'A leitura' (Catulo e Clodia), pintura de 1904 de Giulio Aristide Sartorio (Reprodução)

Poesia,

Roma me tem amor

Após mais de vinte séculos de uma vida sem vestígios, Catulo e sua lírica sexuada se expõem na obra completa

21jul2025 • Atualizado em: 29jul2025 | Edição #96

É bem provável que a brevidade ríspida, a linguagem sem rodeios e o caráter francamente obsceno de alguns poemas de Catulo tenham estado entre os motivos que levaram a Europa literária, após o Renascimento, a nutrir especial interesse por esse poeta já tão admirado e imitado — uma das vozes mais provocantes que nos restam da Antiguidade latina.

Quase nada se sabe de concreto sobre a vida de Caio Valério Catulo, embora em geral se admita que ele nasceu em 84 ou 82 a.C. em Verona, no norte da Itália, e morreu entre 54 e 52 a.C. em Roma, por volta dos trinta anos. Indícios contidos em seus próprios poemas ou vagas referências a seu nome, em textos da mesma época ou igualmente muito antigos, fazem supor que ele era de família rica e pode ter testemunhado, já vivendo na capital, fatos de grande repercussão política, como as crises que causaram a dissolução da república, a revolta dos escravos liderada por Espártaco e os avanços de Júlio César para guerrear na Gália e na Britânia.

Obra completa

O livro de Catulo, publicado pela Edusp e organizado por João Angelo Oliva Neto, é um volume imponente em edição de luxo, com tiragem de apenas mil exemplares, onde se enfeixam traduzidos os 116 poemas da obra completa do autor. Sempre com o latim espelhado, cada um desses poemas que Oliva Neto traduz, muitos dos quais têm apenas cerca de dez versos ou menos, é seguido por duas ou três páginas de notas minuciosas que justificam opções do tradutor e tentam esclarecer ou contextualizar certas passagens mais complexas.

Na obra de Catulo, destacam-se dois ciclos temáticos, o de Lésbia e o de Juvêncio, cujos poemas, tal como ocorre com os de ciclos menos famosos, não se dispõem de maneira contínua, mas vão surgindo a intervalos, separados por outros de temas bem diferentes.

O ciclo de Lésbia — palavra que no caso não é sinônimo de lesbiana ou lésbica, e sim o gentílico de alguém que apenas nasceu ou vem da ilha grega de Lesbos — trata de uma paixão violenta e excruciante, pelos tormentos e ciúmes causados, que o homem que a expressa em poesia sente por uma mulher mais velha e casada, porém namoradeira e de costumes não rígidos. Lesbos ganhou destaque na tradição literária por ser a terra natal da poeta Safo, que viveu na virada entre os séculos 7 e 6 a.C. e a quem se atribui a invenção dos versos de cinco pés ditos sáficos, um esquema que se fixou na poesia grega e foi muito imitado na latina, entre outros, por Catulo e Horácio.

Já os poemas do ciclo de Juvêncio, cujo nome aparece por escrito mas sobre cuja existência nunca se soube nada, referem-se à atração sexual entre homens e a características do “amor que ousou dizer seu nome” ao ser vivenciado somente nos limites da masculinidade. Além desses, na obra completa de Catulo há vários outros “poemas pederásticos”, como o tradutor os chama, que às vezes são ofensas ferozes dirigidas a hipotéticos rivais do poeta ou de quem fala por ele.

Catulo deixa claro, segundo o tradutor, que não confunde sua conduta íntima com persona poética

Nas leituras e análises dessa poesia tão confessional e sintética vigorou por longo tempo a visão oitocentista do Romantismo europeu. Por esse modo de ver, sem nenhuma hesitação, faz-se uma identificação automática entre o ego do poema e o do autor que o escreveu. No entanto, a partir de meados do século 20, com o surgimento e a irradiação em cascata do new criticism americano, entrou em cena uma abordagem mais filológica da criação literária. A rigor nem interessa, por esse prisma, saber se determinado texto corresponde ou não fielmente a um conteúdo vivido. A própria arquitetura do escrito é capaz até de indicar que a expressão de sentimentos que se efetua por ele pode ser um fingimento do artista, não uma confissão real do sujeito.

Um dos poemas de O livro de Catulo ocasionados por rixas é o “16”. Eis aqui tudo o que ele diz, na tradução de Oliva Neto:

No cu eu vou meter-vos e na boca,/ passivo Aurélio e Fúrio chupador,/ que por versinhos meus delicadinhos,/ não ter nenhum pudor me reputastes:/ pois ao poeta pio convém ser casto/ ele mesmo, a versinhos não há lei,/ os quais só têm sabor e graça quando/ delicadinhos, sem nenhum pudor/ e quando incitam o que excite não/ digo os meninos, mas alguns peludos/ que duros já não movem mais os ombros./ E vós, que muitos milhares de beijos/ lestes, pouco viril me reputais?/ No cu eu vou meter-vos e na boca

Desde 1983, quando saiu a primeira edição de seu Catullus, livro com o qual ele se tornou mais um dos tradutores para o inglês da obra do autor, G. P. Goold já chamava atenção para o que é explicitado a partir do quinto verso do poema em questão. Se “ao poeta pio convém ser casto”, e se “os versinhos só têm sabor e graça quando sem nenhum pudor”, Catulo aí deixa bem claro, segundo esse tradutor, que não confunde sua conduta íntima com o modo de ser que é assumido por ele como persona poética.

