O psicanalista austríaco Sigmund Freud (Paul De La Roussert/Reprodução)

Psicologia,

O tratado da tristeza infinita

Obra clássica de Sigmund Freud, Luto e melancolia volta às prateleiras na tradução precisa e elegante de Marilene Carone

28jul2026

Nos anos 70, não havia no Brasil traduções da obra de Sigmund Freud feitas diretamente do alemão. Dispúnhamos apenas das edições espanholas da Biblioteca Nuova, traduzidas por Luis López-Ballesteros y de Torres, que serviram de base para a Imago publicá-las em português, e uma recém-surgida tradução para o espanhol da Amorrortu.

Em nossos seminários de leitura de Freud, à falta de uma tradução para o português que nos mostrasse o discurso freudiano — conjugação de discurso científico e escrita com estrutura de literatura ficcional, segundo formulação do professor e psicanalista Patrick Mahony — tínhamos a tradução feita ali mesmo, em ato, pela psicanalista brasileira Marilene Carone.

Durante os anos 80, a psicanalista empreendeu sua planejada tradução de Freud diretamente do alemão, legando em nosso idioma Luto e melancolia, A negação e as Conferências introdutórias à psicanalise, uma das obras mais extensas de Freud. Desde então, temos o “prazer do texto” compartilhado por todos os leitores. Publicado em livro pela Cosac Naify em 2011, Luto e melancolia é agora reeditado pela Ubu em sua versão integral, incluindo textos de Maria Rita Kehl, Modesto Carone e Urania Tourinho Peres que acompanham a edição.

A tradução de Marilene Carone é uma escrita clara, límpida, elegante, sem quaisquer escolhas equívocas de termos rebuscados ou que apelem para o cientificismo. Um texto de prazer, na definição de Barthes em O prazer do texto (1973), ou seja, aquele que transmite um “saber com sabor”. Como escreveu Leyla Perrone-Moisés em artigo para a revista Cult: “o prazer do texto nunca é mero diletantismo, mas experiência cognitiva dos diversos objetos culturais corporificada numa linguagem sensível, marcada pelo humor e pelo afeto”.

Embora Barthes se refira ao texto literário, vale para a escrita de Freud, que, à exceção dos trabalhos estritamente dogmáticos, sempre mantém nos textos a dupla procedência: literária e científica.

Luto e melancolia se encerra com a confissão de Freud do caráter não conclusivo de sua investigação sobre o tema. Ela deverá prosseguir. E, de fato, ele seguirá na busca da “inter-relação dos intrincados problemas” que sucedem à experiência traumática primeira com o objeto de investimento libidinal e que darão origem aos quadros de excitação maníaca ou de melancolia. Ambos têm sua expressão normal, seja na alegria ou no triunfo — o primeiro —, seja no luto — o segundo.

Buraco hemorrágico

Freud sofreu muitos lutos. Os mais devastadores se devem à perda de sua filha Sophie aos 26 anos, em 1920, seguida pouco tempo depois pela morte de seu neto Heinz, filho de Sophie. No final da vida, Freud perdeu o lugar que conquistou numa Viena hostil, a qual precisou deixar num exílio forçado. Contudo, é bem cedo em sua obra que aparecem as primeiras reflexões sobre o luto e a melancolia.

No fim de 1894, Freud envia ao amigo Wilhelm Flies uma carta com o “Manuscrito g” anexo. Nele, pela primeira vez, relaciona a melancolia com o luto. “O afeto correspondente à melancolia é o luto.”

Freud em 1926 (Ferdinand Schmutzer/Reprodução)

Para Freud, o que une os dois estados, um normal e outro patológico, é a perda. Na melancolia trata-se de uma perda na vida instintiva, de um luto pela perda da libido. A sua hipótese é a de que os efeitos da melancolia se devem à inibição psíquica com empobrecimento pulsional e dor a respeito disso.

Na melancolia a elaboração da perda é tida como impossível, uma vez que o objeto da perda é desconhecido pelo sujeito — não houve o desaparecimento de uma pessoa querida ou algo que ocupe esse lugar, como a pátria, por exemplo.

