Literatura,
Espiões pangarés
Autor da série Slough House, Mick Herron mistura suspense, humor e política em tramas de espionagem inusitadas
22jun2026Enquanto o mundo da espionagem traça voos mirabolantes na imaginação, em tramas cheias de ação e paranoia, os espiões da Slough House estão acorrentados a uma vida entediante. Trabalhando em um prédio encardido no norte de Londres, o grupo é considerado o pior da inteligência britânica. Eles erraram feio no ofício e pagam o preço do fracasso diariamente, em tarefas banais que vão de remexer a papelada velha a monitorar a esmo as redes sociais — uma rotina maçante, ou seja, perfeita para sugerir o pedido de demissão.
Nesse cenário desolador e aborrecido, um purgatório por natureza e por excelência, o inglês Mick Herron inventou algumas das histórias mais empolgantes do gênero nos últimos anos. Ele é o autor da série de livros Slough House, que virou hit nos Estados Unidos e no Reino Unido, com 4 milhões de cópias vendidas, e uma série com Gary Oldman no Apple TV, a prestigiada Slow Horses.
Os romances foram publicados neste ano no Brasil pela Intrínseca, que lançou em janeiro os dois primeiros volumes, Slow horses e Leões adormecidos. A editora aposta alto na coleção e prepara para o segundo semestre o terceiro e quarto livros, Real Tigers e Spook Street, bem a tempo da estreia da sexta temporada do seriado, em 16 de setembro.
O sucesso dos livros está ligado à fórmula estranha que Herron usa nas histórias. Dotado de uma escrita engenhosa, o inglês narra a vida de seus agentes secretos com doses iguais de sarcasmo e melancolia, explorando personagens obrigados a conviver com as consequências de seus erros.
Apesar do suspense, a série também funciona como tragicomédia: o leitor se envolve na agonia dos espiões, mas esbarra em passados um tanto esdrúxulos. Um dos fracassados da divisão, por exemplo, foi transferido para a Slough House por esquecer documentos confidenciais no metrô londrino; já outro, um hacker genial, está ali apenas porque nenhum departamento tolera a sua pessoa insuportável.
A vida dos agentes secretos é narrada com doses iguais de sarcasmo e melancolia
As tramas carregam um raciocínio parecido, com um instinto inusitado para a adrenalina. Todo o suspense de Slow horses e de Leões adormecidos nasce de questões não resolvidas do passado dos personagens, mas envolve sobretudo o funcionamento interno do próprio MI5, o serviço de inteligência doméstica do Reino Unido. Na leitura, fica evidente que o que interessa a Herron é a tensão nos bastidores, nas ironias despertadas pela burocracia e no xadrez mental entre todos os envolvidos, em vez da urgência da operação em si.
Mais Lidas
Em entrevista à Quatro Cinco Um, o autor admite que tais entraves administrativos — e os consequentes bate-cabeças — estão entre as principais atrações nas histórias que conta. “Há muito de humor negro na maneira como as burocracias funcionam, mesmo quando existe apenas a frustração de se lidar com elas no dia a dia”, afirma Herron. “Acho que podemos dizer que é um ato de vingança, e eu nunca fico sem material.”
Nisso, o grande trunfo de Herron é a habilidade de escrever sobre quase todos os agentes da Slough House a partir das próprias perspectivas. O inglês afirma que gosta muito de trabalhar na série pela diversidade de vozes à disposição entre os “pangarés” — um apelido usado de forma jocosa por todo o MI5 para tratar dos funcionários do departamento.
“Pode parecer preciosismo meu, mas sinto que quem quer que esteja escrevendo no momento é o meu personagem favorito”, diz o autor. Herron diz que se diverte com os delírios dos agentes mais toscos do grupo, mas que também gosta de explorar o lirismo por trás dos agentes mais melancólicos. “É uma das vantagens de se ter um grupo mais ou menos grande de personagens: você sempre acha um humor diferente para escrever a história.”
Extremismos
Apesar da pecha de imbecis, os espiões da Slough House lidam com todo tipo de conspiração insana. No primeiro livro, o leitor conhece os personagens enquanto o noticiário acompanha o sequestro de um cidadão de família paquistanesa por um grupo de extrema direita. O departamento se envolve no resgate, mas o clímax de Slow horses acaba sendo o duelo dos pangarés com Diana Taverner, uma das principais lideranças do MI5, e abrange a forma como a agência tenta usar o grupo terrorista em benefício próprio.
Todo o suspense dessa história fica mais impressionante quando se leva em conta que o livro foi publicado originalmente em 2010, bem antes da ascensão de grupos fascistas na política global. Herron diz que já sentia na época a ameaça da extrema direita, e comenta que achou interessante a ideia de incluir no livro uma forma de identificar os perigos dessa política do ódio. “Se soubesse na época que a extrema direita não apenas continuaria a ameaçar a democracia todos estes anos, mas que também, de maneira desconcertante, ainda seria levada a sério por parte significativa do eleitorado, eu estaria horrorizado. No caso, eu estou horrorizado.”