Em vista disso, como escreve Goold, “seria ridículo inferir qualquer coisa sobre a rotina diária de Catulo a
partir dos traços de lascívia presentes em sua obra”. Goold também garante que deliberadamente o poeta quis chocar seus leitores com virulência idêntica à que usava ao atacar políticos de poucos escrúpulos e honestidade duvidosa.

Período fértil

O século 1 a.C., aquele no qual terá vivido Catulo, esteve envolto nas premissas culturais de um período longo e fértil, o helenístico, que se distanciou não só no tempo, mas também nos procedimentos em voga, das fases arcaica e clássica da civilização grega e sua rede tentacular de influências que se alastraram pelo Mediterrâneo e grande parte da Ásia.

Em Roma, à medida que declinava o interesse pelas formas grandiosas da poesia cívica, nacionalista ou moralizante, como a epopeia e o drama, desenvolveram-se sob o helenismo
as formas mais simples, menos tocadas por impostações solenes e de comunicação mais direta da pequena poesia lírica. Somente a obra de Catulo sobreviveu, para chegar-nos provavelmente em parcelas, mas vários nomes de outros autores líricos da época foram retidos e são mencionados em diferentes fontes como integrantes da mesma geração. Chamados em latim de poetae novi, os autores desse grupo responsabilizaram-se por introduzir de vez em Roma práticas bem típicas de poetas do helenismo que escreveram em grego nas regiões conquistadas e incorporadas por Alexandre ao mundo de triunfos da Grécia.

Extenso, pródigo em detalhes e altamente erudito, o ensaio de Oliva Neto que serve de introdução a O livro de Catulo faz um retrospecto histórico do período helenístico e mostra como, por via inversa, premissas oriundas de áreas periféricas à hegemonia greco-romana acabaram chegando ao centro de todo o amplo sistema para inocular novas energias e crenças, novos comportamentos e hábitos em cidades que antes criavam, forneciam e propeliam cultura para quem vivia ao redor. O maior exemplo dessa chegada de influências de fora foi o papel que coube a Alexandria, no Egito, e às atividades exercidas por sua monumental biblioteca e seu museu tão operoso, onde as artes, as letras e as ciências prosperaram em ebulição permanente.

O helenismo, visto por esse ângulo, não foi sinal de decadência, mas de regeneração oportuna, e permite traçar um curioso paralelo com algo semelhante que aconteceria na cultura europeia, muitos séculos mais tarde, ao raiar da época em cuja esteira vivemos. Nas primeiras décadas do século 20, movimentos da arte de vanguarda como o cubismo e o expressionismo subverteram as categorias estéticas e, dando um valor nunca manifestado antes a máscaras de gente preta e esculturas da África, a imaginações da loucura, a despretensiosas criações infantis ou a produtos oriundos de povos ditos primitivos, questionaram e puseram abaixo o gosto que predominava na Europa e em suas áreas de influência por mesmice e inércia.

Em suma, o conceito de tradição passou por ampla reforma. E o desejo de originalidade avançou por outros caminhos. Já não bastava fazer pequenas alterações no que havia de precedente dentro de um sistema fechado. Se a vida é um perpassar de mudanças, cabia encontrar em qualquer parte, em qualquer obra, época ou situação extramuros os estímulos que orientassem qualquer artista ambicioso a criar novos e fortes significados.

Erudito, o ensaio de Oliva Neto na introdução ao livro faz um retrospecto do período helenístico

Uma seção muito útil e original de O livro de Catulo é a antologia de traduções em português do autor, pacientemente reunida pelo organizador do volume e intitulada “Os outros, o mesmo”. Trabalhos de 39 tradutores em atividade do fim do século 18 até hoje aí estão incluídos, numa demonstração muito clara do enorme interesse despertado entre nós pelo jovem cantor do amor em Roma. Além de já traduzido por escritores portugueses de diferentes momentos, como José Feliciano de Castilho, Almeida Garrett, Eugênio de Castro e Jorge de Sena, Catulo também o foi por um time de craques brasileiros na tradução de poesia, entre os quais, Haroldo de Campos, Isabel Carvalho De Lorenzo, José Paulo Paes, Marina Grochocki, Nelson Ascher, Guilherme Gontijo Flores, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Décio Pignatari e a Marquesa de Alorna.

Poema 32

Ó doce e encantadora Ipsitila,
Tesouro meu, te peço, me convida
A ir a tua casa hoje à tarde.
Se me chamares, por favor não tranques
A porta, e não saias de repente,
Mas fica em tua casa e te prepara
Pra foder nove vezes sem parar.
Melhor ainda, me convida agora,
Porque deitado, de barriga cheia,
Pensando em ti, percebo que meu pau
Já quase fura a túnica e o manto.

(Tradução de Paulo Henriques Britto)

Quem escreveu esse texto

Leonardo Fróes

Poeta e tradutor, é autor de Poesia reunida (1968-2021) (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025.