Quadrinhos,

Uma ligeira e incompleta história dos quadrinhos

Depois do almanaque Imageria, o escritor Rogério de Campos narra a não narrável história das HQs em volume rico em ilustrações

26ago2022 - 16h50 | Edição #61

O título desta resenha é como Rogério de Campos gostaria de ter nomeado o seu novo livro HQ: uma pequena história dos quadrinhos para uso das novas gerações, lançado em edição física e com imagens pela Veneta — fundada por Campos —, dois anos após ter estreado em e-book pela Edições Sesc São Paulo. Os adjetivos pequeno, ligeiro, subjetivo e incompleto do nome utópico de sua obra não são falsa modéstia do editor e pesquisador do excelente almanaque Imageria (2015), mas sim o reconhecimento de que a história das histórias em quadrinhos talvez nunca consiga ser decifrada — ou, ao menos, resumida num livro só.

Explico: “Quadrinhos são palavras e imagens. Você pode fazer qualquer coisa com palavras e imagens”. Essa frase é do autor de quadrinhos americano Harvey Pekar e está exposta nas primeiras páginas do livro de Campos. Ora, se qualquer coisa pode ser feita com palavras e imagens, e se quadrinhos são palavras e imagens, muita coisa pode ser considerada uma história em quadrinhos. Aliás, é preciso mesmo que haja palavras? É preciso que sempre tenha imagens? Bom, é necessário que exista uma história. E isso há de sobra.

“Podemos imaginar que já na pré-história se repetiu em vários lugares do mundo a cena do bruxo na caverna fazendo os desenhos que depois serão as imagens das histórias que ele irá contar para o resto da tribo. Ele, o inventor das histórias em quadrinhos.” Se os aborígenes australianos, por exemplo, já contavam histórias através de desenhos feitos em cascas de árvores e os sacerdotes bhopas na Índia narravam feitos acompanhados de rolos com ilustrações, não dá para cair na armadilha da resposta do Google, que afirma que o primeiro quadrinho da história foi o americano Yellow Kid, criado por Richard Outcault só em 1895.

Sem querer dar uma de Velho Guerreiro da tv Globo que não veio para explicar, e sim para confundir, o Velho Guerreiro da Veneta divide o seu livro em capítulos que brincam com a falta de precisão e a não necessidade de estabelecer um nascimento para a banda desenhada. São eles: 1. Phad: como a Índia inventou os quadrinhos (e também o cinema); 2. Littérature en Estampes: o professor suíço que inventou as histórias em quadrinhos, que, por sua vez, inventaram o cinema!; 3. Comics: Uma invenção norte-americana, assim como o hambúrguer; 4. Fumetti: como, na verdade, foram os argentinos e os italianos que inventaram os quadrinhos; 5. Mangá: em maio de 1968, as ruas inventam os quadrinhos!; e 6. France: “História em Quadrinhos” vira “Bande Dessinée” — expondo de maneira espirituosa uma disputa conceitual que atravessa séculos e que contraria a realidade. Quando se trata das HQs, todos querem ser o pai da criança.

Campos escancara que as HQs são uma forma de arte tão revolucionária quanto qualquer outra

Diferenciando-se de boa parte dos livros que narram a origem das histórias em quadrinhos, em HQ, Rogério de Campos foge de determinismos em detrimento de ser utilitário. Nas suas pouco mais de 150 páginas, o autor traça a produção das histórias em quadrinhos por meio de seus movimentos e publicações mais importantes. Ele até chega a fazer a sua aposta de quando elas surgiram, mas trata o palpite como ele deve ser tratado: uma hipótese. Afinal, há coisas mais importantes do que ser o dono da razão.

Como é de praxe nos textos de Campos, aqui ele também não banca o isentão e deixa bastante explícitos o seu posicionamento político e a importância de fazê-lo no formato em questão. A título de exemplo, ele conta como as grandes editoras norte-americanas se aproveitaram da censura para voltar ao topo do mercado, como a geração gekigá de Tatsumi e Tsuge inspirou os jovens japoneses a tomar as ruas em 1968 e como os quadrinhos eróticos brasileiros foram sufocados pela ditadura militar.

Revoluções

Na justificativa para a escrita do livro, apresentada na introdução, o autor afirma que o fez apenas “para mostrar para as novas gerações que as coisas nem sempre foram como são, ainda que sempre tenha havido aqueles que garantissem que a situação do momento era eterna”, e acrescenta que a história não deve ser encarada como fardo, mas como fonte de inspiração para novas revoluções. Sem pormenores, Campos escancara que as histórias em quadrinhos são uma forma de arte tão revolucionária quanto qualquer outra.

HQ é uma declaração de amor à nona arte e um lembrete do seu poder absurdo: ainda que sem balõezinhos de fala, foi ela quem espalhou o budismo pelo leste asiático através dos e-toki, criou o “novo homem socialista” na China por meio da produção de versões quadrinizadas de clássicos da literatura chinesa e, quando contadas pelo formato de contação alemão Bänkelsang, chegou a ser proibida pelos nazistas na década de 30.

Revisitando a frase de Harvey Pekar, presente ali no segundo parágrafo, quadrinhos são palavras e imagens. Palavras e imagens conseguem fazer com que qualquer coisa aconteça.

Quem escreveu esse texto

Clara Rellstab

É jornalista, roteirista e repórter do Uol.

Matéria publicada na edição impressa #61 em julho de 2022.