O autor também viu na proposta uma oportunidade de brincar com as expectativas do leitor e inverter as etnias dos envolvidos no sequestro — só bem mais para o final do livro que ele revela que os sequestradores são brancos e o refém, de origem islâmica. “É sempre bom manter o suspense com quem está lendo”, explica.
A brincadeira deu certo, terminou incorporada ao andamento geral da série e acabou se tornando uma dor de cabeça. Personagem secundário na trama de Slow horses, o político de extrema direita Peter Judd ganha uma carreira ao longo de Slough House que lembra a do ex-primeiro-ministro Boris Johnson. A aproximação funcionou até Johnson virar chefe do Executivo britânico, forçando Herron a divorciar o personagem da inspiração.
O autor comenta que ajustes assim acontecem a todo momento na série: “Eu não apenas pego emprestadas figuras da vida real, mas invento personagens que se encaixam em meus interesses na ficção que escrevo”, diz. No fundo, a sua maior preocupação é acompanhar a montanha-russa que virou o noticiário nos últimos anos.
“Quando comecei a retratar políticos reais nos livros, passando algum comentário sobre o que acontecia, eu tinha que me policiar no tom: a sátira tende ao exagero, e eu não queria que meus romances parecessem ridículos”, argumenta. “Hoje em dia faço o contrário. Tenho que aumentar o tom do absurdo para ficar atualizado com os tolos, narcisistas e megalomaníacos que comandam nosso planeta há uma década.”
A propriedade com a qual Herron fala de política e espionagem por vezes ajuda a esconder a informação de que o autor nunca teve qualquer contato direto com esses mundos. Quando começou a escrever Slow horses, em 2008, ele era subeditor de um jornal voltado à legislação do mercado de trabalho inglês. A rotina de escritor acontecia à noite, na volta do escritório.
“Eu tive sorte de ter um cargo que não consumia a minha energia, mas que permitiu o aperfeiçoamento da minha escrita”, conta o autor. O trabalho diário com textos jurídicos e técnicos complexos, segundo ele, em nada atrapalhava a criação de histórias, um hábito que já acontecia desde o começo do século: “Eu trabalhava constantemente com palavras, mas não de uma forma que satisfazia a minha necessidade pela ficção. Quando chegava em casa, cansado que fosse, ainda tinha energia para escrever por mais uma hora”.
Herron fala de política e espionagem como se tivesse contato direto com esses mundos
Herron passou por poucas e boas para emplacar Slough House no mercado e, como seus espiões, teve que lidar com derrotas. Slow horses, de início, foi um fracasso de vendas tamanho que a editora, a Constable, dispensou o contrato para o segundo livro da série. A história dos pangarés do MI5 só não acabou ali porque o autor achou refúgio na americana Soho House, que publicou a continuação em 2013. Os livros voltariam ao mercado britânico só em 2015, pela John Murray e a partir de Real Tigers.
A salvação veio das mãos de Juliet Grames, então editora da divisão de suspense e hoje diretora editorial da Soho, que topou assumir o livro sem ter os direitos do primeiro volume. Ela conta que o agente de Herron na época a procurou com o manuscrito, pedindo que desse uma segunda chance ao material depois do fim do contrato com a Constable.
“Quando comecei a ler, sabia que teria que rejeitar o livro, mas dei uma chance porque achava o Mick uma pessoa muito gentil. Aí eu li o suficiente para perceber que aquilo era incrível”, lembra Grames. “Eu corri para o escritório do meu publisher e ali mesmo entendemos que tínhamos que lutar pelo livro, independente do cenário.”
A editora não economiza elogios a Herron e diz que seu talento está na consistência e na teimosia de escrever romances que não se importam com as críticas e a pressão do mercado. Do lado comercial, ela afirma que a série entrou nos eixos em 2013, quando Leões adormecidos venceu o Gold Dagger, prêmio tradicional da britânica Crime Writers’ Association, e estourou em vendas a partir de 2016, com a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos — “aquilo com certeza despertou o interesse do público por péssimos espiões”, ela brinca.
Na mesma época, Herron enfim pediu as contas do trabalho como editor de jornal e passou a se dedicar integralmente aos livros. Ele percebeu ali que a carreira de escritor havia decolado de vez.
