
Quadrinhos,
Guerra de estrelas
Com estrutura de documentário para a TV, HQ narra curiosidades da batalha de George Lucas para filmar o primeiro Star Wars
01jul2024 | Edição #83Começa com George Lucas tendo um infarto. Ele está no meio da pós-produção de Star Wars — o primeiro filme da saga —, as brigas com a equipe são intensas, o estúdio faz pressão pelo resultado e Lucas, 32 anos, comandando seu terceiro longa–metragem, sente tudo no peito.
A cena de abertura é uma das escolhas curiosas que Laurent Hopman e Renaud Roche fazem em As guerras de Lucas, quadrinho-documentário sobre a produção do primeiro Star Wars. O final da história é bem conhecido: Lucas sobreviveu — na verdade, foi um princípio de infarto provocado por estresse —, o longa quebrou vários recordes de bilheteria e virou uma série de mais de dez filmes e dezenas de derivados.
Apenas parte desse desfecho é contado, pois outra escolha do quadrinho é registrar só o que acontece nas semanas seguintes ao lançamento de Star Wars. A produção do primeiro filme, como os autores provam, já enche sozinha um documentário. E, ainda assim, com recortes dentro desse recorte na vida de Lucas — hoje um octogenário que vive a semiaposentadoria bilionária depois de vender seu império para a Disney, que segue explorando Darth Vader e companhia.
Da cena do infarto, o quadrinho retrocede até a juventude do diretor, adolescente que gosta de testar a velocidade do carro nos arredores da sua cidadezinha na Califórnia. Um acidente, resultado direto da imprudência com o velocímetro, faz ele trocar seu plano de ser piloto de corrida pela faculdade de cinema.
Em alguns momentos, ‘As guerras de Lucas’ se entrega à hagiografia ou ao discurso de fã
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A narrativa avança relativamente rápido pela faculdade, onde Lucas vai conhecer Marcia Griffin, montadora de filmes e sua primeira esposa, e Steven Spielberg, amigo e futuro parceiro de produções. Também não gasta muita tinta com THX 1138 e Loucuras de verão, os dois primeiros filmes que Lucas dirigiu. O foco está mesmo na guerra para fazer Star Wars.
O filme ganha forma lentamente em versões e mais versões do roteiro, que desagradam todos que leem, começando pelo próprio Lucas. Mas ele insiste: uma saga intergaláctica de cavaleiros com espadas de luz enfrentando um império capaz de construir e destruir planetas vai ser uma história legal, mesmo que ele não consiga explicar a ideia no texto.
O sucesso de Loucuras de verão nas bilheterias (US$ 50 milhões com um orçamento de US$ 800 mil) dá alguma margem para negociar com o estúdio 20th Century Fox, ainda reticente em liberar US$ 8 milhões para Lucas mostrar o que não consegue explicar. As discussões sobre o orçamento — que ainda vai estourar — e a pressão do estúdio sobre Lucas atravessam a história.
Bastidores
O roteiro fica pronto depois de duas ou três revisões gerais e da colaboração de colegas. Começa a pré–produção, que envolve encontrar uma equipe disposta a inventar recursos de filmagem que não existem, desenhar cenários e figurino fantasiosos, construir maquetes de naves.
A seleção dos atores é um dos processos que ganha mais destaque no quadrinho, que detalha como se chegou na trinca Mark Hamill (Luke Skywalker), Carrie Fisher (Princesa Leia) e Harrison Ford (Han Solo). O envolvimento do veterano Alec Guinness (Obi-Wan Kenobi) também é explorado — o ator chegou a desistir no meio das filmagens e teve que ser convencido por Lucas a ficar.
As filmagens de fato começam na metade da HQ. A escolha, mais uma vez, é se ater às curiosidades: os percalços com o clima durante gravações de externas no deserto da Tunísia, o horário rigoroso do sindicato do estúdio britânico onde gravaram as cenas internas, o desentendimento entre Anthony Daniels (C-3PO) e Kenny Baker (R2-D2), o romance clandestino entre Harrison Ford e Carrie Fisher…
Na pós-produção, quando se volta à cena do infarto, mais fatos curiosos: as trocas de ideias entre Lucas e Spielberg (e outros diretores famosos, como Brian De Palma e Francis Ford Coppola), a criação da trilha icônica com John Williams e as negociações de contrato, hoje míticas, em que o diretor ficou com uma porcentagem considerável do lucro com bonecos e outros produtos porque a Fox não dava bola para essa renda acessória.
Ao escolher estas e algumas outras histórias em torno da produção do filme, o quadrinho deixa outras de fora. A “forte inspiração”, digamos assim, de Lucas no roteiro de A fortaleza escondida (1958), de Akira Kurosawa, é mencionada, mas não aprofundada; a trama dos dois filmes é cheia de pontos em comum, transportada do Japão feudal para as galáxias. Outra “forte inspiração”, a série de quadrinhos francesa Valérian, nem é citada, o que soa estranho em um quadrinho produzido por franceses. Também passam batido as relações entre o enredo do filme e o conflito entre rebeldes e império na Guerra do Vietnã, que Lucas reconhece até hoje como influência no roteiro.
As escolhas de Hopman e Roche fazem sentido quando se entende o ritmo que quiseram dar ao quadrinho. A estrutura lembra um documentário de TV, feito para prender atenção com cortes rápidos. Por exemplo: a HQ é majoritariamente em preto e branco com tons de cinza, mas há a aplicação pontual de cores para ressaltar momentos de impacto. Em certas passagens, As guerras de Lucas se entrega à hagiografia ou ao discurso de fã. Em um momento das filmagens no qual o diretor discorda do diretor de fotografia, do operador de câmera e do montador, a narração diz que “eles não percebem que [Lucas] é um gênio”.
No geral, contudo, a história mostra as muitas inseguranças e os erros do diretor durante a produção. Mais do que isso, o quadrinho ressalta o trabalho colaborativo no cinema — sendo o seu diretor um gênio ou não, mostra como Star Wars surgiu de um furacão que captou as pessoas certas no momento certo para chegar a um produto de sucesso, que nunca sairia de uma visão só.
Matéria publicada na edição impressa #83 em julho de 2024. Com o título “Guerra de estrelas”
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