A Feira do Livro, Psicologia,

N’A Feira do Livro, Christian Dunker e Natalia Timerman falam da literatura da perda

Escritores comovem e divertem o público em conversa sobre o luto e a escrita de si na mesa mediada por Tati Bernardi

29jun2024 - 17h34 • 10jul2024 - 13h32
Fotografias de Matias Maxx.

“Escrever é o que se faz quando não há mais nada a fazer”, disse Natalia Timerman na mesa Lutos Infinitos, n’A Feira do Livro. A escritora e psiquiatra conversou com o também escritor e psicanalista Christian Dunker no final da manhã deste sábado, 29, com a mediação de Tati Bernardi.

Sim, teve choro, ou quase: da mediadora, dos autores e da plateia que lotou o palco instalado na praça Charles Miller, em São Paulo. A conversa versou sobre os livros As pequenas chances (Todavia), em que Timerman fala da morte do pai, e Lutos finitos e infinitos (Paidós), em que Dunker escreve não só como teórico da psicanálise, mas também como um filho que perdeu a mãe.

O escritor e psicanalista Christian Dunker e a escritora e psiquiatra Natalia Timerman

“Tive um sonho que impôs a ideia de fazer o livro e conectou vários lutos; o da minha mãe, da minha avó, de meu pai que morreu há trinta anos, meu avô que morreu na Rússia, a morte de Marielle Franco, os mortos da Covid”, disse Dunker.

Para o psicanalista, perdemos os rituais e não fazemos mais o luto coletivamente. “Atualmente, é como se o luto de cada um fosse um livro que cada pessoa precisa fazer.”

A escrita sobre si, em primeira pessoa, também foi um tema que atravessou a mesa sobre “os livros mais pessoais de cada um”, segundo Bernardi, que perguntou a Timerman “por que essa trava de negar que sua literatura é autoficção?”

“Não acho que seja uma trava. Estou escrevendo uma coluna defendendo a escrita de si da acusação de ser narcisista”, disse Timerman. “Toda a escrita é falar de si, do outro e com os outros. E uma mulher que escreve em primeira pessoa hoje é um ato político, nós fomos escritas por homens durante séculos”, completou a escritora.

Quando acaba

“O luto pode acabar quando existe um novo afeto”, disse Dunker, referindo-se, também, à finalização de um livro. “Lembram quando isso aconteceu?”, perguntou Bernardi.

Dunker achava que a hora que terminasse o livro seria esse momento e ficaria feliz. Mas não foi o que aconteceu. “Fiquei triste, muito abalado. Foi o livro mais difícil que escrevi”, contou.

Timerman lembrou quando mandou a versão final para o editor. “Fui andar, coloquei uma playlist de músicas judaicas. Nunca fui ligada nisso, mas fui acolhida pelos rituais [do luto judaico], o livro foi a percepção do nascimento desse interesse. Andei pela [avenida] Paulista feliz, triste e com saudades. Aberta a ser visitada pela tristeza. Talvez o fim do trabalho de luto seja não ter medo de sentir a dor.”

O luto é a tarefa de restabelecer a relação não só com a pessoa que se foi, mas com todos que vieram antes dela, comentou Dunker. Ele contou ter emprestado uma expressão do historiador Luiz Felipe Alencastro – que estará n’A Feira do Livro em uma mesa com Marcelo Rubens Paiva no próximo sábado, 6 – para escrever sobre isso. Alencastro usou a expressão “trato dos viventes” para falar do Brasil que a gente conhece. “Peguei essa expressão para falar da renovação do trato com os que aqui estamos. O luto é falar com os que se foram. Se for bem-feito, a vida passa a significar outra coisa. Todas as perdas nos definem”, disse o psicanalista.

A conversa levou muitos às lágrimas, mas não faltaram risos. “Humor também salva”, avisou a mediadora. Dunker contou a história rocambolesca da escolha do local para onde ele e os familiares levaram as cinzas da mãe, que acabaram indo para Jerusalém. “Cometi um crime internacional, transportei material biológico”, disse.

Com dor ou humor, os autores lembraram que o luto talvez não tenha mesmo um fim. “Morre apenas o suficiente”, disse Timerman, lembrando um poema da polonesa Wisława Szymborska sobre um bicho que se refaz depois de ser cortado. Já Dunker disse gostar de contrapor dois tipos de luto. “A ideia corrente é que temos de diluir aquele que se foi até que pese pouco. Contraponho ao luto ameríndio, um trabalho de decompor e incorporar o outro, mas também de dissolver o próprio eu até esse antigo eu morrer junto”.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)