Para o pai da psicanálise, o que une os dois estados, um normal e outro patológico, é a perda

No terceiro item desse manuscrito, avança a ideia de que na melancolia as representações sexuais seriam falhas, lacunares e pouco investidas, não havendo então energia sexual suficiente para o investimento do objeto externo. Freud levanta a hipótese da produção de um efeito de sucção da energia sexual para um buraco hemorrágico na esfera psíquica.

O modelo do buraco hemorrágico e a dificuldade de investimento em um objeto seguirá inspirando e guiando as reflexões sobre a melancolia.

Em Luto e melancolia, publicado 23 anos após a redação do “Manuscrito g”, Freud retoma a comparação entre os dois estados, o normal e o patológico, através do discurso. Caracteriza o discurso melancólico pela coragem das autorrecriminações, do autodesnudamento. Situa o embate da melancolia inteiramente no inconsciente, nas representações mnemônicas de coisas que estariam impedidas de se ligar às representações da palavra e chegar à consciência. Já no luto, a elaboração da perda do objeto amado pode se dar pela via normal, ou seja, as representações ganham acesso à palavra. Saber o que perdeu permite ao enlutado uma elaboração pela via da palavra. Para o melancólico essa via está fechada.

O desligamento libidinal do objeto perdido no enlutado se mostra de uma forma mais nuançada muitos anos depois da redação de Luto e melancolia. Certos laços amorosos permanecem como um fundo em relação aos seus substitutos.

É na carta escrita em 11 de abril de 1929, dirigida ao psiquiatra suíço Ludwig Binswanger com o propósito de consolá-lo pela morte do filho, que vemos essa posição diferente de Freud sobre o (in)sucesso do trabalho minucioso do luto.

Embora saibamos que a dor aguda após uma perda assim seguirá seu curso, também sabemos que permaneceremos inconsoláveis e jamais encontraremos um substituto. Não importa o que venha preencher a lacuna, mesmo que a preencha completamente, será sempre algo diferente. E é assim que deve ser. É a única maneira de perpetuar o amor ao qual não queremos renunciar.

Há, pois, lutos finitos e outros lutos que persistem. Em 1924, em Neurose e psicose, Freud se refere à melancolia como algo que ocupa o lugar de um paradigma do grupo das neuroses narcísicas. Uma patologia que se caracteriza pela ausência ou carência das representações devidas a um trauma precoce. Em que consistiu esse trauma e quais representações estão ausentes ou presentes de forma lacunar na melancolia? A origem da melancolia estaria nas condições particulares presentes nos primórdios da vida da criança que determinam um desenvolvimento precário do eu.

É na fala do melancólico que Freud encontra a manifestação de um modelo exigente e inatingível

O melancólico consegue atravessar o complexo de Édipo que separa neuroses de psicoses, mas essa travessia não se faz senão de forma acidentada, deixando falhas na estrutura.

É na fala do melancólico que Freud encontra a manifestação de uma instância recriminadora, de um modelo excessivamente exigente e inatingível que, ao fim e ao cabo, o mantém aprisionado ao campo narcísico. Mas o amor a si está marcado por uma falha incontornável que institui um eu insuficiente. O extraordinário rebaixamento da autoestima se expressa em recriminações e insultos pela sua incapacidade e indignidade.

Verdade de si

O discurso melancólico quando fora da crise aguda tende a ser circular, racionalizante e isolado dos afetos. O sujeito melancólico se põe no lugar de uma testemunha do que se passa consigo. Isso o impede de enunciar uma palavra fecunda, de deixar fluir o dizer criativo e curativo.

A psicanálise concebe o melancólico como tendo sido uma criança que não viveu a experiência prazerosa original de trocas corporais e trocas no plano da linguagem. Suas excitações não ganharam um contorno, e o contato com o mundo resultou numa experiência traumática.

Para Freud, o melancólico capta a verdade de si com mais agudeza que nós. Com seu peculiar humor, Freud se pergunta: por que é preciso adoecer para chegar à verdade e se aproximar do autoconhecimento?

Quem escreveu esse texto

Marilsa Taffarel

É psiquiatra e psicanalista.

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