Poesia,

Sobretudo o mar

Extensa antologia organizada por Eucanaã Ferraz reúne poemas da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen

20nov2018 - 16h56 | Edição #12 jun.2018

É no mínimo curioso ler uma antologia extensa de poemas de algum poeta consagrado sem quase nenhum poema de amor. Mas é isso o que ocorre em coral e outros poemas, de Sophia de Mello Breyner Andresen, coligido e prefaciado por Eucanaã Ferraz. Será que o antologista não se interessou por esses poemas ou será que a poeta não os escreveu? 

Na verdade, não é nem uma nem outra a resposta. Se seguirmos o pensamento grego sobre o amor — e a poesia de Andresen é essencialmente clássica — pode-se dizer que todos os seus poemas são de amor. É como se os versos tivessem alcançado o estágio amoroso da philia, em que o objeto do amor é prescindível, porque ama-se gratuitamente, sem necessidade de um predicado. Como no livro de Mário de Andrade, também aqui amar é um verbo intransitivo.

E é mesmo da intransitividade que trata o livro. Quase tudo aqui é franqueado, desprovido de utilidade imediata ou localizável: ama-se sobretudo o mar, exclusivamente porque ele é belo. A natureza, sob a forma concreta do vento, das árvores, da luz, das manhãs. Ama-se os nomes das coisas, as palavras e a possibilidade que elas carregam de promover o silêncio; o ritmo exato do mundo, expresso rigorosamente nas sílabas poéticas, guardiãs do tempo: “(…) O vasto espaço da sílaba medida/ Inventa a ordem sem lacuna onde nada/ Pode ser deslocado ou traduzido” ou “a teoria ordenada das sílabas — portadoras limpas da serenidade”. Ama-se a inocência que, conclusivamente, a leva a detestar a falsa sabedoria: "É sábio hábil arguto informado/ Porém quando ele escreve/ As Ménades não dançam” e, significativamente, a inversão da fala derradeira de Jesus: “Perdoai-lhes Senhor/ Porque eles sabem o que fazem”. Ama-se as cidades  — Lisboa, Brasília, Creta — e as pessoas — João Cabral, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa. Ama-se porque, para ela, a própria poesia é amar ou “viver a inteireza do possível”. 

E é nesse possível que se constata, apesar da busca ideal pela imanência e de uma unidade perdida sonhada entre as palavras e as coisas, também a inevitabilidade do mal a penetrar a história e o tempo: “A civilização que estamos é tão errada que/ Nela o pensamento se desligou da mão”; “E no país de espanto e de tumulto/ Em mim se desuniu o que eu unia”. E, por exemplo, sobre a tortura no Brasil durante os anos 1970: “Mas ao Brasil que tortura/ Só podemos dizer não”.

Dualidade

No excelente prefácio, Eucanaã Ferraz aponta para a inesperada consciência da dualidade que surge na poesia de Andresen, depois de um início idealmente dedicado à unidade entre os seres, entre os seres e a natureza e entre a natureza e as palavras: “Ao compor um título (Mar Novo) em que a renovação qualifica o elemento mais antigo e permanente de sua poética, Sophia lança luz sobre algum itinerário (…) mas também sobre a profunda relação que mantém com as coisas do mundo: a modificação não existe desligada da continuidade”. Mais tarde, e supreendentemente, a poeta lança um livro que atesta a perda da totalidade no próprio título: Dual. No poema “Data”, por exemplo, surge uma espécie de Eclesiastes ao contrário, pois não há oposição entre o tempo bom e o tempo difícil, mas apenas o tempo da angústia: “Tempo de solidão e de incerteza/ Tempo de medo e tempo de traição/ Tempo de injustiça e de vileza/ Tempo de negação”.

O silêncio, tão visado pela autora, é pré-linguístico, anterior à mítica separação entre coisas e palavras

O silêncio, tão visado pela autora (e por praticamente todos os poetas), é um silêncio pré-linguístico, anterior ainda à atribuição de nomes para as coisas, antes da mítica separação entre coisas e palavras. É como se a poesia, com seu ritmo que ouve o fluxo do mundo, restaurasse para nós essa cadeia perdida. Mas, dentro dessa dualidade inexorável, existe uma outra espécie de silêncio, não desejado, mas presente: o silêncio do vazio e da impotência. Não o silêncio da plenitude, mas o da ausência. Como em “Poema de geometria e de silêncio/ Ângulos agudos e lisos/ Entre duas linhas vive o branco”, mas o que resta é que “Nesta página só há a angústia a destruir/ Um desejo de lisura e branco,/ Um arco que se curve — até que o pranto/ De todas as palavras me liberte”.

Nesta divisão entre o tempo histórico e cruel e o tempo da natureza, imponderável, é claro que sua poesia quer o último, mas, nem por isso, é uma poesia que ambiciona a eternidade. Sua busca é, ao contrário, pelo presente, como mostra essa Prece: "Que nenhuma estrela queime o teu perfil/ Que nenhum deus se lembre do teu nome/ Quem nem o vento passe por onde tu passas (…)”. Essa prece, como outras referências a algum deus nesta antologia, é dirigida a todos os deuses ou, talvez, a nenhum. 

Entre pagã e agnóstica, sua voz é, como se disse, clássica, sem deixar de ser moderna. Sua transcendência está por aqui, no mistério da natureza autônoma e do tempo que passa sem se dar conta de nós. É uma espécie de “transcendência imanente”, apesar do paradoxo, porque as coisas por elas mesmas adquirem consistência sagrada e, por sua vez, o metafísico passa a acontecer por aqui mesmo, no mundo. Por isso não é pela posteridade que ela almeja, mas pela pequena lembrança e pela possibilidade de congratular-se com o real: “Como um fruto que mostra/ Aberto pelo meio/ A frescura do centro/ Assim é a manhã/ Dentro da qual eu entro”.

Para quem está esquecido de si, imerso na sequência vertiginosa dos fatos, perdido entre notícias que perderam o espanto, leia Sophia de Mello Breyner Andresen, pois com ela “Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos (…)/ Ressurgiremos ali onde as palavras/ São o nome das coisas”.

Quem escreveu esse texto

Noemi Jaffe

Escritora e crítica literária, é autora de Não está mais aqui quem falou (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #12 jun.2018 em junho de 2018.