História,

As anotações de um homem incontornável

Diários de André Rebouças ajudam a restituir a memória de uma das personalidades fundamentais da história brasileira

13maio2024 - 19h14 • 17maio2024 - 16h41
André Pinto Rebouças em pintura a óleo de Rodolfo Bernardelli de 1857 (coleção do Museu Histórico Nacional) (Museu Histórico Nacional/Reprodução)

Num momento em que a escravidão não estava apenas normalizada, como amparada por lei, André Rebouças se insurgiu como um dos principais articuladores do movimento abolicionista brasileiro. Ao mesmo tempo, como engenheiro de formação, foi responsável pela realização de obras no Império. Se, aos olhos de hoje, parece uma contradição irremediável, o espanto é maior quando se descobre que Rebouças era monarquista e lutou como voluntário na Guerra do Paraguai.

É possível conhecer um tanto mais da trajetória íntima e intelectual de André Rebouças graças ao trabalho da pesquisadora Hebe Mattos e da editora Chão, que tem apresentado ao público nacional a correspondência de Rebouças (Cartas da África: registros de correspondência, 1891-1893, lançado em 2022); e agora, dois anos depois, O engenheiro abolicionista 1. Entre o Atlântico e a Mantiqueira — Diários, 1883-1884.

A pesquisadora e organizadora Hebe Mattos (Divulgação)

Gênero bastante comum numa época em que abordagem confessional tinha valor inestimável, o diário é um exercício não só de registro, mas de meditação. É como se o autor fosse capaz, de uma só vez, de listar os acontecimentos do dia e de comentar o seu significado. É irônico pensar que, neste momento, quando superexposição é a regra, essa modalidade de texto parece ter caído em desuso. A leitura do texto dos diários mostra a força dessas anotações, para além do contexto histórico envolvendo o seu autor. Ainda assim, o quesito histórico é inescapável e de interesse primeiro no caso de André Rebouças.

Quais eram os pensamentos e os hábitos de um personagem tão importante na história do Brasil em geral e na luta abolicionista em particular? Não tivesse sido escrito nos idos do século 19, o leitor mais desavisado poderia supor que, ao menos na parte inicial, as entradas do diário são copia e cola dos dias anteriores, com alguma variação de temperatura seguida das informações sobre as abluções matinais. O que, por um lado, beira o anedótico, por outro, revela um homem constante, que adota a prática da escrita como um ato devoto, quase religioso. Mas essas marcações logo são incrementadas por outras, que ressaltam o espírito social de Rebouças, seja com visitas, jantares e encontros em escritórios diversos.

Agenda cheia

É em meio a tantos compromissos que o leitor observa quão fundamental é a rotina para a produção intelectual de Rebouças. Se não fosse tão organizado, o engenheiro não teria chance de se tornar tão ativo na causa do abolicionismo — esse nem de longe era um trabalho como outro qualquer; tinha, sim, a ver com uma agenda de homem público.

Da mesma forma que ele fazia questão de reparar nas estrelas do céu de modo a registrar “Luar nublado; Marte, Vênus e Saturno muito próximos; nuvens pela manhã; dias de sol; tarde clara”, Rebouças anotava como seu empreendimento em favor da libertação dos escravos avançava com artigos, como o da série “Abolição imediata e sem indenização”.

Se não fosse tão organizado, o engenheiro não teria chance de ser tão ativo na causa do abolicionismo

A julgar pelos registros, o tempo dedicado à elaboração dos textos variava entre duas e três horas. E as entradas do diário ainda mostram o nível da organização do autor: enquanto redigia o nono artigo da série “Abolição imediata e sem indenização”, já estava entregando o sexto texto ao editor da Gazeta da Tarde, José do Patrocínio. Rebouças mantinha uma rotina de estudos tão ou mais intensa com a redação de seus artigos em defesa do abolicionismo e arranjava tempo para as aulas na Escola Politécnica e a supervisão da impressão do livro Agricultura nacional: estudos econômicos.

Outra passagem dos Diários que chama a atenção é a que está sob a rubrica “Engenharia civil, abolição e capitalismo”. A essa altura, o leitor já está acostumado às características das anotações, assim como com a galeria de personagens ilustres, como Raul Pompeia, José do Patrocínio, entre outros, que participam do cotidiano de André Rebouças. Do mesmo modo que é constante a riqueza de detalhes prosaicos, o engenheiro não arreda pé do trabalho como defensor do abolicionismo — e a atividade como autor prossegue de forma objetiva e programada. Neste fragmento, todavia, o que se lê é um envolvimento com a The Minas Central Rail Company e a proposta de uma “empreitada do Caminho de Ferro de Pitangui”.

