Política,

Chamado à luta

Livro aborda trajetória política de Abdias Nascimento enquanto sua obra artística é exposta em museus

18mar2022 - 12h38 | Edição #56

Abdias Nascimento teve várias vidas. A lista a seguir não exagera: foi escritor, artista plástico, fundador do Teatro Experimental do Negro, criador do Ipeafro, deputado federal e senador. Sua trajetória singular é incontornável àqueles que desejam voltar os olhos para o enfrentamento do racismo num Brasil que, embora tardiamente, tem olhado de forma mais atenta para as transformações relacionadas ao combate ao preconceito nas suas mais diferentes formas. A propósito, chega a chamar a atenção o fato de que há, como contraponto às iniciativas contra o preconceito, o argumento de que o Brasil tem importado uma agenda. Nada de novo sob o sol. Certa feita, à época em que era parlamentar, Abdias Nascimento ouviu do deputado Carlos Sant’Anna: “V. Exa. conduz-se aqui como um negro americano”. A resposta foi mais original: “V. Exa. aqui está como um racista da África do Sul”.

O trecho acima, assim como a história parlamentar do seu protagonista, está presente no livro Abdias Nascimento, a luta na política. Nele, Elisa Larkin Nascimento, que foi companheira de Abdias, resgata as origens do personagem que dá título à obra. A autora, aliás, faz questão de assinalar que o livro não é uma biografia, mas que pretende dar conta da trajetória política de Abdias, sendo, sobretudo, “um chamado à luta”.


Abdias Nascimento, a luta na política, de Elisa Larkin Nascimento

De fato, as palavras se articulam à jornada difícil de Abdias, que teve sua formação marcada por um itinerário de embates até encontrar o seu caminho como sujeito da própria história. Foi a partir do exemplo que veio de sua própria casa que desenvolveu uma consciência crítica à altura da missão que estabeleceria ao longo de sua atividade como político, como quando sua mãe reagiu à surra que uma criança negra sofria de uma vizinha branca.

Outros momentos de sua formação foram igualmente relevantes, e Elisa Larkin não os esconde. É o caso da relação de Abdias com o integralismo, episódio que até hoje é usado para desqualificar a autoridade moral e questionar a formação intelectual de Abdias. No início da década de 30, “sem formação e informação, sem acesso a leituras aprofundadas sobre o assunto”, Abdias buscava se atualizar quanto às questões políticas do seu tempo. Ficou, então, impressionado com os discursos de Plínio Salgado e leu os manifestos do movimento integralista em defesa do Brasil. E, sim, participou do integralismo, mas tão logo descobriu o racismo no movimento se afastou dessa causa. “Apesar de romper com o integralismo ainda em 1935, até o fim da vida Abdias Nascimento sofreu, por parte de segmentos da esquerda, uma perseguição nunca dirigida a outros intelectuais e figuras públicas em função de seus passados integralistas”, pontua a autora, citando Vinicius de Moraes, Alceu Amoroso Lima, dom Helder Câmara, entre outros.

Elisa Larkin não escreveu Abdias Nascimento, a luta na política como um acerto de contas dez anos depois da morte dele. Em vez disso, a autora calibra o texto para mostrar como a luta antirracista é parte integrante da atividade política de Abdias Nascimento, como se fosse um denominador comum do seu trabalho. E isso pode ser medido no modo como Abdias fazia uso de uma leitura crítica multidisciplinar para mostrar onde estava o veneno do racismo no país.

Um bom exemplo disso está na maneira como Abdias defendia as manifestações de fé oriundas da matriz africana como representação das “peripécias da experiência histórica do negro no Brasil”. Assim, ele se predispôs a apresentar a religião do Candomblé para além da tradicional visão folclórica e superficial dessa religião. Isso aconteceu no Parlamento.

A autora mostra como a luta antirracista é parte integrante da atividade política de Abdias Nascimento

Em outra ocasião, Abdias Nascimento decidiu se insurgir contra ninguém menos do que Jorge Amado, já naquela época um grão-mestre da literatura brasileira tipo exportação, ao destacar o elemento do racismo implícito na obra do autor de Jubiabá. Foi o bastante para que a Assembleia Legislativa da Bahia aprovasse uma moção de desagravo a Jorge Amado. Apesar da tentativa de silenciamento, Abdias não parou por aí. Na tribuna, reagiu e num exercício que mesclava análise literária e crítica aos parlamentares reforçou sua posição, arrematando seus argumentos com a eloquência de arguto orador: “Onde estão as moções dessa Assembleia Legislativa quando, além da violência econômica e cultural, se abate sobre a comunidade negra a violência policial?”.

Abdias Nascimento lutou para que suas palavras não fossem esvaziadas. Nesse sentido, com método, defendeu ações para que o racismo deixasse de ser normalizado. Em junho de 1983, o parlamentar submeteu o “projeto de ação compensatória visando à implementação do princípio de isonomia social do negro”. Dito de outro modo, estabelecia-se ali uma disputa que marcaria a história recente do país, com a agenda das políticas afirmativas. Ainda sustentou que o 20 de novembro, aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, fosse celebrado como o Dia da Consciência Negra.

Legado

Não foi sempre que Abdias Nascimento se saiu vencedor nas disputas de que participou. Ainda assim, ele sempre soube do papel que tinha de desempenhar para “abrir caminhos para os parlamentares brasileiros que o sucederam”. Nesse sentido, é interessante observar que a trajetória de Abdias no livro é seguida por uma entrevista com Benedita da Silva, um artigo de Erica Malunguinho e um poema de Paulo Paim. Embora pertençam a gerações distintas, o que se lê é uma tentativa de mostrar como o legado de Abdias permanece vivo nas vozes desses parlamentares.

De certa maneira, é o que se vê, também, em duas exposições ora em cartaz em dois dos principais museus brasileiros. Desde dezembro de 2021, no Inhotim (MG), está aberta a mostra Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra, que conta com a curadoria conjunta do Ipeafro. Trata-se de um projeto que compreende quatro atos a ser realizados nos próximos dois anos, e o primeiro deles começou com Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra. Mais recentemente, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) inaugurou a exposição Abdias Nascimento: um Artista Panamefricano, que reúne sessenta trabalhos, destacando sua contribuição para a pintura brasileira, recuperando seu percurso como artista plástico, persona que ainda precisa ser celebrada.

À sua maneira, Abdias Nascimento conseguiu unir a defesa de uma causa política tão importante que ia além de seu tempo. Nesse sentido, ele se comportou como um artista que esteve na vanguarda de um movimento que se tornaria mainstream para as gerações futuras.

Quem escreveu esse texto

Fábio Silvestre Cardoso

Jornalista, é autor de Capanema: a história do ministro da Educação que atraiu intelectuais, tentou controlar o poder e sobreviveu à Era Vargas (Record).

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.