Laut,
Afinidade incômoda
Alvaro Bianchi reconstrói, sem analogias fáceis e slogans apressados, as possibilidades de articulação entre liberalismo e fascismo
01jun2026 • Atualizado em: 28maio2026 | Edição #106“É uma maldição viver em tempos interessantes”, assim reza o antigo dito chinês que Hannah Arendt costumava evocar nos últimos anos de sua vida, quando buscava compreender, sem sentimentalismo ou evasivas, as catástrofes de um século terrível. A força persistente do ditado está em nomear com precisão uma tarefa sempre renovada: compreender a política não como quem apazigua o presente com fórmulas herdadas, mas como quem o torna inteligível quando as categorias disponíveis já não bastam, seja porque o fenômeno resiste à apreensão conceitual, seja porque as disputas semânticas se multiplicam a tal ponto que já não sabemos ao certo o que queremos dizer quando falamos de “fascismo”, “extrema direita” ou “conservadorismo”.
É precisamente nessa encruzilhada que Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, do cientista político Alvaro Bianchi, intervém com alta voltagem intelectual. O livro nasce da percepção de que o fascismo deixou de ser apenas um objeto de arquivo, na medida em que organizações neofascistas voltaram a disputar eleições, ganhar governos e reativar, sob novas condições, repertórios autoritários, racistas, ultranacionalistas e antifeministas. A aposta de Bianchi é reler o fascismo histórico como uma ideologia política sem ceder à banalização do termo ou ao automatismo das analogias. Sua tese central é forte: o fascismo italiano não deve ser lido nem como pura exterioridade antiliberal nem como continuação linear do liberalismo, mas como formação ideológica capaz de articular-se a certas correntes liberais italianas e, dessa articulação, produzir uma síntese específica, o que o autor nomeia como liberal-fascismo.
A melhor formulação da metodologia empregada na pesquisa aparece numa frase certeira: “A analogia é a teoria política dos preguiçosos”. O sarcasmo é também um princípio de pesquisa. Bianchi recusa a facilidade com que o debate público (e acadêmico) transforma o fascismo em rótulo moral indistinto e propõe, em vez disso, uma investigação ancorada no historicismo realista à italiana, sob a célebre máxima de Benedetto Croce de que “toda história é história contemporânea”. O passado não vale como repertório de equivalências rápidas, nem como inventário de respostas já testadas, mas como campo de problemas cuja atualização exige descrição densa e atenção às mediações. É por esses sentidos que a ideologia fascista não retorna como uma identidade política intacta; reaparece como possibilidade política reconfigurada, como recomposição de linguagens, disposições e práticas de violência que se refazem no tempo e em mais de um território.
Esse rigor metodológico sustenta os achados mais persuasivos do livro. Bianchi faz do arquivo um instrumento de elucidação, não um ornamento empoeirado e erudito. O leitor de periódicos, polêmicas doutrinárias e tomadas de posição de personagens-chave recompõe uma ideologia fascista internamente disputada, distante da imagem de um bloco homogêneo e estável. O momento decisivo desse retorno está na reconstrução das correntes fascistas ligadas sobretudo às revistas La Nuova Politica Liberale e Critica Fascista, e na análise de Vilfredo Pareto como compagnon de route do fascismo. Nesse percurso, em vez de buscar uma essência doutrinária fixa, Bianchi estabelece uma constelação de traços — ultranacionalismo, estatolatria, antidemocracia, anticomunismo e valorização redentora da violência — que permite reconhecer a ideologia fascista também por sua aptidão para absorver e refuncionalizar (avistar e abocanhar) elementos de tradições vizinhas.
A aposta de Bianchi é reler o fascismo histórico como ideologia política sem ceder à banalização do termo
A imagem da capa — um monstro de muitas bocas e muitos olhos — parece representar essa capacidade do fascismo. Estamos, portanto, diante de uma ideologia cuja plasticidade permitiu-lhe recombinar, sob primazia autoritária e nacionalista, argumentos e léxicos oriundos de vertentes liberais elitistas, estatistas e antidemocráticas. O fascismo não se tornou, com isso, mais liberal; ao contrário, mobilizou uma linguagem da liberdade contra a democracia.
