Frame de Apocalipse nos trópicos, de Petra Costa (Busca Vida Filmes/Divulgação)

Laut,

Além do apocalipse

Petra Costa cria narrativa impressionante para audiências estrangeiras, mas ignora perguntas fundamentais sobre o fenômeno evangélico no Brasil

10set2025 • Atualizado em: 17set2025 | Edição #98

O novo documentário de Petra Costa, cineasta responsável também por Democracia em vertigem, indicado ao Oscar em 2020, estreou mundialmente na Netflix no dia 14 de julho. Apocalipse nos trópicos funciona como uma sequência, retomando a narrativa de onde o anterior parou. Assistimos a alguns dos principais acontecimentos do campo conservador no Brasil desde 2016, desta vez com Bolsonaro no centro.

As filmagens se deram entre 2019 e 2023. Nas cenas iniciais, Costa narra que, percebendo o crescimento das denominações evangélicas no Brasil, cujos fiéis passaram de 5% a 30% da população em quarenta anos, decidiu estudar essas expressões religiosas para entender melhor o fenômeno. Reparou que o neopentecostalismo dá mais atenção ao último livro da Bíblia do que outras vertentes. Em “O apocalipse”, o fim dos tempos se aproxima e Jesus retorna para vingar os seus fiéis, inaugurando um novo mundo. É uma história em que a guerra leva à paz e o sacrifício em vida conduz ao paraíso. O fim dos tempos seria um mal necessário para evitar um mal maior.

O imaginário apocalíptico extrapola o objeto de estudo, permeando também o vocabulário e a estética do documentário, dividido em atos que remetem a significados bíblicos, como “gênesis”, “domínio” e “guerra santa”. A montagem entrelaça acontecimentos-chave para compreender a política brasileira dos últimos anos, passando por eventos como a eleição de Jair Bolsonaro, a pandemia da Covid-19, a prisão e posterior soltura de Lula, a eleição de 2022 e a tentativa de golpe em janeiro de 2023.

Os ataques de 8 de janeiro funcionam como clímax do longa. Sob uma trilha sonora de ópera, vemos registros privilegiados da multidão golpista que invadiu o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Depois que a ópera cessa e as luzes se apagam, vem a imagem de funcionários de limpeza varrendo os destroços.

Se o roteiro não quis estereotipar a fé evangélica, tampouco demonstra interesse maior por ela

A narrativa de Costa é marcada por dualidades: favelas são justapostas a condomínios de luxo; pessoas internadas com Covid-19 aparecem antes da infame fala de Bolsonaro sobre ser “messias, mas não fazer milagres”. Dispostos linearmente, os acontecimentos oferecem uma história impactante para audiências estrangeiras. Veículos como a revista Time e os jornais The Guardian e The New York Times se referem ao filme como um retrato “arrepiante” e “sinistro” da “ascensão do cristianismo evangélico de direita na política”.

Superdimensionamento

No Brasil, o documentário teve recepção morna no campo progressista e provocou críticas da audiência especializada. Estudiosos do crescimento neopentecostal expressaram incômodo com a centralidade que a figura do pastor Silas Malafaia tem na trama, vista como desproporcional à sua real influência na política brasileira e à sua conexão com o bolsonarismo — a despeito de recentes gravações da Polícia Federal revelarem o canal direto que existiu entre o pastor e a família Bolsonaro.

Alessandra Orofino, corroteirista e coprodutora do documentário, rebateu algumas dessas críticas em episódio do podcast Calma Urgente. Segundo ela, a ideia foi retratar Malafaia como uma “metonímia perfeita” da associação dos evangélicos com o bolsonarismo. Isto é, a visão não seria necessariamente de que o pastor seja o principal líder evangélico, mas o mais representativo dos valores
de um coletivo.

O superdimensionamento não está apenas na figura de Malafaia, mas no campo evangélico em si, apresentado como uma força política poderosa e uníssona que não é apenas aliada do bolsonarismo, mas representativa dele. E o casamento perfeito entre bolsonarismo e neopentecostalismo, como apresentado no filme, é uma narrativa que funciona bem.

De forma a preencher o imaginário apocalíptico, os cristãos aparecem como um rebanho manipulado por líderes gananciosos que fazem uso de fake news e promessas de recompensas pelos esforços dos fiéis. A fotografia é precisa em capturar a influência da teologia da prosperidade em cenas curiosas, como a casa de uma entrevistada evangélica que tem uma bandeira ilustrada com um nota de cem dólares na parede da sala de estar.

Olhar catártico

O cuidado de centralizar o foco “em quem manda, e não em quem obedece”, foi uma forma de evitar acusações de perseguição à fé, na visão de Orofino. Mas, se é verdade que o roteiro de Apocalipse nos trópicos não teve o objetivo de estereotipar a fé dos evangélicos, tampouco demonstra algum interesse significativo por ela.

O longa não questiona os motivos para a vasta aceitação das denominações evangélicas na população brasileira, pois se constrói a partir de respostas sustentadas por fatos que não explicam todo o fenômeno. Evidências do envolvimento do governo americano, através da cia (agência de inteligência dos EUA), na implementação da teologia da prosperidade em países sul-­americanos são apresentadas como a principal explicação, desperdiçando-se, assim, a oportunidade de lançar um olhar mais detido — ainda que menos catártico — sobre o fenômeno evangélico no Brasil.

É bem provável que perguntas complexas sobre a relação entre neopentecostalismo, bolsonarismo e escalada autoritária prejudicassem a narrativa circular bem-acabada que o filme oferece. Uma alternativa seria atribuir parte da responsabilidade ao próprio campo progressista e fornecer mais tempo de tela a reflexões sobre a pluralidade de razões para que uma parcela considerável da população brasileira tenha apoiado um projeto político autoritário.

A escolha dos roteiristas de evitar contradições que afetassem o resultado final tropeça em reducionismos que ocultam outras esferas que têm contribuído para a radicalização autoritária de indivíduos, organizações e instituições, como a atuação das Forças Armadas e das polícias, o papel dos meios de comunicação digital e o estoque autoritário que se reinventa no sistema de justiça. Por mais que a religião seja uma das arenas em que essa disputa acontece, a radicalização é um fenômeno mais amplo e multifacetado do que Apocalipse nos trópicos faz parecer.

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Débora Donida

É mestre em direito pela UnB e doutoranda em direito pela USP

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025.