Passada uma década do sucesso de Slough House, Herron se mantém humilde sobre o ofício. Ele já se habituou a negar em eventos e entrevistas o posto de “novo John le Carré”, ex-espião que é o autor mais emblemático dos livros de espionagem. Em obras como O espião que sabia demais e O espião que saiu do frio, Le Carré criou um dos personagens mais famosos do gênero, George Smiley, e marcou o imaginário dos leitores nos anos da Guerra Fria com tramas tão mirabolantes quanto as do autor de Slough House.
Sobre o assunto, Herron diz preferir a comparação com o americano Robert Littell, de A Companhia, que carrega um humor mais próximo ao dele. Na conversa com a Quatro Cinco Um, ele afirma ser admirador dos dois escritores e cita o inglês Kingsley Amis, de Lucky Jim, e o escocês Christopher Brookmyre, de Quite Ugly One Morning, como um par de influências que ele tenta evitar no trabalho.
Surpresa
Já sobre o tom de comédia dos romances, o autor vê a língua inglesa como principal ferramenta de trabalho. “Na maior parte das vezes, me divirto com o funcionamento das palavras; eu gosto dos duplos sentidos. Ainda me surpreende como os meus livros são traduzidos, e não tenho certeza como eles funcionam em outras línguas.”
No Brasil, a tradução ficou a cargo de Camila von Holdefer e de Rita Paschoalin, que cuidaram cada uma de um livro da série. Segundo Paschoalin, o principal desafio com o humor foi o de preservar o sentido final do texto a partir de expressões do português que correspondessem ao tom sardônico e zombeteiro do original em inglês.
“O texto de Mick Herron é engraçado porque está recheado de tiradas rápidas e de ironia, mas também de um sarcasmo às vezes inclemente”, explica a tradutora. “Essas tiradas rápidas precisam funcionar no português, então o desafio muitas vezes acontece no nível da frase, de buscar o conjunto de termos que carregue ao leitor brasileiro a mesma dinâmica.”
O autor admite que se diverte criando hábitos reprováveis para seu protagonista
O personagem que melhor representa o estilo ácido do autor é justamente aquele cujos pensamentos Herron se recusa a escrever: Jackson Lamb, o chefe dos pangarés da Slough House. Ex-agente de campo do MI6 na Guerra Fria, o líder do departamento encontra as formas mais cretinas de torturar os fracassados de sua equipe, dando cabo do clima de punição que permeia a divisão.
Ao mesmo tempo, Lamb é o grande herói dos bastidores da série, enfrentando a seu jeito os joguetes políticos da agência e as ameaças externas — mesmo que quase sempre para tirar a divisão, e a ele mesmo, da linha de fogo. Ele funciona como uma versão mais porca e irritada de George Smiley, uma comparação que hoje ficou banal com a escalação de Gary Oldman para viver o personagem na TV — o ator interpretou Smiley em 2011, na adaptação para os cinemas de O espião que sabia demais.
“A verdade é que ninguém quer saber o que se passa na mente de Jackson Lamb”, diz Herron. O autor admite que se diverte criando os hábitos reprováveis do personagem, incluindo um que aparece de modo recorrente no programa: as refeições. Tanto na adaptação quanto nos livros sobram cenas em que Lamb se alimenta das formas mais nojentas possíveis, despertando um desgosto terrível em quem o acompanha — de sanduichinhos a potes de noodles, nada escapa às mastigadas horripilantes do personagem.
“Muito da figura de Lamb vem da sua função, que é tornar a existência dos pangarés da Slough House a mais miserável possível”, explica o criador. “Quando idealizei o personagem, foi um passo óbvio muni-lo das rotinas mais desagradáveis, e as suas refeições se tornaram parte do processo. Esse hábito tem uma função dupla, repelindo outras pessoas e indicando suas escolhas de vida nada saudáveis, que reforçam o quanto ele se odeia.”
Enquanto Slough House começa sua jornada de publicação no Brasil, Herron já ruma para o décimo volume da série. Além dos nove romances publicados, ele assinou cinco livros derivados e outros três que se relacionam tangencialmente com os personagens.
O material é mais do que farto para a adaptação no streaming, que anda a passos rápidos. No ritmo de uma temporada ao ano, Slow horses se prepara em 2026 para levar às telinhas o sexto livro da franquia, Joe Country. Do lado do autor, a distância cada vez menor entre a série os livros não incomoda. “Pressão? Imagina!”, ele comenta. “Eu continuo a escrever no meu ritmo. O livro em que trabalho no momento não faz parte da série, inclusive, então o próximo volume deve demorar.”
O que acontece se a série de TV o alcançar, nos moldes do que rolou com George R.R. Martin e Game of Thrones? “Eu não faço a menor ideia”, responde de forma abreviada, reproduzindo a mistura de suspense e bom humor dos livros.
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Assine o plano anual e ganhe uma ecobag exclusiva!
Entre para nossa comunidade de leitores e contribua com o jornalismo independente de livros.
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.