O escritor suíço Nelio Biedermann (Ruben Hollinger/Divulgação)

Literatura,

Bruma de mistério

Lázár, aclamada estreia do suíço Nelio Biedermann, acompanha o declínio de uma família aristocrática e grandes eventos do século 20

24jun2026 | Edição #107

Sem consultar o histórico de tudo que existe, me dou o direito ao devaneio e penso que um objeto é a memória da necessidade coletiva que o inaugurou. Uma cortina, primeiramente, é a dificuldade de lidar com um vazio. Há os objetos de necessidades mais sutis; e há os objetos que tensionam essas fronteiras: o maior de todos é o Livro, pois, no coração da necessidade que o fundou, existe um caráter duplo. Ele pertence, sim, às utilidades mais urgentes, sem nunca abandonar sua natureza abstrata. Existem, por fim, os objetos nostálgicos, que, apesar de perdida sua função, ainda não morreram no fogo ou no esquecimento. De alguma forma permanecem, em geral na sala de nossas avós.

Foi na casa de sua avó que o escritor Nelio Biedermann encontrou objetos que despertaram sua atenção. Eram relíquias de um tempo aristocrático, que lhe pareciam incompatíveis não apenas com sua juventude, mas, em especial, com a vida que a avó levava num modesto apartamento no centro de Zurique. No entanto, ela adorava falar sobre eles — sobre esses objetos que não encontram necessidade no agora, mas sustentam sua permanência no espaço com uma dignidade comovente.

Nascimento

Quem lê uma obra como Lázár, a estreia de Biedermann, um autor suíço de 23 anos, não deixa de se impressionar — mesmo tendo aprendido com Rimbaud que é possível atingir a grande linguagem sendo um jovem poeta — ao encontrar um livro como esse, que só poderia ter vindo de um gênio comprometido com horas de pesquisa numa longínqua biblioteca. 

Não é só isso. Lázár está além do feito técnico: é permeado pela nostalgia do detalhe; nasce da observação dos vestígios de uma vida que o autor não conheceu; vem da infância, das estranhas visitas aos castelos que um dia pertenceram à sua família — um deles se tornou hospital psiquiátrico e, no corredor, havia fotos dos ancestrais, que olhavam de volta o menino. 

Biedermann começou a escrever Lázár aos dezesseis anos. Foram cinco tentativas até entregá-lo, aos vinte. Quando o pai leu, ligou para o filho e disse: “isso não tem nada a ver com a história da nossa família”. Depois de um tempo, ligou de novo: “não, na verdade, isso é exatamente a história da nossa família”.

Lázár, publicado no Brasil pela Record, com tradução de Kristina Michahelles, acompanha a trajetória de uma família aristocrática na Hungria do século 20, num épico que dialoga com grandes clássicos da literatura, como Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, e Os Buddenbrook, de Thomas Mann, autor que é referência para Biedermann.

O romance vem da infância, dos antigos castelos, dos vestígios de uma vida que o autor não conheceu

No romance, somos apresentados a um mundo sob forte influência gótica. Numa mansão isolada, próxima de uma floresta que se mostra essencial à vocação onírica do livro, nasce um bebê translúcido com olhos azuis, Lajos, que não encontra semelhança no patriarca, Sándor, mas que ainda assim perpetuará o nome da família Von Lázár, uma dinastia nobre com tendência à infelicidade e à loucura. 

Mária, mãe de Lajos, se assusta com o que os olhos muito azuis do filho podem revelar, mas aprende que mentir é um modo de sobrevivência. A irmã de Lajos, Ilona, acha o bebezinho muito feio e vomita aos pés de seu nascimento. Isolado na área leste do castelo, vive o irmão de Sándor, Imre, que é impedido de herdar o título do barão por ser considerado louco. 

Quando Lajos nasce, em Pécs, na fronteira sul da atual Hungria, sua terra ainda faz parte do Império Habsburgo. Conforme a história se desenrola, porém, profundas mudanças destroem o império, que se transforma num estado-satélite da União Soviética. Como ex-elite privilegiada, os Lázár se tornam alvo para os guerreiros de classe da Hungria. Acompanhamos, através das gerações, o turbulento declínio dessa família, em contraste com a atmosfera bucólica, aparentemente estática, do castelo. 

Tempos

Apesar da condensação do tempo como recurso narrativo, Biedermann sabe se demorar em cenas de grande expressividade, como quando Ilona desaparece na floresta e é encontrada com sangue no ventre — o sangue da primeira menstruação. Essa mudança de ritmo contribui para a força do romance, guiado pela voz de um narrador de timbre raro, que une o tempo histórico ao tempo subjetivo.

Os capítulos, ordenados com apurada consciência lírica, costuram os momentos em que as individualidades colidem com os grandes traumas do século 20, como as duas guerras mundiais e a Revolta Húngara, de 1956. Lázár, portanto, é uma espécie de tratado sobre ser filho não apenas de determinado pai, mas de um tempo histórico específico, e sobre como isso molda o caráter da vontade, organiza linhas de fuga. Reflete um confinamento quase sartriano de pessoas que não se escolheram como família, mas que precisam sustentar esses papéis diante dos outros e de si.

O que mais impressiona é como Biedermann capta o passar dos anos na escrita, instaurando uma sensação de tempo vivido que se infiltra nos personagens e também no movimento geral da vida, até mesmo na luz e nos móveis do castelo. Ele equilibra dados históricos com leis próprias da ficção, em metáforas como a do pombo ferido aos pés de Pista, filho de Lajos, pouco antes de ele bater na porta onde costumava morar a menina judia por ele amada na infância. A ambientação é magistral: nos sentimos nas entranhas do século passado — o que prova que a escrita, quando bem realizada, tem o poder de nos transportar a qualquer parte, ainda que o autor não tenha memória do tempo narrado. 

Outra característica marcante são os personagens secundários. Apesar do protagonismo da família Lázár, temos contato com uma pequena galeria de figuras que entram e saem do romance dando contorno dramático às cenas. A amante de Sándor, Sra. Virag, por exemplo, que, quase sem perceber, com seus cheiros peculiares, desmonta e enfraquece o patriarca. Enquanto isso, o narrador observa um declínio que ultrapassa questões políticas — repousa em matérias mais insólitas, simbolizadas talvez pela floresta de sabedoria atemporal, que parece emprestar ao livro uma bruma de mistério. 

Objeto cintilante

Lázár é uma estreia fascinante, que ilumina momentos cruciais do século 20 e ainda pequenas verdades contemplativas, além de uma sutil e persistente esperança, que dá o tom do livro. São personagens que vivem seus dilemas com intensidade, herdam a busca por algo sem nome, quem sabe se ancorados naquele vulto que Sándor vê do lado de fora do castelo durante o nascimento do filho. Com toques de realismo mágico e forte influência do romantismo, Lázár surpreende pela sensibilidade de um jovem artista que é, acima de tudo, um grande leitor: de mundos, de fantasmas, de feridas abertas — de objetos cintilantes e singulares, como este Livro que Biedermann criou.

Quem escreveu esse texto

Aline Bei

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Bruma de mistério”

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