Literatura,
Byron e a tradução insubmissa
Brasileirismos dão sabor contemporâneo às versões em português do grande poeta romântico duzentos anos depois
17set2025 • Atualizado em: 01jan2026 | Edição #101Quem lê uma obra traduzida, seja apenas um poema ou um livro de muitas páginas, deve sempre se dar conta de que nunca estará lendo o que o autor escreveu. Nesse caso, para todos os efeitos, é entre o leitor e o tradutor que se estabelece o diálogo no qual consiste a leitura. Agora, os signos da língua de partida não entram mais em questão. O texto na língua de chegada é que passa a ser na prática, para quem o vai assimilando, o verdadeiro original da obra.
As dificuldades impostas pela tradução de poesia, sempre imensas, tornam-se às vezes quase intransponíveis quando o problema é passar para outra língua textos de datação muito antiga e consequentemente sujeitos a esquemas inflexíveis de rima e métrica. Duas atitudes opostas têm se generalizado no enfrentamento dessa tarefa tão trabalhosa.
Por um lado, há tradutores que se apegam à ideia de fidelidade às reais intenções do autor, fazendo malabarismos para obter no texto recriado efeitos semelhantes ao do texto matriz que lhes serviu de modelo. Por outro, há os que preferem revigorar as criações do passado, mais atentos ao sentido do que à forma com que elas se apresentam na abordagem e injetando-lhes doses generosas de sua própria inventividade.
É a essa vertente da tradução insubmissa, a do segundo grupo, que André Vallias se vincula. Ao traduzir poemas de Lord Byron, que viveu entre 1788 e 1824, ele emprega um vasto rol de palavras do linguajar brasileiro contemporâneo, como sururu, fuzuê, desmilinguir, chilique, faniquito, mandinga, zunzunzum, banzé e esculacho, ou se vale de variadas expressões coloquiais de uso corrente entre nós, como bom pra dedéu, pedir penico, frio da peste e sina desgramada.
Ao traduzir poemas de Byron, André Vallias emprega um vasto rol de palavras, como sururu, fuzuê, faniquito
A coisa antiga de beleza, no Byron recém-lançado, não quis saber de se conformar com uma cópia. Retrabalhada duzentos anos depois, sofreu de fato uma restauração bem profunda, com a qual a pátina do tempo deu lugar à sedução do brilho novo.
Tal como fez nas duas ótimas e volumosas antologias de poesia alemã que organizou e publicou há mais tempo, a de Heinrich Heine (2011) e a de Bertolt Brecht (2019), Vallias, agora passando para a literatura inglesa, intercala com as suas traduções de poemas uma vasta e criteriosa seleta em prosa de materiais autobiográficos: páginas de diários, cartas na íntegra ou trechos de correspondência, fragmentos circunstanciais e anotações variadas. Dispostos esses conjuntos, nos três casos, sempre em ordem cronológica, o leitor pode assim tomar contato, numa operação simultânea, com a obra e a vida do poeta a quem o livro se consagra.
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“Interduções? Transduções?” Que nome novo aplicar, indaga Augusto de Campos, amigo e mestre de Vallias, aos produtos obtidos pela tradução insubmissa ou criativa de poesia? Augusto, que tem sido no Brasil um dos mais qualificados defensores da prática, faz essa indagação no final da introdução a Entreversos, livro de 2009 no qual apresenta as suas próprias traduções de Byron e Keats, poetas românticos que ele tinha desprezado no ardor da juventude, quando lutava para impor os pressupostos da poesia concreta, mas que passou a apreciar depois de mais velho e recriou em grande estilo.
Celebridade
Desde criança, Byron pensou em ser poeta e, numa anotação da adolescência, por volta dos quinze anos, expressou o veemente desejo de se tornar quando adulto uma celebridade. Seu desejo se realizou plenamente. “Nunca um poeta foi mais famoso do que Byron”, sintetizou Otto Maria Carpeaux, e as razões essenciais dessa fama que perdurou pelos tempos parecem mais associadas à originalidade do seu modo de ser do que ao valor estético da obra monumental que ele escreveu numa existência tão breve.
O crítico inglês Cecil Maurice Bowra, que o estudou com simpatia e argúcia, cunhou a expressão “poesia da pose” para definir atitudes que o próprio Byron assumiu muitas vezes e foram profusamente imitadas por legiões de seguidores que o cultuaram como um ícone em toda a banda ocidental do planeta.
Sua obra, relativamente escassa em peças sintéticas de reflexão ou sentimento, é quase toda composta por poemas de estrutura dramática ou por imensas narrativas de viagens — travelogues, como então se dizia, ou “contos metrificados”, como escreveu Antonio Candido — em que o herói principal é sempre o próprio poeta, numa das duas transfigurações sedutoras de que ele mais se revestiu.
O ciclo começa com a Peregrinação do infante Harold — um jovem nobre que amava a irmã, desamava as virtudes e assume a função de narrador desse romance rimado e palavroso que, publicado pouco a pouco, em partes que integram sucessivos livros, vendeu só na Inglaterra onze edições em sete anos, a contar de 1812. Depois, o ciclo autobiográfico se prolonga com o retumbante Don Juan, sucesso absoluto em 1819, que só ficou incompleto devido à morte do autor.
