Repertório 451 MHz,
Pensar com as mãos
Em episódio realizado ao vivo, a poeta Marília Garcia conversa com a colunista Bruna Beber sobre seu novo livro que investiga a poesia e a criação literária
15ago2025 • Atualizado em: 06jul2026Está no ar o 159º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, a colunista Bruna Beber entrevista a poeta e tradutora Marília Garcia em uma edição especial: pela primeira vez, o podcast foi realizado ao vivo, com a participação de uma plateia.
No encontro, gravado durante A Feira do Livro 2025, elas falam sobre o novo livro de Garcia,Pensar com as mãos (WMF Martins Fontes), que traz uma reunião de ensaios breves sobre poesia e reflete sobre a criação literária. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Além dessa nova coletânea, Marília Garcia já publicou, entre outros, Expedição nebulosa (2023) e Câmera lenta (2017) — este último vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura —, ambos pela Companhia das Letras. Também tradutora e editora, ela é reconhecida por explorar os limites entre a poesia e o ensaio.
Nova colunista do 451 MHz, Bruna Beber também é poeta e tradutora. Seu mais recente lançamento, Romance em doze linhas, reúne seus primeiros livros em uma edição de bolso recém-publicada pela Companhia das Letras.
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Durante a conversa, Garcia conta como surgiu Pensar com as mãos, livro que integra a Coleção Errar Melhor, da WMF Martins Fontes. Dirigida pelo escritor Joca Reiner Terron, a coleção traz obras que refletem sobre o processo da escrita literária.
No episódio, a autora relembra como se deu a construção de Pensar com as mãos, que parte de textos sobre a poesia escritos por ela ao longo dos últimos quinze anos. Segundo Garcia, a primeira ideia era criar uma narrativa com começo, meio e fim, tendo a escrita de poesia como questão central. No entanto, ela acabou optando por um caminho mais livre: reunir textos que traziam questões semelhantes, reescrevê-los e costurá-los para discutir temas como o uso de palavras muito carregadas de sentido — “coração”, por exemplo — e o papel das metáforas.
“Eu fui pegando alguns textos com assuntos afins, então, questões ligadas ao poema, quais palavras a gente pode colocar num poema”, diz. “Se eu for usar a palavra coração, que é uma palavra tão gasta, é possível fazer isso? De que maneira eu vou falar sobre a metáfora dentro do poema? Fui tentando pegar e reescrever e colar”, conta.
Embora os textos sejam ensaios, eles carregam um caráter poético, o que lembra poemas de Garcia que, muitas vezes, se aproximam do ensaio. Ela descreve esses escritos ensaísticos como “o poema no tubo de ensaio”.
“Eu tenho vários poemas, que são esses poemas-falas, que eu acho que se aproximam bastante do ensaio. Eu tentava escrever um poema, mas que fosse também um pouco ensaístico. Então, para começar, ele era uma fala, mas eu tentava escrever como se eu estivesse com as ferramentas do poema”, diz
“Se eu me afastasse muito e ficasse muito próxima do ensaio, eu tentava voltar sempre para o poema”, ela explica. “Eu tentava trazer de volta elementos da poesia, algo que a gente reconhece muito rapidamente, que é a rima. Mas rimas distantes, ou rimas de imagens afins, que voltavam e repetiam ao longo da fala. Acho que é um pouco o poema no tubo de ensaio”, define.
Perguntas como motor
Durante a conversa, Marília Garcia fala também sobre o papel das perguntas na “montagem” do livro. Ela diz que, mesmo quando as questões não são respondidas — o que acontece constantemente —, elas servem como guia. A autora lembra de uma história envolvendo a escritora americana Gertrude Stein (1874-1946), que antes de morrer disse: “Qual é a resposta?”. As últimas palavras registradas de Stein, diante do silêncio das pessoas em sua volta, então foram: “Nesse caso, qual é a pergunta?”.
“A pergunta é o motor mesmo. O livro inteiro vai se desdobrando a partir de muitas perguntas, desde as mais básicas: quem somos, como segurar a onda das coisas, ou como seguir vivendo”, diz Garcia. “Desde perguntas existenciais, filosóficas, até perguntas sobre poesia. A poesia tem que ter um tema poético para ser poesia? O que faz um poema ser poema?”.
Livros do episódio
Veja abaixo a lista de livros que aparecem nesta edição do 451 MHz:

- Câmera lenta, de Marília Garcia (Companhia das Letras, 2017).
- Parque das ruínas, de Marília Garcia (Luna Parque, 2018).
- Os pardais, de Adília Lopes (Assirio & Alvim, 2022).
- Porventura, de Antonio Cicero (Record, 2012).
- Paris não tem centro, de Marília Garcia (7Letras, 2016).
Mais na Quatro Cinco Um
Parque das ruínas (Luna Parque, 2018), livro de Marília Garcia que traz dois poemas longos e explora problemas urbanos do Rio de Janeiro e de suas universidades, relacionando-os a obras de artistas como Debret e David Perlov, foi resenhado por Yasmin Nigri na edição #25 da revista Quatro Cinco Um, publicada em agosto de 2019. Leia aqui.
Além disso, livros de grandes autores traduzidos por ela também foram tema de resenhas na revista dos livros. É o caso de O lugar (Fósforo, 2022), de Annie Ernaux, resenhado por Natalia Timerman na edição #52, e de O que amar quer dizer (Nós, 2023), de Mathieu Lindon, sobre o qual escreveu o colunista Paulo Roberto Pires em 2023.
Colunista do 451 MHz desde abril de 2025, a poeta fluminense Bruna Beber conduz entrevistas no podcast uma vez por mês, compartilhando seu humor sagaz e repertório literário com os ouvintes. Veludo rouco, um de seus livros mais recentes, foi vencedor do prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e resenhado na Quatro Cinco Um pelo jornalista Carlos Marcelo em 2023.
“O passado da escritora nascida em 1984 no estado do Rio de Janeiro está presente nas (muitas) vozes familiares que incorpora aos versos impregnados de cheiros, canções populares, dizeres transfigurados, simples certezas de pessoas próximas”, escreve Marcelo no texto. Leia a íntegra aqui.
Como tradutora, Beber recentemente verteu para o português brasileio o romance De quatro, de Miranda July, publicado pela Amarcord em 2024. Ela falou sobre o livro no 128º episódio do 451 MHz, ao lado de Branca Vianna.
O melhor da literatura LGBTQIA+
Este episódio traz ainda uma dica da escritora e jornalista Petria Chaves. Ela esteve no 146º episódio do 451 MHz, conversando com as escritoras Daniela Arrais e Ryane Leão sobre a coragem de escrever e colocar suas ideias no mundo. Ouça aqui.
Agora, Chaves indica um livro da própria Daniela Arrais: Para todas as mulheres que não tem coragem, publicado em 2024 pelo selo BestSeller, da editora Record.
“A Dani tem um olhar para as redes sociais, para a internet, para o nosso comportamento muito de vanguarda. Nesse livro ela condensa muitas propostas para que a gente tenha coragem, mesmo quando a gente não tem coragem”, resume Chaves.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Apresentação exclusiva: Petrobras
Para falar com a equipe: [email protected]
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