A escritora e psicanalista Vera Iaconelli (Renato Parada/Divulgação)

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Um deslocamento peculiar

Vera Iaconelli costura suas histórias à teoria psicanalítica e faz de Análise o romance de formação de uma exímia escritora

19nov2025 • Atualizado em: 01dez2025

Por que se reforma uma casa? Por que se começa uma análise? Por que se escreve um livro? Há diversas versões de respostas para essas perguntas. O entrelaçamento desses prismas é o tecido de Análise, de Vera Iaconelli.

Entre o ensaio, o tratado de psicanálise e o romance, Iaconelli desenreda suas histórias, assim no plural. Uma casa em reforma; a internação de sua mãe, de nome idêntico ao seu; a previsão de que, em não muito tempo, verá o nome dela, e então o seu, em uma inscrição tumular; os casamentos, as filhas, o divórcio, a própria infância. E a análise.

No livro em primeira pessoa, a psicanalista escreve sobre os processos analíticos nos quais foi ela a analisanda. Ao narrar os fatos da própria vida, reafirma a psicanálise como lugar em que a história se conta e cujo contar tem o potencial de transformar a história.

O enredo, neste caso, é mesmo digno de um romance. Iaconelli é filha de uma mãe submissa a um pai violento que tinha, além da dela, outra família. É sobrinha de um tio que mostra, vivendo, que a vida se frui, não só se sofre. Mas inevitavelmente se sofre. Dois de seus irmãos morrem, um deles no ano em que se formaria como psicólogo. Uma das versões do que levou a jovem Vera à primeira análise.

Acompanhando cada um de seus processos analíticos, percebemos que uma análise pode ser boa, pode ser ruim e sempre tem limites — talvez seja feita deles. A descrição das (boas) análises possibilita a Iaconelli distinguir o que o processo lhe deu e o que não pode dar. Belo exemplo do primeiro caso é o seguinte:

O primeiro afeto que associei a meu pai foi o medo. O medo me acompanhou por toda a vida, a ponto de eu só me dar conta de sua existência quando ele começou a ceder. Sem análise, eu seguiria acreditando que frio na boca do estômago e respiração curta eram meus estados naturais.

A autora nunca está narrando a si mesma gratuitamente. Serve-se da própria história mais como meio que como fim; consegue costurá-la habilmente à teoria psicanalítica, sem resvalar numa empolação de tom. Com a escrita, transita organicamente dos fatos de sua vida para a teoria. Cita Freud: “Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”.

A análise, explica, só acontece se o analisante se coloca em questão. É no lugar de quem sabe disso que Iaconelli escreve. Não como quem chega a uma compreensão; mais como quem passa a conhecer os próprios contornos e sabe que esse colocar-se em questão nunca cessa.

Desidealizações

A primeira idealização a ser desfeita é a da filha. Iaconelli é a que “vem pouco e fica pouco” no hospital para cuidar da mãe, demarcando tanto sua insuficiência quanto sua força — a de quem não está aqui para agradar. Ao longo da narrativa, vêm a da família (“É difícil admitir, mas famílias têm começo, meio e fim”) e a das análises, que “não são feitas de grandes frases, pelo contrário; são feitas de boas pontuações”. Se não chega à desidealização de si é porque parte dela. “Para deixar de se levar tão a sério, uma vez que mal temos controle do que nos sai da boca.”

Iaconelli mora ao lado da casa onde vai morar. Vizinha de si, está munida de um deslocamento peculiar, talvez o único que permita a alguém se investigar. Está próxima, mas distante. Daí advêm boas metáforas para o processo de análise: assistir à própria reforma, observar de fora (mas não tanto) o lugar de seu futuro; construí-lo ou mesmo inventá-lo. Mas sem idealizações — esta é uma exigência, a maior, que faz a si e a quem a lê.

Sabemos que uma análise pode ser boa, pode ser ruim e sempre tem limites — talvez seja feita deles

A narrativa primordial talvez seja, dentro e fora da análise, a da assunção das falhas, dos buracos que argamassa nenhuma consegue tapar. Análise faz, assim, “construções e improvisos sobre um vazio original”. O pai da autora, por uma razão que lhe permanece enigmática, “podia conquistar tudo, mas sob a condição de perder em seguida”. Se ela parasse aí, falaria apenas do pai. Mas continua, no gesto de compreender e estranhar:

As projeções sobre a descendência são inevitáveis e mesmo desejáveis, se quisermos assumir o lugar de pais. Mas é na diferença entre o que projetamos nos filhos e o que eles nos devolvem que veremos nossa capacidade de amá-los pelo que são.

Nesse plural, cabem ela, seus pais e também cabemos nós, que temos a sorte de a ler.

Consciente de sua herança esburacada, Iaconelli pendura na casa nova uma colher furada. Sua casa, sua possibilidade de acúmulo sem que tudo continue a vazar, tem na parede o vazio como símbolo, como constatação.

Se a tônica na família era “não perguntar, não criticar, [] não opinar”, ela admite enigmas, critica, contraria, opina sem parar. E encontra, na separação do pai há muito morto, uma nova possibilidade de amá-lo: “Renovei meu apreço por esse pai que eu amava odiar na medida exata em que pude me separar da ameaça de sucumbir à sua loucura”.

Esse pai esquecia os filhos na escola, obrigava a família a morar longe do seu trabalho para que pudesse circular com a outra mulher, bebia, fazia da violência um cotidiano. A filha escreve hoje tudo isso “como se fosse a vida de outra pessoa, de um paciente por quem sinto compaixão e indiferença”. Esse gesto, o de, sem se compadecer, tornar-se o outro sobre quem se pode escrever, é a maneira mais profícua — talvez a única — de transformar em literatura a matéria da própria vida. Pois é isso o que Iaconelli faz: literatura, enquanto nos distrai com o movimento duplo de ilustrar sua vida com a teoria psicanalítica e a teoria psicanalítica com sua vida.

Se o primeiro sintoma da menina Vera foi a dificuldade de aprender a ler, Análise surge como o romance de formação da exímia escritora. Ela cita Lacan, para quem “a verdade tem estrutura de ficção”; afasta-se da mãe, mas também de si, “como se duas Veras não pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço, uma atada à cama e outra escapando por um fio, pela fiação, pela ficção”.

E diante de uma plateia que lhe pergunta continuamente acerca da exposição (como se não fosse tácito que, para a escrita, há que se dar tudo), ela — que tinha sido “criada para acreditar que uma mulher precisava de um homem como fiador, mesmo diante da evidência de que [seu pai] mal dava conta de si mesmo” — responde: depois de tantos anos de trabalho para que seus pacientes pudessem bancar o próprio desejo, se ela não pudesse fazer o mesmo, não poderia mais ser psicanalista.

Quem escreveu esse texto

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).