A partir dos registros, nota-se como a dedicação se intensifica e esse empenho gera resultado, na medida em que as anotações sugerem o avanço das iniciativas.

Gênese da imaginação

A leitura de O engenheiro abolicionista, no entanto, não existiria não fosse a organização de Hebe Mattos. Conforme a apresentação, a pesquisadora constrói uma divisão narrativa de modo a facilitar a leitura do texto. Nesse sentido, os segmentos permitem o acompanhamento das entradas do diário como pegadas para a própria história de André Rebouças e do movimento abolicionista. Leitora atenta e sensível, Mattos consegue sintetizar com precisão as duas paixões do autor: a engenharia e o abolicionismo, de modo que a organização do diário faz essas duas “obsessões” ganharem ainda mais relevância para a trajetória de Rebouças.

(Arquivo Histórico da Universidade Federal de Juiz de Fora/Divulgação)

Além do texto de abertura, este primeiro volume dos diários alcança densidade com o posfácio da organizadora, que explica o que motivou as escolhas da pesquisa. O título do texto, “O retorno de Ulisses: com o remo às costas entre o Atlântico e a Mantiqueira”, aponta para uma chave de leitura diferente.

Mattos adota vasto repertório literário para interpretar os diários. A metáfora do remo às costas, extraída de um episódio da Odisseia, apareceu enquanto ela lia as anotações da volta de Londres ao Rio e depois das viagens a Minas Gerais como representante da Minas Central Railway. É um exemplo de crítica singular, desses que mostram como a leitura atenta de um documento exige repertório que vai além da identificação da legitimidade dos manuscritos.

Mattos adota vasto repertório literário para interpretar os diários de André Rebouças

O posfácio articula, ainda, o modo como Rebouças projetava o impacto da abolição junto à sociedade brasileira, o que, de certa forma, explica o estilo de sua defesa. Hebe Mattos demonstra como essa imaginação operou em duas passagens bastante preciosas do ponto de vista do resgate da história das ideias. Na primeira delas, a pesquisadora aponta como Rebouças imaginava a viabilidade do fim da escravidão a partir da exposição das ideias. Como homem culto e sofisticado que era, ele elaborava, racionalmente, por que o fim da escravidão teria impactos positivos para o desenvolvimento da nação. Nas palavras de Hebe Mattos:

Escreveu mais de um artigo sobre a guerra de emancipação dos Estados Unidos. Buscava demonstrar os bons resultados da abolição para a economia daquele país e a “superioridade dos libertos” como trabalhadores, sempre que bem respeitados como homens e mulheres livres.

Na segunda passagem, a pesquisadora elucida a gênese dessa imaginação. De acordo com Mattos, o modo como o engenheiro percebia as possibilidades do fim da escravidão a partir da própria experiência — um homem que conseguiu ascender graças à condição de homem livre, o que lhe deu oportunidade para estudar.

Rebouças, ele próprio, estava distante algumas gerações de qualquer experiência da escravidão. Como o pai, que se afirmara fiador dos brasileiros por sua condição de deputado e homem pardo, gostava de imaginar-se como prova viva das possibilidades de cidadania plena aos egressos do cativeiro e seus descendentes. Mobilizava-se em especial pela causa da educação das crianças nascidas formalmente livres após a aprovação, em 28 de setembro de 1871, da lei conhecida como Lei do Ventre Livre.

O engenheiro abolicionista ajuda a restituir aos brasileiros a memória de uma de suas personalidades fundamentais, que, há muito, deveria ter se tornado incontornável. A partir da leitura da sua correspondência e, agora, com os diários, é possível começar a ter a dimensão da grandiosidade de seu trabalho — cuja importância foi além, hoje se sabe, das obras públicas das quais foi responsável (com seu irmão Antônio) no Segundo Reinado. Em seus diários, André Rebouças mostrou como sua independência, sua paixão pelo bom combate de ideias e sua visão de futuro foram decisivas para que as ideias abolicionistas desafiassem a norma da escravidão

Quem escreveu esse texto

Fábio Silvestre Cardoso

Jornalista, é autor de Capanema: a história do ministro da Educação que atraiu intelectuais, tentou controlar o poder e sobreviveu à Era Vargas (Record).