta, e que o autor descreve com didatismo: invasão de terras, desmatamento, incêndios, grilagem, assassinos de aluguel, garimpo ilegal, para nomear alguns. Dom leva os leitores pela mão. Parece atravessar um território em guerra, de um país contra si mesmo.

Dom numa rede na Terra Indígena Yanomami, em 2019 (João Laet)

Como salvar a Amazônia chega em hora oportuna. Com Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente, o Brasil conseguiu diminuir o desmatamento e está prestes a receber a COP 30, em Belém — em meio a autorizações controversas que podem resultar na exploração de petróleo na Margem Equatorial. Se tomarmos Belo Monte como exemplo, diz o livro, grandes projetos de infraestrutura seguirão transformando povos da floresta em pobres urbanos. Dom esteve em Altamira, e uma anotação sua para o capítulo concluído por Eliane Brum diz que “Belo Monte é um cemitério de árvores, cujos troncos servem como suas próprias lápides”.

Raízes claras

O livro é ainda o relato de um estrangeiro que vê com clareza as contradições brasileiras, e faz lembrar o ensaio “Hello, Brasil!”, de 1991, do psicanalista ítalo-brasileiro Contardo Calligaris, que apresenta a tese de um país de raiz escravocrata dominado por colonos que deixaram seu país de origem e não encontram autoridade no novo território. O próprio nome, Brasil, caso único, vem de um produto de exploração econômica desenfreada, uma árvore. O Estado é ausente, colonos saqueiam, a floresta tomba, concordaria o britânico Dom, que achava que o país deveria olhar para o potencial da Amazônia e foi atrás de pessoas que, como Bruno, queriam mudar as coisas.

O próprio nome do Brasil vem de um produto de exploração econômica desenfreada, uma árvore

Para os que levaram seu livro a cabo, não restou alternativa senão mudar o subtítulo: uma busca mortal por respostas. Em junho, na mesa promovida n’A Feira do Livro em homenagem a Dom Phillips, o jornalista Tom Phillips, correspondente do Guardian para a América Latina e autor de um dos capítulos deixados incompletos por Dom, revelou que na sua mais recente ida ao Vale do Javari o líder indígena Beto Marubo, membro da coordenação da Univaja, lhe disse que a situação piorou desde 2022. “Se Bruno e Dom voltassem ao Javari hoje, seriam novamente mortos”.

No mesmo mês, o Ministério Público Federal denunciou o peruano Rubens Avellar, conhecido como “Colômbia”, como o mandante do assassinato de Bruno e Dom. No total, nove pessoas foram indiciadas. Ainda não há data para o julgamento.

Quem escreveu esse texto

Otavio Haddad Cury

Cineasta, dirigiu o curta-metragem Onde a floresta acaba (2023), em homenagem a Dom Phillips.

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025.