É nesse ponto que o livro se mostra mais original e, ao mesmo tempo, mais discutível. A intuição histórica é precisa; o que por vezes falta é um critério conceitual à altura. Se seguirmos Michael Freeden, outra referência nos estudos sobre ideologias políticas, o que distingue uma ideologia não é somente a presença de certos termos ou empréstimos seletivos, mas a maneira como conceitos são articulados numa morfologia específica, ou seja, num arranjo relativamente estável de prioridades, adjacências e funções. Conceitos políticos não aparecem isolados e um mesmo vocabulário pode circular em padrões de pensamento distintos sem conservar o mesmo significado: o teste decisivo é a tarefa que esse vocabulário desempenha em cada configuração.
Convergência
Mais Lidas
A demonstração de Bianchi parece oscilar, por vezes, entre duas teses diferentes. Numa versão mais forte, o fascismo italiano emerge com uma morfologia ideológica específica, operando mediante a sobredeterminação seletiva de elementos discursivos oriundos de um liberalismo italiano historicamente situado, esvaziando-lhes a cadeia de equivalências original e reutilizando-os sob a lógica de fixação de sentido própria ao campo fascista. Numa versão mais restrita, o que o arquivo parece mostrar é antes uma zona de convergência político-intelectual, histórica e seletiva, entre fascistas e setores do liberalismo, sobretudo no quadro da recomposição antissocialista do pós-guerra e da crise do parlamentarismo.
O livro demonstra com vigor essa zona de interseção, circulação e colaboração. O que apresenta com menor nitidez é o passo adicional, que permitiria concluir que estamos diante não apenas de contato, acomodação ou uso tático de léxicos vizinhos, mas de uma incorporação morfológica efetiva. Isto é, da absorção de conceitos liberais que passam a exercer funções internas, recorrentes e estabilizadas numa constelação fascista. Essa ressalva não enfraquece a força empírica do livro; antes, delimita com mais precisão o alcance teórico de sua tese mais ambiciosa.
Vencidos
Fascismo e liberalismo importa também pelo que nos constrange a fazer com a história das derrotas da esquerda. Aqui o contraponto com Enzo Traverso se torna especialmente fecundo. Em Melancolia de esquerda (Âyiné, 2018), Traverso descreve a relação contemporânea da esquerda com seu passado sob o signo de uma melancolia que não se confunde com resignação: trata-se de uma memória das derrotas, de um luto pelos vencidos e de uma fidelidade a um passado que já não se converte espontaneamente em promessa de futuro. Trata-se, ainda assim, de uma crítica melancólica: não resignada ao presente, aberta às lutas em curso, mas incapaz de renovar seu léxico político sem atravessar a experiência da perda e sem se medir, com empatia e lucidez, com os vencidos da história.
O livro de Bianchi resiste a converter o passado em ruína contemplativa, em analogia apressada ou em simples inventário de horrores. Seu trabalho de arquivo restitui inteligibilidade às mediações pelas quais o fascismo pôde emergir também no interior de léxicos, problemas e tradições que, retrospectivamente, liberais prefeririam imaginar como imunes, e, ao fazê-lo, produz uma memória crítica que não consola, mas esclarece.
Esse é o ponto exato a que o autor chega. Ele reconstrói, com notável precisão histórica, as condições de possibilidade da articulação entre liberalismo e fascismo e, assim, nos obriga a encarar a derrota não como destino abstrato, mas como processo politicamente produzido e ideologicamente mediado. O que o livro deixa em suspenso, deliberadamente, é a pergunta que Traverso refaz com especial lucidez: “Como converter a memória das derrotas em aprendizado político para o presente, isto é, em critério de julgamento e capacidade renovada de ação?”.
Ao mostrar que o fascismo italiano não foi apenas antiliberal e que certas posições liberais foram reorganizadas no interior de uma morfologia fascista, Bianchi obriga quem lê a abandonar confortos retrospectivos. Essa é a grande virtude do livro e a razão de sua atualidade. Compreender com rigor, sem analogias fáceis e slogans apressados, é uma forma de resistência intelectual. Em tempos nos quais o horror volta a encontrar formas institucionais, isso não é pouco.
Editoria especial em parceria com o Laut
O LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.
Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Afinidade incômoda”
