Literatura infantojuvenil,
Um sítio ilustrado
Recriando para o livro ilustrado e interativo o universo da canção “Sítio do Picapau Amarelo”, de Gilberto Gil, o designer e ilustrador Daniel Kondo aproxima o clássico infantil da infância contemporânea
24jan2025 • Atualizado em: 25mar2026Sobreviver ao tempo, ter seus temas contestados, ser alvo de censura, se difundir entre as camadas populares, ser adaptado para o cinema e televisão, ou inspirar outros artistas são características que ajudam a construir a “aura de clássico” e as polêmicas em torno de obras como as da coleção O Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. Entre outras coisas, os livros deram origem a adaptações televisivas, como a produzida pela Rede Globo que tinha como música-tema uma canção de Gilberto Gil. Agora, a canção se transforma no livro Sítio do Picapau Amarelo (Leiturinha, 2024), pensado e ilustrado pelo premiado designer gaúcho Daniel Kondo — que se inspirou na música homônima de Gil e recriou o universo do clássico e da canção com significados renovados.
Kondo constrói uma narrativa visual que mergulha na letra de sucesso criada pelo cantor e compositor baiano em 1977. Com cores vibrantes e que remetem a elementos-chave da cultura e do folclore brasileiro, o designer aproxima o clássico escrito há mais de cem anos de uma criançada que talvez não tenha mais contato com essa história — pelas polêmicas que envolvem o autor e sua criação ou por conta da ausência das adaptações televisivas que foram exibidas diariamente entre os anos 1970 e 2000, como um formato responsável por alavancar tal narrativa no imaginário infantil.
Para além disso, o autor transmite o lirismo, o ritmo e a rima de cada estrofe com peças interativas que se somam à experiência dos pequenos com os livros-objeto. Em entrevista para a Quatro Cinco Um, Kondo conta sobre a adaptação de clássicos e músicas para o universo do livro ilustrado, o crescimento e o futuro do gênero no Brasil e o encontro entre literatura, arte e design para a criação de experiências únicas de leitura.
De onde veio a ideia para ilustrar a música “Sítio do Picapau Amarelo”, de Gilberto Gil?
Esta música é um verdadeiro portal para o imaginário brasileiro. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar com ela, fiquei fascinado pela ideia de traduzir em imagens o universo mágico que Gilberto Gil recriou em sua interpretação da obra de Monteiro Lobato. Além disso, há uma forte nostalgia da infância de grande parte do público leitor, que cresceu assistindo na televisão as aventuras dos personagens do Sítio. A ideia veio de uma vontade de explorar como as palavras e a melodia podem interagir com um novo repertório visual, homenageando tanto a literatura quanto a música brasileira.
Como foi pensar e trabalhar no projeto gráfico, nas ilustrações e nas imagens?
Cada projeto gráfico é único, e este não foi diferente. Meu objetivo foi equilibrar a memória afetiva com um conceito visual atemporal, utilizando elementos que evocassem o Brasil retratado por Lobato e, ao mesmo tempo, dialogassem com o público contemporâneo. As ilustrações foram planejadas como um diálogo profundo com a música, trazendo camadas de significados que enriquecem a experiência de quem interage com o livro.
O processo envolveu muita pesquisa, esboços e experimentações para encontrar uma linguagem visual que respeitasse a essência da obra original, mas que também apresentasse algo inovador. A interatividade do livro — que conta com peças móveis e janelas que se abrem — foi um desafio adicional, pois exigiu repensar o projeto gráfico de uma maneira tridimensional, garantindo que forma e função se complementassem.
Depois de ter ilustrado músicas de Djavan (em Açaí + Seca), Lulu Santos (em Lulu: traço e verso) e do Gilberto Gil, quais outros artistas e canções você ainda gostaria de dar vida dentro do universo do livro ilustrado?
A música brasileira é um terreno fértil de inspirações. Eu adoraria explorar o universo poético de Caetano Veloso, a intensidade de Elis Regina e até mesmo o lirismo de Marisa Monte. Canções como “O Leãozinho” ou “Águas de Março” têm um potencial visual imenso, assim como a narrativa de “Todo o Sentimento”, de Chico Buarque. Além disso, seria incrível mergulhar na obra de artistas internacionais como Patti Smith e Devendra Banhart, cuja poesia e sensibilidade artística têm um apelo visual fascinante.
A música ilustrada do Sítio do Picapau Amarelo poderia renovar o universo criado por Monteiro Lobato de uma maneira que seja mais próxima da infância contemporânea?
A música e as ilustrações funcionam como pontes. Enquanto a obra de Lobato já tem seu lugar no imaginário cultural, adaptações desses tipos podem trazer frescor e conectar crianças de hoje a temas universais, como a curiosidade, a aventura e elementos da brasilidade. É uma oportunidade de atualizar mensagens, tornando-as mais inclusivas e relacionadas às questões do presente.
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Quais são os maiores desafios na hora de adaptar obras realizadas em outros formatos para a obra ilustrada?
A adaptação exige um profundo entendimento do imaginário infantil e das múltiplas linguagens que compõem a infância — que não é um estágio simplificado da vida, mas sim um universo complexo e cheio de camadas. O desafio é traduzir a essência do material original, respeitando sua profundidade e singularidade, enquanto se cria um diálogo visual que seja significativo tanto para as crianças quanto para os adultos que as acompanham. É um processo que exige cuidado, pesquisa e uma intensa compreensão das necessidades emocionais e estéticas do público.
Se boneca de pano é gente, sabugo de milho é gente, o livro ilustrado no Brasil é o quê? Como você vê o espaço que o livro ilustrado vem ganhando dentro da literatura no nosso país?
O livro ilustrado pode ser um híbrido mágico: um espaço onde literatura, arte e design se encontram para criar experiências únicas. É fascinante pensar no trabalho de Bruno Munari, que elevou o livro ao status de objeto interativo; ou de Katsumi Komagata, que o tratava como um elemento lúdico de literatura e poesia. Essas abordagens mostram o quanto o livro ilustrado pode ultrapassar as barreiras tradicionais e se tornar uma obra de arte acessível, dialogando com diferentes idades e contextos.
No Brasil, vejo que o formato tem ganhado cada vez mais espaço, tanto na literatura infantojuvenil quanto na geral, abrindo portas para uma leitura mais sensorial, criativa e rica em significados.
Quais livros você gostaria de ter lido na infância e na juventude?
Adoraria ter tido acesso a livros como Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak; A árvore generosa, de Shel Silverstein; às obras de autores como Peter Sís e a todos os livros da Eva Furnari. São trabalhos que dialogam com o emocional das crianças e estimulam a criatividade com simplicidade e profundidade, e que poderiam ter me inspirado desde cedo a olhar o mundo com olhos mais criativos.
Como podemos incentivar o hábito de leitura nas crianças e jovens?
A leitura começa pelo exemplo. Pais, educadores e figuras inspiradoras podem ser modelos. Além disso, é essencial oferecer livros que dialoguem com os interesses da criança, sejam eles temáticos, visuais ou culturais. Criar momentos de leitura compartilhada, como rodas de histórias ou espaços acolhedores também é fundamental.
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