Don Juan é uma proeza em si mesmo, decerto a mais notável surgida no Romantismo europeu. Contém cerca de 16 mil versos em oitava rima, um esquema originário da Itália, e equivale a mais ou menos o dobro da extensão de Os lusíadas, que segue o mesmo padrão.
Nos painéis desmesurados que essas narrativas compõem, Byron fez de sua irrequieta pessoa, dos seus arroubos, amores, diabruras e aventuras uma propaganda incessante, fiel a um verso circunstancial que escreveu de permeio, no qual garante: My soul is dark (“Minha alma está escura”, segundo a transcrição de Vallias). Para a persona que tanto alardeava e tão pouco escondia, ele era o anjo caído, o príncipe das trevas, o nobre manco de nascença, incestuoso e rejeitado, que acabou por se exilar da Inglaterra e foi morrer em Missolonghi para libertar a Grécia dos turcos.Da velha São Petersburgo à incipiente São Paulo, passando pelas capitais europeias, essa fama pegou. Como os românticos ingleses e alguns de seus sucessores haviam mitificado um patrono — o hoje obscuro Thomas Chatterton, poeta de Bristol que se matou com veneno em Londres, aos dezoito anos, e sobre o qual escreveram Coleridge, Wordsworth, Rossetti, Browning —, românticos de todo o mundo uniram-se sob a bandeira de Byron para viver o mal do século.
Byronismo
Em maior ou menor grau, há doses de byronismo atestadas nos russos Púchkin e Lermontov, no alemão Heine, no grego Solomos, no francês Musset, no espanhol Larra, no argentino Echeverria e no brasileiro Álvares de Azevedo, que por sinal testemunhou em dois versos sua devoção pelo ídolo: “Junto do leito os meus poetas dormem/ — O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron”.
Mais que uma corrente na moda, um estilo com etapas definidas, similaridades formais e desdobramentos de temas, o byronismo que se alastrou pelo mundo foi uma mentalidade de contestação social. A grande onda deu um clima no qual era possível levar a vida e escapulir à repressão pelas brechas. Todos que estavam na vanguarda imitavam a poesia da pose, os gestos lânguidos, a cara pensativa e o clamor por justiça. Quando Byron morreu heroicizado na Grécia, em 19 de abril de 1824, com 36 anos, os estudantes em Paris botaram luto.
Já os estudantes de São Paulo, na avaliação de Antonio Candido, “não criaram atmosfera senão para a paródia” em seu culto byroniano, com “suas blasfêmias exteriores e retórica decorada, suas pobres orgias à luz da lamparina, regadas de cachaça, ao som da magra viola sertaneja”. Mesmo que tenha sido assim, esses rituais juvenis tiveram peso acumulado para fixar certos tipos, objetivos e condutas que eram posições avançadas.
Considerando-o fundador de um ramo divergente da tradição literária, Carpeaux garante que Byron “é o primeiro satanista e o primeiro poeta da revolução”, e acrescenta: “Como aristocrata rebelde, ele criou um novo tipo de homem, o individualista magnífico, lançando o desafio à sociedade e até a Deus. Pela primeira vez na história, um poeta saiu para invocar o Diabo e lutar pela liberdade dos povos”.
Proscrito e libertário, o poeta queria que a poesia fosse uma arma de emergência para a guerra total
O grande objetivo da vida é a sensação, é sentir que existimos. Todos os governos são detestáveis. O vício é superior à virtude. As opiniões são feitas para serem mudadas. Só os mentirosos inventam ficções puras. A primeira noite é irresistível. Quem iria se dedicar a escrever se tivesse no mundo o que fazer de melhor?
Ideias assim, estapafúrdias para a elite, mas muito a propósito para os contestadores da época, podem ser colhidas a esmo na correspondência de Byron, suma tão importante para conhecê-lo de perto quanto os enredos autobiográficos das suas obras em versos. As cartas estão escritas com apuro, como se, famoso desde jovem, ele estivesse condenado a zelar pela posteridade do nome.
Homem maldito, expulso por calúnia da pátria, eterno sofredor de ardentes paixões, a maior das quais por Augusta, sua meia-irmã, Byron carrega o tempo todo nas tintas, nessas cartas, para convencer os amigos de que a sua vida é fantástica. Nas andanças pela Europa e nas longas permanências em cidades da Itália, mulheres caem nos seus braços, às vezes sem que ele queira, e as cartas de grafia energética vão dando sem demora os detalhes, a lenta articulação de cada conquista, a cor dos olhos, a noite que fazia, as palavras trocadas.
Proscrito e libertário, o poeta queria que a poesia fosse uma arma de emergência para a guerra total. Seguindo a natureza, e a arte da observação, iria rir do seu maior inimigo, a alta sociedade, e combatê-la pela exposição dos desmandos, falsidades e defeitos que ele conhecia tão bem. Passou assim dos devaneios românticos para o realismo satírico do Don Juan, que ele mesmo apontou como “o mais moral dos poemas”. Considerava-se, a essa altura, um distribuidor de verdades.
André Vallias, com as suas traduções insubmissas de Heine, Brecht e agora Byron, tornou-se um distribuidor de prazeres.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026.
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